Acabei de ler o livro, do género ensaio e em formato ebook, "As Causas do Atraso Português" do catedrático em economia Nuno Palma.
A obra expõe a história da evolução do grau de desenvolvimento económico de Portugal desde o final da Idade Média até à atualidade, comparando, ao longo dos tempos, a situação nacional com a da Europa e, com maior pormenor, com o Reino Unido e a Espanha, entre outros. Ao longo do desenrolar do texto, o autor vai denunciando mitos que se foram instalando na nossa sociedade sobre o nosso passado e que encobrem a realidade e disfarçam muitas das razões da divergência desfavorável do progresso deste Pais face ao de outros Estados europeus. O economista suporta-se em numerosos documentos históricos e apresenta um conjunto de gráficos, tabelas e imagens que demonstram as conclusões ao longo do livro.
Um dos aspetos que fica claro nesta obra é que Portugal, no final da idade média, era um Estado com um grau de desenvolvimento políticoinstitucional, económico e em riqueza, equiparado ao da maioria dos principais Países da Europa Ocidental, até com um grau de participação de cidadania mais avançada do que o de alguns outros reinos que se tornaram exemplos de democraticidade e desenvolvimento. Situação que permitiu a Portugal ter condições para ser pioneiro na epopeia dos descobrimentos, só possível numa sociedade com um alto grau de conhecimento científico, técnico, possibilidades financeiras e estratégia de longo prazo.
A situação de equiparação de desenvolvimento socioeconómica ou mesmo de posição charneira de Portugal estendeu-se sensivelmente até ao século XVIII, período em que se inicia o desfasamento desfavorável do progresso deste País face a outras nações europeias, momento que começaram e deitaram raízes muitas das causas do atraso português que o autor vai lançando e dissecando com exemplos claros e desmistificando muitos dos falsos argumentos que se foram entretanto se instalando, os quais, desde então, têm impedido a não recuperação sustentada do progresso deste Estado em comparação com outros, nomeadamente, os Países do Leste Europeu já em pleno século XXI que vieram que entraram na democracia com um grande atraso económico face ao nosso País.
Foi a partir da época da perda de velocidade do progresso do desenvolvimento económico de Portugal que os mitos foram sendo criados e as desculpas se instalando. O autor demonstra o contributo negativo da riqueza do império e do Marquês de Pombal na evolução da economia do País. Deixa claro que são falsos argumentos a nossa perifericidade, a Religião e dimensão, mas desde o século XVIII que o método de desculpar os falhanços em cada época tem-se repetido e assenta em responsabilizar o regime anterior, muitas vezes desvirtuando a realidade histórica, para esconder os erros do momento e onde o discurso dos propósitos políticos em cada época, frequentemente, tendem a ser contrários ao dos seus resultados práticos.
Pombal responsabilizou os Jesuítas, apesar da inquisição ser presidida pelo seu irmão; os liberais responsabilizaram os absolutistas, os republicanos a monarquia, o Estado Novo a 1ª República e a Democracia atual a Ditadura de Salazar... enquanto muitos dos mesmos erros continuam a persistir e se assiste ao aumento da irrelevância do País e à ultrapassagem deste pelo desenvolvimento socioeconómico, agora até pela Europa de Leste.
No últimos 300 anos também houve períodos de recuperação, a obra também aborda os seus motivos, mas raramente reconhecidos pelo regime político seguinte. Eis um livro que não deve ser lido por quem se quer agarrar aos mitos e às mentiras que persistem para justificar as causas do atraso português, pois a verdade é dura e sem preconceitos ou desculpas.

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