sábado, 3 de fevereiro de 2018

"O Poder e a Glória" de Graham Greene

Citações do livro
"O medo e a morte não eram as coisas piores, por vezes, a continuação da vida era um erro"
"A infelicidade também se podia tornar num hábito, tal como a piedade"
"Até um cobarde tem o sentido do dever"

Foi o meu regresso ao escritor inglês, mais popular pelos livros de espionagem, Graham Greene desde que o lera na minha juventude e, novamente, com um livro de ficção centrado em questões religiosas, tema de várias obras após a sua conversão, em adulto, ao cristianimo católico. "O Poder e a Glória" é o resultado da sua visita ao estado de Tabasco no México para conhecer a perseguição ao catolicismo (1928-34) que proibiu todo o clero de exercer qualquer culto ou qualquer manifestação de fé pelas pessoas sob a ameaça de crime de traição punível com a morte.
O romance descreve a resistência do que seria o último padre sobrevivente neste Estado após a interdição do clero e da oferta aos sacerdotes para renunciarem o seu exercício e se casarem com o benefício de uma pensão, o que levou ao fuzilamento de muitos, a fuga da maioria para outras partes do México, enquanto o protagonista clandestinamente mantém vivo o seu sacerdócio para preservar a fé na região em oposição a outro que opta pelo casamento e pensão.
Tudo seria uma simples perseguição, não fosse Graham Greene escolher como herói um padre que se torna alcoólico, que numa paixão tem uma filha que ama, que se esforça por obter as condições de prática sacerdotal e descobre como se acomodara aos hábitos do clero quando fora livre, sendo agora uma ameaça às pessoas que quer apoiar na sua salvação e espalha a morte, ou seja, um anti-herói, que até reconhece virtudes ao colega renegado, mesmo assim, ele não desiste da sua fé, da sua luta e das suas obrigações até deixar-se cair nas malhas dos seus perseguidores de quem já escapara algumas vezes para em consciência salvar a alma de um ladrão.
É neste dilema pessoal de vocação sacerdotal e fé de alguém que se considera indigno para as suas funções que a obra glorifica este homem, que em situações de humilhação em humilhação, ora cheias de ternura, ora de horror  e outras onde só um entendedor da essência do culto, como a necessidade de comprar vinho de uva onde impera a lei seca e, clandestinamente, lhe propõem em alternativa brandy, que resiste e é despojado do seu produto, mas que no seu dever se sente um condenado que salva e é nisto que se percebe a grandeza deste livro que foi um sucesso em meados do século XX. Uma grande obra de introspeção que opõe a força da fé à fragilidade humana dentro de um padre. Gostei muito, mesmo sendo uma obra que implicitamente assume muitos dos defeitos do catolicismo, compreende-o muito bem.

5 comentários:

Kelly Oliveira disse...

Oi Carlos, mais uma vez passo a conhecer por aqui um livro que nunca ouvi falar... muito interessante.

Pedrita disse...

ah, esse não me interessou. mas gosto muito desse autor. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Kelly Oliveira
Este foi best seller mesmo na Inglaterra, um país oficialmente anti-católico onde para casamentos reais não se pode ser desta religião cristã, mas é sobretudo um romance em que a reflexão do dever cristão não se deve abandonar perante as fragilidades da pessoa humana.

Pedrita
Calculei que não lhe interessaria, mas é um bom romance.

Mister Vertigo disse...

Confesso que este livro, bem famoso, de Graham Greene ainda não li, mas registei a sua sugestão. O último livro que li dele foi "O Cônsul Honorário" e no Canal Hollywood anda a ser exibido o filme "O Fim da Aventura" do Neil Jordan, baseado no livro Greene, onde o escritor deixa bem expressa a sua fé católica.
Durante vários anos li este blogue e é bom saber que ele se mantém bem vivo e interessante!
Um Abraço!

Carlos Faria disse...

Primeiro fico contente por gostar do blogue e de ler livros.
Efetivamente "O fim da aventura" pertence ao grupo das obras de Greene de reflexão católica e deve ter sido essa a que li quando jovem pelas sinopses que li, pois não me lembro do título de então.
Os outros que citou são do género de espionagem e já tenho um cá em casa em lista de espera. Um abraço