quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

6 comentários:

Pedrita disse...

aqui ainda não tinha ouvido falar. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Normal, pois este é apenas o seu segundo romance e é já de 2016, mas o primeiro também foi alvo de muitos elogios, pelo que está associada a uma escritora com potencial literário elevado mas ainda em início de carreira.

Marta disse...

Irei certamente ler, parece interessante.
Estou a poucas páginas de terminar um livro que me encheu as medidas. "A ponte sobre o Drina", do Bósnio Ivo Andric. Um colosso que atravessa três séculos e que muito revela do povo e da História.

Carlos Faria disse...

Esse colosso está cá em casa à espera de ser lido, li outro livro do mesmo autor "A crónica de Travnik" de que gostei muito.

Marta disse...

Óptimo, Carlos. Também tenho para ler os dois outros livros do escritor publicados por cá. Gostei bastante e dá-nos uma ideia da mentalidade e das guerras que acometeram aquele povo. Foi uma leitura lenta, mas bastante boa. Ajudou-me a compreender melhor a guerra dos balcãs. Este ano fui de férias para aquela zona e o Drina é de facto verde e a ponte é verdadeira e imponente. Uma paisagem muito bonita, tenho pena de não ter lido antes da viagem.
Aproveito para recomendar um outro livro (peço desculpa) que li recentemente, talvez já o tenha lido, mas gosto de partilhar o que aprecio. "O deserto dos Tártaros", do Italino Dino Buzzati, vale muito a pena ser lido.

Carlos Faria disse...

Também li e gostei muito desse militar que espera sem se decidir e nunca alcança o seu sonho e desperdiça assim uma vida.