quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quantas Madrugadas tem a Noite - Ondjaki

Editorial Caminho

Diante de umas "ngalas" (cervejas), alguém aproveita o ambiente de Luanda para alimentar a conversa pela noite dentro, relatando de modo frenético as desaventuras de um grupo em torno do corpo de um amigo que pelos vistos não encontra as condições para o seu descanso e funeral, tantas são as burocracias e os interesses que se intrometem no assunto, e assim a estória vai-se arrastando pela madrugada alimentada pelo álcool.
Em estilo coloquial e com a liberdade que um relato regado pela cerveja permite, Ondjaki, de forma irónica e divertida, expõe o linguajar de Luanda: o seu vocabulário próprio, a gíria das pessoas dos bairros populares, o calão, os estrangeirismos, as variações de sintaxe e os efeitos ortográficos para expressar a entoação e a pronúncia das gentes da capital de Angola.
O texto é um magnífico trabalho linguístico e estilístico da diversidade da língua, aspeto assumido mesmo pelo narrador quando fala do modo como trata o Português. Interessante também a caracterização das vivências do povo e de Luanda: uma sociedade alicerçada no estilo de vida africano, mas com influências culturais do colonialismo e da atual globalização, o que gera uma miscigenação única e brilhantemente retratada neste despudor regado a ngalas necessárias para estender a conversa pelas madrugadas da noite.
"Quantas Madrugadas Tem a Noite" é um livro divertido mas a ler, sobretudo, para descobrir a genialidade de Ondjaki na forma de mostrar e tratar a língua Portuguesa na sua variante de Luanda.

4 comentários:

Pedrita disse...

esse autor está na minha lista faz tempo. bom q vc me relembrou e agora vou atrás comprar algum. eu falei no meu blog de uma animação portuguesa que amei, de profundis. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Presentemente Ondjaki vive no Brasil e a influência brasileira também se vê no livro.
Conheço uma obra "De profundis" mas era baseada em Cardoso Pires, uma descrição na primeira pessoa do enfarte cardíaco que então tivera... livro já com cerca de um década.

João Oliveira disse...

Estive agora também a reler Ondjaki, o "O Assobiador" e o "Há Prendisajens com o Xão", e vou escrever sobre eles em breve. Confesso que fiquei com melhor opinião do Ondjaki agora do que da primeira vez que o li.

De qualquer forma, estou curioso para ler o livro que refere, mas acho que antes vou ler o "Os Transparentes" (quando, não sei muito bem).

Carlos Faria disse...

Depois deste livro e ao saber da distinção de "Os transparentes", também estou curioso... igualmente data incerta