sábado, 28 de março de 2015

"Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho


"Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho, é um romance muito premiado que decorre na província romana da Lusitânia, no tempo de imperador Marco Aurélio, na cidade imaginária de Tarcisis, que se situaria no atual Alentejo, não muito longe de Évora, reflete o problema da aplicação da justiça numa sociedade em mudança, com a insegurança das primeiras invasões mouras a preocupar os dirigentes, com a nova religião cristã a proliferar entre os mais humildes e a conquistar outros mais importantes e a colocar em causa as tradições pagãs e minar as decisões dos governantes que pretendam agir justamente no seio de um equilíbrio precário.
Mário Carvalho tem uma escrita lexical muito rica a que se juntam os nomes dos objetos, cargos e tradições da época, originando um texto onde a variedade dos vocábulos da nossa língua está bem acima do habitual. Além disso, com inteligência e subtileza, o autor coloca em debate muitos dos problemas da sociedade da época que são ainda preocupações de hoje: a tendência interesseira de uns em manipular a opinião pública na conquista do poder, a dificuldade de se ser justo numa sociedade influenciável, supersticiosa e tradicionalista perante os desestabilizadores das populações em ambientes de crise e de mudança de valores e ainda o dilema de distinção do interesse público e os sentimentos privados.
A estória, muito bem contada e vista pelo homem da justiça, mostra os vícios ocultos e fragilidades das várias partes, os desafios e desconfiança que o cristianismo punha ao império romano, as paixões do coração que também obscurecem a gestão do homem justo e levam a que este fique preso numa teia que se vai montando. Os problemas de então podem levar a uma reflexão sobre a situação nacional no ambiente de crise atual. Um excelente romance acessível a qualquer leitor e altamente recomendável.

4 comentários:

DIARIOS IONAH disse...

Creio que eu iria gostar!

Carlos Faria disse...

Penso até porque dá para perceber o caldeirão de influências em que nasceu a cultura portuguesa.

Pedrita disse...

anotado. beijos, pedrita

Kelly Oliveira disse...

Gostei da premissa, anotei na lista de livros para ler :)