domingo, 22 de março de 2015

"O Pintassilgo" de Donna Tartt


"O pintassilgo" de Donna Tartt que acabei de ler, que se serve da homónima obra-prima da pintura flamenga de Fabritius como ponto de partida, pode enquadrar-se no género literário habitualmente designado por "thriller", até porque os ingredientes e estrutura da obra estão lá todos, mas é também um romance muito mais profundo, pois para além da excitação e ritmo e ânsia a que este tipo de histórias normalmente se limita, há também uma reflexão e abordagem à sensação de perda de alguém que se ama, neste caso a mãe, e de quem estamos dependentes para encontrar o nosso espaço num mundo vertiginoso e niilista.  A escolha da autodestruição como revolta a esta perda e desnorte e a possibilidade de reabilitação da pessoa mesmo como consequência das más escolhas nesta via de protesto leva a uma interrogação no final do livro: será que o mal pode provocar o bem?
No romance vemos muito  de uma geração jovem norte-americana sem referências e sem o farol dos mais velhos, perdida entre a droga, a desatenção dos pais através de uma comunidade que passa pelo mundo da arte, dos antiquários e do submundo que também obscurece este grupo, com ladrões, chantagens, vítimas inocentes e culpadas.
Um livro extenso, quase 900 páginas, muito bom, num estilo de escrita que parece casual mas cuidado tipicamente norteamericano, que consegue conciliar a literatura de fácil leitura para quem se contenta com romances de entretenimento, mas que junta sem perturbar interrogações de maior dificuldade de resposta para leitores mais exigentes literariamente. Gostei muito e recomendo a qualquer pessoa.

6 comentários:

Denise disse...

Olá Carlos,

Um grande livro sim, de uma autora que admiro imenso.
Apesar de ter gostado de todos os livros de Donna Tartt, «A História Secreta» é o livro que mais me fascinou. É soberbo.

Boas leituras!

Carlos Faria disse...

Este foi estreia absoluta na escritora, mas fiquei com vontade de ler os outros dois que penso estarem editados em Portugal.

Miguel Jerónimo disse...

Tenho muito interesse em ler Donna Tartt. Porém, ainda que sem fundamento nenhum, acho a dimensão dos seus livros descabida.

Carlos Faria disse...

Curiosamente nos últimos meses tenho estado virado para obras grandes. Mesmo assim este lê-se depressa devido a não ter uma escrita com subtilezas e velocidade da ação.

Pedrita disse...

quero muito ler. mais um blog me instigando a lê-lo. beijos, pedrita

Pedrita disse...

realmente a questão da maternidade é de cortar o coração. ele fica solto no mundo, sem laços, muito doloroso. eu acho que se ele continuasse acolhido naquela família do andy, talvez tivesse se encontrado. com o apoio do antiquário. acho que o que se torna desastroso pra ele é ficar solto em las vegas, em amor, sem função. ali que realmente se perde e se revolta. tudo passa a não ter sentido. eu amei. mencionei o seu post no meu blog.