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domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Regresso de Sherlock Holmes" Arthur Conan Doyle


Enquanto não me chegam o segundo e o terceiro romances da trilogia "O Passado do Planeta Terra" começada com "O Problema dos três Corpos", que encomendei no início da leitura deste, mas cujos correios demoram já três semanas para me os entregar, optei pelos contos policiais do britânico Conan Doyle com "O Regresso de Sherlock Holmes" que  já lera parcialmente neste título, onde constam 7 histórias das do conjunto de 13 deste livro, sendo este está em conformidade com as primeiras edições inglesas em livro destas histórias que começaram por ser publicadas avulso na revista Strand Magazine.
Reli alguns dos contos nesta diferente tradução, que gostei muito mais, e verifiquei que pouco retivera em memória dos mesmos, apesar de na releitura e já perto do meio destas começava a recordar e a antever o desenlace, embora me lembrasse de como o escritor imaginou a sobrevivência de Sherlock que foi dado como morto no conto "O Problema final" que consta deste livro que é anterior ao da coletânea que agora li.
Tal como nos anteriores contos, Sherlock brilha pela sua sagacidade em observar e interpretar pormenores em torno dos casos que investiga, embora, por vezes, sujam aspetos que não estão acessíveis ao leitor para acompanhar o raciocínio do detetive que acompanha mistérios, quase sempre criminais, envolvendo famílias aristocráticas e com técnicas muito distantes dos métodos científicos atuais.
Como todos os livros com contos ou romances, são de leitura muito acessível, por vezes com esquemas e desenhos, e são de excelente entretenimento. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"O Problema dos Três Corpos" de Liu Cixin

Citação

 "Se surgir o caos ao nível do pensamento, a ciência acaba."

Voltei à leitura de ficção científica, um género literário, tal como o policial, que é muitas vezes desprezado face às narrativas com tramas mais ou menos convencionais, mas onde cabem obras-primas de imaginação e qualidade literária. A busca de algo diferente e interessante levou-me a procurar obras recentes de ficção científica já de reconhecida qualidade por leitores e críticos. Neste conjunto encontrava-se "O Problema dos Três Corpos", do chinês Liu Cixin, prémio Hugo (atribuído por leitores do género) em 2015 e finalista do prémio Nebula (selecionado por críticos literários), além de prémios nacionais. Na escolha deparei-me com uma obra-prima que conjuga especulação científica com rigor, filosofia com entretenimento, análise social do início do século XXI com imaginação sobre outros mundos e o possível impacte do contacto entre a nossa realidade e uma civilização extraterrestre.

A trama desenvolve-se em três partes, a primeira inicia-se com o choque psicológico da investigadora astrofísica Ye Wenjie, sobrevivente de um violência da Revolução Cultural na China em 1967. A segunda, o seu acolhimento e trabalho numa base secreta isolada de monitorização de sinais de rádio terrestres ou vindos do exterior devido à sua especialidade científica, na sua amargura e isolamento alimenta o ódio pela civilização humana, na sequência da emissão de um sinal para fora do planeta surpreende-se, anos depois, com uma resposta e um alerta de precaução para a sua civilização não ser localizada por uma do exterior, que poderia destruir a humanidade, mas a sua revolta leva a secretamente agir em desfavor do ser humano.

A terceira parte tem outro protagonista e é nos nossos dias. Ocorrências estranhas desfazem leis da física, a perturbação do trabalho de Wang Miao em nanomateriais leva-o a procurar respostas junto de cientistas e a encontrar Ye Wenjie, todavia as perturbações da ciência já levaram ao suicídio de investigadores de ponta e Miao vê-se envolvido num trabalho policial que envolve o exército e todas as superpotências mundiais na busca de explicações para o que está a acontecer. É então levado a entrar num jogo de computador imersivo do surgimento e destruição de uma civilização de um exoplaneta com três sois, devido ao problema matemático de estimar as trajetórias destes três corpos para calendarizar a vida desses alienígenas. Com o tempo, torna-se evidente a correlação de tudo o que está a acontecer e tem a interferência dos Trissolários que usam o jogo para criar condições para ocupar a Terra na sequência do antigo contacto, havendo já uma multidão organizada disposta a acolher esses estranhos por desânimo com a civilização terrena, mas esta só chegará num futuro longínquo devido à limitação de viajar à velocidade da luz.

