domingo, 3 de agosto de 2014

"O nome da rosa" de Umberto Eco

"O nome da rosa" de Umberto Eco foi um dos principais sucessos literários na Europa em meados da década de 1980 e teve outro êxito na versão cinematográfica imediatamente a seguir, que então vi e esperei para me esquecer de quase toda a trama para ler o livro, que é talvez a obra mais famosa deste escritor italiano.
Um romance sobre livros, questões teológicas e políticas do final da idade média que se enquadra tanto no género policial, como histórico, onde, através de uma investigação em torno de uma série de crimes sucessivos de frades ligados às funções de copistas, bibliotecários, guardiães do saber e se encobrimento das heresias e conceitos perigosos para a fé numa abadia remota das montanhas da península itálica, Eco aproveita para dissertar sobre os principais conflitos entre o interesse material e político da Igreja (inclusive a pobreza desta como tema de fé) no tempo do papa João XXII e do imperador germânico Luís da Baviera, bem como expor as questões teológicas, os princípios e modo de agir da inquisição ainda antes da contrarreforma e ainda dar a conhecer a vida religiosa, as superstições e os mitos característicos nos alvores do fim da submissão da ciência ao poder religioso. Interessantíssimo o tratamento dado ao medo dos teólogos ao riso, à comédia e a dúvida se Jesus alguma vez riu.
Sob o ponto de vista policial os principais ingredientes destas obras estão presentes, todavia este são muitas vezes intercalados por profundas dissertações sobre as questões acima mencionadas, tornando-se numa fonte de informação histórica e perdendo o aspeto ligeiro típico da caça ao criminoso ou criminosos. É igualmente uma denúncia de que a paixão por livros, pelo saber e fanatismo de fé pode ser levada a extremos tais que se torna também numa obscuridade e numa ameaça. Um grande livro sem dúvida, mas nem sempre fácil pela sua enorme riqueza e profundidade temática, mas que demonstra a compatibilidade entre o gosto popular e o erudito transformando-o num clássico de literatura do género.

4 comentários:

Pedrita disse...

eu li perto de ter visto o filme. os dois se somam e são maravilhosos. umberto eco tb fala do poder que os escribas tinham sobre a escrita e o quanto podem ter mudado por interesses religiosos muitos textos. gosto muito desse livro. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Não deduzi do livro que tenham alterado assim tanto a escrita, mas mais que o grupo em torno dos livros pode ter crivado os textos e feito desaparecer o que poderia gerar conflitos com os seus interesses ou as suas crenças, que é também no fim um modo de alterar a escrita de um modo mais global.

Manuel Cardoso disse...

Olá Carlos
este é "apenas" um dos livros da minha vida.Li-o há muitos anos e estou ansioso por reler.
Este é um dos poucos casos em que conseguiram fazer um filme que, na minha opinião, tem quase tanta qualidade como o livro.
Genial pelos motivos que disseste e porque é, como tem de ser um grande livro, uma grande diversão.

Carlos Faria disse...

Um exemplo de que a melhor obra de um escritor pode estar no início da sua carreira, mesmo que outras posteriores sejam boas, mas até hoje este é para mim o melhor de Eco.