sábado, 24 de outubro de 2015

"Volfrâmio" de Aquilino Ribeiro


Acabei de ler "Volfrâmio" de um dos escritores portugueses mais importantes do século XX, Aquilino Ribeiro, um romance que em simultâneo cumpre vários papeis.
Mostrar o que foi a corrida desenfreada da população ao minério de volfrâmio ou tungsténio durante a segunda guerra mundial no interior de Portugal para o exportar para a Inglaterra ou Alemanha para fabrico de armamento, tendo em conta que este elemento químico aumenta a resistência das ligas metálicas e melhora capacidade explosiva do equipamento bélico, situação que gerou uma loucura generalizada semelhante à da febre do ouro. Esta ânsia de encontrar volframite ou de adquirir terrenos potencialmente detentores deste mineral levou à riqueza de muitos, à desgraça e exploração de outros e a uma luta sem ética nas populações indiferente à mortandade que grassava na Europa.
Destruir o mito romântico de que as pessoas rurais são simples, honestas e honradas ao contrário das urbanas, no seio da província lavram todos os vícios que empestam as cidades: a argúcia maldosa, a mentira, a inveja, a mesquinhice, os grupos de malfeitorias, as traições, o domínio dos mais fortes que infernizam a vida de muitos e onde não falta a violência e o crime neste mundo tido por são e pacífico.
Por fim e não menos importante, Aquilino mostra a diversidade lexical do português das Beiras, da designação dos utensílios da economia rural e recorre ao vocabulário em vias de esquecimento, escrevendo um texto não só magnificamente elaborado e cheio de figuras de estilo com raízes nos falares e provérbios populares, como também com uma riqueza de termos e uma elegância linguística que delicia todos os que apreciam a escrita como forma de arte. Todavia nem sempre é fácil apreender o significado de todas as palavras usadas quer pela abundância, quer pela frequência e proximidade em determinados parágrafo.
Assim, por estes três aspetos estamos perante um romance histórico e uma colectânea da riqueza da língua numa história acessível, uma vezes irónica, outras divertida e com momentos densos e amargos do que foram as dificuldades vividas nas nossas aldeias devido à pobreza das pessoas e à luta entre as virtude e defeitos da população portuguesa, sendo que estes também não são poucos.

8 comentários:

Pedrita disse...

nossa, deve ser muito interessante. não conhecia esse autor. beijos, pedrita

Pedrita disse...

gostei de o estrangeiro.

Carlos Faria disse...

É talvez em termos de ficção o escritor mais importante da primeira metade do século XX em Portugal e o que utiliza a maior diversidade lexical da nossa língua, tanto erudita como popular.
O Estrangeiro é uma releitura tendo em conta o próximo livro que pretendo ler.

Manuel Cardoso disse...

Aflige-me um bocadinho o vocabulário floreado do Aquilino. Mas para lá disso foi um génio na forma de abordar a relação do homem com a terra e a natureza das comunidades agrícolas. Um grande escritor, grande homem e grande humanista.

Carlos Faria disse...

Pois concordo e por isso por vezes há que repetir um parágrafo para apreendermos o seu conteúdo entre os floreados e o léxico desconhecido

ematejoca disse...

Aquilino Ribeiro é, sem dúvida, um dos escritores portugueses mais importantes do século XX.

Li "Volfrâmio" andava ainda no liceu. O Carlos abriu-me o apetite de o ler outra vez. Um dos romances preferidos do meu pai (padrasto).

Continuação de boas leituras.

Carlos Faria disse...

No liceu li O Malhadinhas e fico muito contente por saber que um post nest blogue desperta o apetite de outras pessoas lerem um bom livro de que tenha aqui falado.

nuno martins disse...

Aquilino... Por incrível que pareça e com muita "mea culpa" só muito, mas mesmo muito recentemente o descobri... Claro que o conhecia de nome, mas nunca tinha lido nada dele, até que neste verão com curiosidade comprei uma edição de bolso de "A Casa Grande de Romarigães" e foi logo "paixão à vista", neste caso primeira leitura. Aquilino é grande, não é fácil de ler, todo o léxico e regionalismos que ele usa obriga-nos a uma leitura atenta e por vezes a releitura de frase e parágrafos, mas com a beleza das suas histórias isso só as faz apreciar ainda mais. Volfrâmio é um exemplo disso mesmo, a vida do povo da serra, as invejas, a mesquinhez, a pobreza e ânsia de querer mais que a febre do Volfrâmio provocou é transposta de forma soberba por Aquilino, que também faz uma dura crítica social neste seu (e outros) livro, sendo por isso perseguido e mesmo preso durante o fascismo.
Já tenho em fila de espera para leitura "Quando os Lobos Uivam" um dos livros mais polémicos dele.
P.S. Li o "Volfrâmio" numa edição de 1960, que comprei ainda novo (com as folhas coladas em cima como vinham na época) num alfarrabista aqui em Lisboa... Absolutamente delicioso...