domingo, 4 de maio de 2014

"A Quinta Essência" de Agustina Bessa-Luís


Terminei a leitura de "A quinta essência", de Agustina Bessa-Luís relativa "a uma forma de criação do nada coisa efémeras que nunca acabam"... "a região do fogo e do amor" e o livro faz isso.
É uma escrita onde não há é espaço de tempo para tanta ideia, informação e pormenor do que Agustina quer introduzir na construção frásica. Cada parágrafo é como um painel de talha dourada de um altar barroco, onde facilmente nos podemos perder tal é a densidade de elementos é um pórtico de Gaudi e dificilmente se apreende tudo à primeira.
O mundo a partir dos olhos de José Carlos, vindo de uma família pretensamente burguesa da região do Porto, uma classe que se habituou às regalias que de repente se torna alvo dos ódios no 25 de Abril, que desestabilizam o status quo e onde cada um encontra artifícios para se adaptar.
Nasce assim um projeto de vingança do protagonista que o leva até Macau... dá-se então a fascinação do que foi a história e o choque do encontro de duas civilizações e duas formas de pensar. Uma pretensa cultura superior vê-se perante outra requintada, profunda, já milenar e avançada e dificilmente compreensível para uns ocidentais com mera vocação comercial e evangelizadora que se instalam na península de Ama Cao. Descobre-se então como uma China que na sua suprema inteligência deixa o território tornar-se num cadinho de trocas de todo os género e mentalidades que salvaguardou uma coexistência e criou teia de relações únicas entre dois mundos.
O livro é uma joia (as pérolas são muito comuns no sul da Ásia e logo desvalorizadas pelas elites orientais) onde se mergulha e se percebe o que foram estes quinhentos anos de Portugueses/Jesuítas por terras do império do meio e os jogos dos chineses, as sujas filosofias, mas onde há o risco de nos perdermos em tal densidade que faz numa obra do tamanho de um volume de "Em busca do tempo perdido", um retrato social e histórico bem maior. Gostei muito, mas o livro nem sempre é fácil.

3 comentários:

Pedrita disse...

fiquei com muita vontade de ler. esse outro livro que está em leitura tb não conheço. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

O que li agora é dos livros mais densos que por vezes perdemo-nos no seio de tanta informação, a trama não é muito complexa, serve sobretudo de acessório a apresentar o que terão sido as relações ocidente/oriente através de Macau.
Tabucchi é sem dúvida o maior introdutor de Pessoa na cultura Italiana e a maior ponte de literatura italiana com Portugal, país que adoptou e onde veio a falecer em 2012.
Tem um livro de contos passado em grande parte aqui no Faial "A mulher de Porto Pim" algo entre o Velho e o Mar e Jorge Luís Borges.

Pedrita disse...

fiquei muito interessada. obrigada