A obra tem um suporte inicial de grande rigor científico para no fim especular conhecimentos e tecnologias quando se retrata a civilização Trisolaris fora do jogo e com aspetos que são de pura criatividade e muito cinematográficas para passarem a filme e série de TV. Esta evolução a partir do rigor dá credibilidade à narrativa e apesar de falar de leis da física, a história não exige ser um técnico, qualquer pessoa percebe a exposição e as questões, mas ser de ciências dá um certo gozo.

Paralelamente, existem pelo meio várias interrogações filosóficas, a mais forte a do ser humano desiludido e revoltado destruir a sua civilização como retaliação (Atwood fez o mesmo em Orix and Crex), a existência de crentes na salvação externa, a necessidade de cooperação internacional para proteger a humanidade, será possível o Homem sobreviver ao choque de contacto com cultura extraterrestre? Esta dúvida esta brilhantemente colocada perto do final com gafanhotos e Liu Cixin tem assunto para dissertar nos romances seguintes que deram origem a uma trilogia "O Passado do Planeta Terra" que aguardo receber os próximos volumes para ler.

Gostei muito e recomendo a qualquer leitor que goste de narrativas bem contadas, bem escritas, fáceis de ler que especulem sobre a ciência e esta humanidade.

domingo, 25 de janeiro de 2026

"A Multiplicação dos Milagres" João Pedro Porto

 

Após vários anos, regressei ao escritor de ficção e poesia açoriano João Pedro Porto, com a leitura do seu recente romance "A Multiplicação dos Milagres".

Berto Brisi é um editor em Milão muito especial, não procura obras a publicar só espera que estas lhe venham até ele, é, por isso, conhecido como o Osga. Após conhecermos a sua origem perto de Turim, das suas deambulações por Itália e do histórico sucesso inicial com dois autores, a estagnação leva a que o dono do grupo comece a exigir novas publicações, até ele próprio criar três escritores de enorme sucesso, que, logicamente, ninguém conhece e para quem lhes arranja dados biográficos e acidentes em espaços expostos para justificar a respetiva existência, mas um dia eis que os três autores se cruzam com ele e entra-se numa espiral de situações complexas entre o criador, as personagens criadas e outras imaginadas por Berto.

Uma narrativa deslumbrante, surrealista que lembra Italo Calvino, temperada com absurdos kafkianos e de Saramago, unidos pelo brilhantismo da mitologia pagã pinceladas com o fascínio da história cultural, mitológica e geografia da península itálica, construída com uma escrita mirabolante de grande riqueza lexical e estonteante que monta um edifício todo ele hiperbólico e maravilhoso.

Tal como na sobrecapa, a zona central do livro está ocupada por mais de duas dezenas de desenhos e aguarelas do reconhecido pintor desenhador açoriano: Urbano, várias parecem referências da narrativa, ou esta às pinturas, que enriquecem a obra, complementando o texto com imagem.

Tal como em "A Brecha", João Pedro Porto é um escritor Açoriano, mas não produz obras de cariz regionalista, os seus livros ultrapassam a fronteira  temática da açorianidade em que, por vezes, alguns criadores deste arquipélago se limitam, sem deixar de ser um membro da cultura Regional.

Gostei muito, li em ritmo acelerado as piruetas da narrativa, mas não é um texto fácil, pois além das numerosas referências culturais, umas reais, outras lendárias da península Itálica, com enfoque em Dante, que mostram o grande conhecimento do autor sobre esta região as reviravoltas e maravilhoso da narrativa fazem-nos perder nesta vertiginosa história, com histórias  no seu interior.

