terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

1 comentário:

Pedrita disse...

eu comprei em um sebo neste mês. uma hora vou ler. acabei de ler um livro grande então vou dar um tempo por enquanto. beijos, pedrita