quarta-feira, 1 de junho de 2016

"Húmus" de Raul Brandão


"Húmus" de Raul Brandão é por muitos considerado como um dos livros mais marcantes e importantes da história da literatura de Portugal. Todavia é uma obra cujo género literário é quase impossível de caracterizar: não é uma obra de ficção, mas parte de um enquadramento e personagens ficcionadas; não é um ensaio filosófico, mas expõe uma sequência de reflexões que são encadeadas filosoficamente e seguindo uma via existencialista; o texto não é poesia, mas é trabalhado como se fosse um poema, embora também não encaixe bem no estilo de poesia em prosa ou de prosa poética; e sem dúvida mostra a genialidade do escritor em saber escrever e tratar a língua Portuguesa na escrita, senti inclusive uma proximidade à forma como Pessoa trabalha as palavras no "Livro do Desassossego".
A partir da descrição de uma pequena vila do interior, triste, insignificante e pacata, bem como do dia-a-dia dos seus habitantes mais idosos que já sentem o ocaso da vida, tristes, amargurados e sem perspetivas mas com passado; o protagonista, que por vezes discute consigo mesmo na figura de Gabiru, sente que a vida foi um engano ao concluir pela inexistência de Deus ou que este não está disponível para o Homem e deduz que foi pela força da morte que se moldaram as opções de vida.
Começa então uma sequência de raciocínios lógicos, amargos e existencialistas que evidenciam como as personagens da vila viveram reféns de regras para salvarem a sua alma e evitarem a morte na eternidade, chegando à velhice frustradas, rancorosas uma forma vã para conquistar a salvação de um Deus que provavelmente não existe ou não vê, nem ouve os gritos de sofrimento da Humanidade para lhe agradar: entre elas a mulher que acolhe a órfã para cumprir o seu dever, educa-a no seu lugar e esta engravida do seu filho; a outra, criada de esfrega com uma filha, que se une aos ladrões e na sua infelicidade cria um mundo fantasioso sobre a situação da sua filha; a moribunda que não quer morrer; até à descrição da inveja e fel que se instala entre os velhos cujo passatempo são as cartas e e se subjugaram a regras hipócritas para se socializarem mas que não vale a pena respeitar sem um Deus que compense esse sacrifício. A influência de Dostoievski torna-se evidente com a mesma conclusão deste: Sem Deus não precisamos de nos limitar nas nossas ações e não há limite para o mal que desejamos fazer.
Após duzentas páginas de revolta, eis que o livro dá uma grande volta e cheio de luz prateada perante uma reviravolta nas conclusões de Gabiru e o húmus que une a morte à vida na sequência do desaparecimento da sua esposa. Uma obra que em termos de escrita é uma jóia, mas muito difícil de se ler e só recomendo a quem gosta desta luta contínua de reflexões e revolta em estilo de ensaio filosófico, mas valeu a pena ler.

6 comentários:

Pedrita disse...

não conhecia. o do zweig quero muito ler. vi vários documentários sobre zweig. filmes de suas obras. mas não li nada de ficção dele. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

É normal, é uma obra muito densa para grande divulgação comercial, mas é de facto genial, embora difícil de se ler.
Zweig é estreia absoluta para mim. Curiosamente fugiu para o Brasil tendo-se suicidade mais tarde em Petrópolis, RJ, cidade que muito gostei.

Mauricio Vicente disse...

Como vc disse, parece ser dificil de ler, mas gosto da genialidade em uma história complexa, qnd tiver tempo vou dá uma lida nele.

Seriesoulivros.blogspot.com

Carlos Faria disse...

Não há uma trama no modo tradicional no desenvolvimento da obra, há narrações dispersas de situações de vida de algumas personagens que vão sendo descritas no livro, o que há é um encandeamento de reflexões, deduções, fundamentações onde essas personagens servem de exemplos para aquilo que o protagonista pretende dizer.
Agora a escrita... Genial na arte de mostrar como escrever!

Manuel Cardoso disse...

Sem dúvida que vale a pena ler, mas se a encararmos como romance, é bem chata, esta obra. No entanto, é daqueles livros que desafiam a inteligência, que nos põem as células cinzentas a funcionar...

Carlos Faria disse...

Aliás só no fim e depois de se compreender toda a argumentação do autor é que se consegue dizer: valeu a penas a leitura até ao fim.