domingo, 1 de abril de 2018

"A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead


Excertos
"Saíra da escravidão ou fora apanhada na teia desta: como descrever a situação de um fugitivo?"
"Os brancos punidos segundo a nova legislação eram simplesmente enforcados, mas não ficavam em exposição.... Quando vasculharam as cinzas da casa, não conseguiram distinguir o seu corpo do daqueles que protegera, porque o fogo apagara as diferenças de pele e tornara-os todos iguais. Assim penduraram os cinco corpos no trilho e ninguém reclamou pelo facto de o protocolo não ter sido respeitado."
"O mundo pode ser mau, mas as pessoas não têm de o ser, pelo menos se recusarem tal sina."

Por norma evito livros de ficção sobre a temática da escravatura nas Américas e do genocídio nazi, não para ignorar tais factos ignominiosos da história, mas sim por que sinto que mais do que sarar feridas de erros do passado, abrem mais vezes ódios raciais e servem de desculpa a erros do presente. O recente mui premiado romance "A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead, incluindo o National Book Award de 2016, aborda a escravatura, mas é, sobretudo, a narrativa da fuga de uma escrava do sul esclavagista dos Estados Unidos, a Geórgia, até ao norte, onde tal situação já então terminara no século XIX.
Cora, a protagonista, na sua viagem - onde o fantástico está presente em vários momentos do livro, como a estrada subterrânea que mais não é do que uma ferrovia escavada para apoio à libertação ou os médicos cientistas que usarão medidas de controlo de natalidade com técnicas sem ética, mas típicas de épocas mais tardias - passará por vários Estados: Carolina do Sul, do Norte, Tennessee e Indiana, e em cada um deles encontrará uma realidade diferente. Haverá sempre alguém a ajudar, por vezes com objetivos ocultos, mas o ódio da supremacia branca ou o medo do domínio preto acabará sempre por vencer e levar a situações de perseguição. Paralelamente, seremos apresentados à realidade em torno das personagens da sua raiz, daqueles que lhe deram a mão ou que a perseguiram e assim se vai retratando todo o mundo social que oprimia, mantinha ou lutava contra a escravatura naquela primeira metade do século XIX.
Pela tradução, nada a destacar da escrita, banal. A obra não sara feridas, mas também não abre, lê-se bem, por vezes é agradável, noutros choca, mas a esperança praticamente está sempre a iluminar a obra e o amor pela leitura é um dos aspetos mais positivos do livro e é uma maneira menos comum de tratar o tema escravatura.

3 comentários:

Pedrita disse...

não me interessei. luz em agosto do faulkner está entre meus livros preferidos. não amo tanto som e fúria e sartoris. beijos, pedrita

Andrea Morais disse...

Olá!
Adorei a resenha! Não conhecia esse livro, mas já vou procurá-lo por aqui! Essa história parece ser bem interessante e a maneira como é abordada, pelo que você falou, me cativou ainda mais.

Carlos Faria disse...

Um livro diferente sobre um tema muito explorado e uma obra muito premiada.