Para quem gosta mesmo de literatura em estado puro, a escrita é muito bela e cheia de frases e ditos que importa sublinhar pelas ideias que encerram e recomendo vivamente este docinho literário.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah

Estreei-me no escritor, presentemente de língua inglesa, do arquipélago do Zanzibar na Tanzânia, Abdulrazak Gurnah, laureado com o Nobel da literatura em 2021, lendo um dos seus romances mais conhecidos "Junto ao Mar".
O romance começa com o narrar do idoso Saleh Omar da sua entrada como fugitivo do Zanzibar num aeroporto de Londres com o passaporte de Rajab Shaban, transparecendo que não sabe inglês, e com uma caixa de incenso apenas como principal bagagem. Após relatar o contacto com o agente de imigração e com uma voluntária para refugiados, é acolhido num centro de abrigo, onde buscam um tradutor para comunicar, encontram Latif Mahmud, este, igualmente um refugiado já naturalizado, suspeita de um usurpador do nome do seu pai, enquanto o primeiro desconfia que se trata do filho do homem de quem tomou a identidade. Entre o receio e a curiosidade, depois de alojado dá-se o encontro entre ambos e a narrativa passa para a história das duas famílias da parte de cada um: as falhas, os erros, as retaliações e as perseguições com a independência e os excessos de qualquer revolução que permitem um conhecimento mútuo e o crescimento de uma amizade inesperada.
Numa narrativa pouco acelerada, em parte nostálgica, em parte sentimental, a dar a conhecer a vida dos refugiados, das vítimas do fim da colonização e da guerra fria em África; o autor mostra com olhar africano o que foi a vida na parte oriental deste continente e as ligações históricas e comerciais entre os povos banhados pelo Índico.
Uma obra de divulgação civilizacional e cultural de uma parte do mundo muitas vezes esquecida ou contada apenas pela perspetiva europeia e vale conhecer pelo outro lado.
Gostei e deu para perceber a argumentação do comité Nobel das razões do galardão de literatura atribuído a Abdulrazak Gurnah. Fácil de ler e recomendo a quem quer alargar os seus conhecimentos sobre esta região de uma forma simpática e agradável.
 

domingo, 4 de janeiro de 2026

"Os Informadores" de Juan Gabriel Vásquez

 

Citação

"Porque as falhas herdam-se; e herda-se a culpa; cada um paga pelo que fizeram os seus antepassados, isso toda a gente sabe."

Estreei-me na leitura do escritor colombiano: Juan Gabriel Vásquez, com o presente romance "Os Informadores", país que conheço muito mal e de quem lera apenas obras do famoso Gabriel García Marquez.

Gabriel Santoro publica um livro baseado nas memórias que gravou de uma amiga de família sobre a vida na Colômbia da comunidade alemã refugiada ou imigrada naquele país que depois se tornou alvo de discriminação durante a II grande guerra, mas estava longe de prever que o principal detrator público da obra seria o seu homónimo pai, uma personalidade influente que chega ao corte de relações, até ao dia em que a doença deste o obriga a aproximar-se do filho, mas a sua morte inesperada é seguida de um escândalo sobre a ética do seu passado, começa então a buscar o que causou incómodo a partir da sua amiga, descobre então que a sua obra recordou traições e erros de cuja mancha se sente herdeiro.

O livro está dividido em várias partes, na primeira descobrimos o conteúdo da obra que Gabriel publicara e o que era a sociedade colombiana nas décadas de 1930/40, acompanhado da busca em compreender a aversão do pai ao seu conteúdo, a aproximação familiar com a doença e o renascer do progenitor. Após a morte de Santoro sénior, ele descobre o que não lhe fora comunicado antes pela sua fonte, o incómodo e a vergonha que o livro trazia à memória do pai, uma referência pública de ética, o que origina um segundo livro. Por fim,  fruto dos livros, dá-se o encontro  com as vítimas e a análise das feridas que ainda persistiam.

O texto divide-se entre o tom de memórias, com relatos do passado, reflexões das personagens sobre o essa época e a realidade social da Colômbia durante a guerra e hoje, bem como o evoluir da situação no presente em resultado do livro, é uma narrativa exposta de uma forma original, que intercala factos históricos, com personagens fictícias e reais, entusiasmei-me menos do que a obra merece, talvez por a ter lido no período natalício, pois reconheço a grande qualidade do romance e deixou-me curiosidade suficiente para querer voltar ao escritor que me parece ser uma alguém emergente e original na literatura latinoamericana atual.