terça-feira, 1 de maio de 2018

"Pão com Fiambre" de Charles Bukowski


Excertos
"A primeira criança da minha idade que conheci foi no jardim de infância. Eram todos muito estranhos, riam e falavam e pareciam felizes. Não gostava deles."
"O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém  chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas."
"..., aprendi que os pobres serão sempre pobres. Que os ricos quando lhes cheira a pobre ainda se divertem com isso."
Acabei de me estrear no escritor que classifico de contracultura: Charles Bukowski, através do seu romance, tido como autobiográfico, "Pão com Fiambre", no Brasil "Misto Quente" e no original "Ham on Rye", onde se narra a infância e juventude do seu alter-ergo que surge em vários das suas obras, a personagem Henry Chinaski.
Henry, nascido na Alemanha nos anos 1920 cresce desde muito criança num bairro pobre de Los Angeles, com um pai autoritário, violento e incompreensivo das necessidades do filho, que impede até a sua integração social, e uma mãe submissa. A crise financeira arrasa a comunidade com desemprego e miséria. Na escola reinam os maus resultados de estudos, o ambiente é de guerra dos fortes e Chinaki sente-se rejeitado. Mesmo assim, luta para sobreviver, tentando tornar-se forte e vencer nesta luta diária.
Na adolescência um acne descomunal afasta-o das mulheres e da escola, tem uma sexualidade frustrada e terá a descoberta do gosto por escrever, mas o álcool e a violência juvenil continua a marcar o seu dia a dia. Ingressa na Universidade por falta de outras alternativas... sai de casa quando o pais espia os seus escritos duros que não poupam ninguém. Esta também foi, na generalidade, a vida de Bukowski antes do sucesso que mais tarde alcançou num género muito próprio.
O segundo excerto acima é também a característica geral da escrita do livro, com um humor ácido e delinquente, por vezes com recurso ao calão e à brejeirice grosseira, típica de meninos de rua e famílias disfuncionais. Ao contrário de Kerouac, não há drogas além do álcool e tabaco.
Apesar de amargo, gostei, não deixa de ser uma obra que dá conhecimento de uma realidade difícil e violenta de muitos estratos desfavorecidos da população urbana, exposta de uma forma crua, dura, por vezes grosseira, mas numa feita de uma forma divertida.

9 comentários:

Pedrita disse...

e eu achando q vc lia uma obra diferente da que eu tinha lido. agora q vc colocou q é o misto quente que li. é muito forte esse livro. tb gostei, mas não é um livro fácil de digerir. o meu post
http://mataharie007.blogspot.com.br/2009/11/misto-quente.html

Bárbara Ferreira disse...

De Bukowski, li apenas "Post Office", há já alguns anos, e recordo uma leitura dura, de certa forma violenta, e com a mesma "brejeirice grosseira", mas com um humor nem sempre fácil à mistura. É também da série de Henry Chinaski - sobre o seu trabalho como carteiro. Tenho muita curiosidade em ler outras obras do autor, não só esta (pela qual talvez devesse ter começado, mas julgo que os livros se lêem perfeitamente sem respeitar a cronologia da vida do protagonista), mas outros. Tenho, por ler, "Notes of a Dirty Old Man".

Carlos Faria disse...

Pedrita
Para não criar confusão e ao descobrir um título tão diferente no Brasil optei logo por esclarecer qual era a obra.
Penso que tem brejeirice grosseira e álcool a mais, mas não me custou a ler.

Bárbara
Esse que tem em espera penso serem contos e crónicas ficcionadas, o título não parece ser mais soft que Pão com Fiambre, a verdade é que não desgostei do autor e não deixa de ser uma dura realidade retratada que existe nos nossos meios urbanos de periferia e não só.

Bárbara Ferreira disse...

Sim, creio que se trata de um conjunto de crónicas que ele publicou num jornal, ou algo do género. Não espero algo mais leve - álcool e vidas duras são temas recorrentes do seu trabalho. Não é soft, sem dúvida.

Kelly Oliveira disse...

Sempre leio, mas nem sempre comento por aqui. E não ia comentar dessa vez, já que não me interesso por esse autor. Todavia não posso deixar de citar como soa engraçado e estranho para nós brasileiros o título "Pão com fiambre" kkkkkk Me tirou um sorriso do rosto.

Abs.

Carlos Faria disse...

Também vejo tudo o que a Kelly publica, pois está no meu agregador de blogues e nem sempre comento, por isso percebo perfeitamente.
Sobre este autor tinha sobretudo curiosidade, diverti-me mas não aprendi nada, mas como lazer lê-se bem.
Sim, os nomes das traduções por vezes entre o Brasil e Portugal em nada se assemelham, já não me lembro bem, mas penso que no Rio a charcutaria tinha muito menos nomes que em Portugal e ao fiambre chamavam mortadela que cá é outra variedade. Misto quente parece-me mais distante do título original, pelo que também tive um sorriso quando li.

Mister Vertigo disse...

Li alguns livros de Charles Bukovski e a sua escrita por vezes é repetitiva, no entanto considero os livros "Mulheres" e "A Sul de Nenhum Norte", bem interessantes. A sua famosa personagem literária e alter-ego, teve no actor Ben Gazarra e no filme "Contos da Loucura Normal", o retrato perfeito no cinema.
Bom fim-de-semana!

Carlos Faria disse...

Curiosamente esses parecem ser títulos menos populares do autor, mas como frequentemente acontece, os melhores não são os mais aceites e de maior sucesso.

Mister Vertigo disse...

Na época em que estes títulos foram publicados no nosso país o autor era um perfeito desconhecido e ainda uma determinada geração não o tinha descoberto, os livros que li posteriormente terminam por revelar a descoberta de um caminho para as "short-stories", por vezes repetitivos: o sucesso estava assegurado, só se tinha que repetir a fórmula.
Bom domingo!