segunda-feira, 22 de junho de 2015

Férias: Expo Milão 2015

Milão surge nesta rota por ter sido a porta de entrada e saída na minha viagem para Florença e Toscânia e a estadia foi para tentar ver a Última Ceia de Da Vinci, objetivo novamente não conseguido, mas deu-se a coincidência de estar a decorrer a Expo Milão 2015 e esta feira internacional recordar-me os tempos que Portugal se achava cheio de esperança e se aventurou com a Expo Lisboa 98 e por isso serviu a visita para termos de comparação, se na capital das descobertas o tema foi os oceanos, aqui no coração industrial da Lombardia o tema é a Alimentação, sob o lema "Nutrir o Planeta, Energia para a Vida".
Espero depois refletir neste blogue as impressões de um dia nesta expo 17 anos depois de Lisboa e ver os seus reflexos na Milão de hoje.

sábado, 20 de junho de 2015

Férias Toscânia: Pisa e a torre inclinada ou a importância da geotecnia

Torre de Pisa, imagem daqui

Este blogue nasceu com a divulgação da geologia como um dos seus temas principais e destinada a dar a conhecer neste campo o Faial e demais Açores, com o tempo este campo tem praticamente desaparecido  por já ter dado o fundamental sobre a ilha onde vivo, mas sou sempre geólogo e juntar curiosidades geológicas com lazer, sobretudo viagens e cultura é um dos meus prazeres e por isso na visita a Pisa não posso desperdiçar esta oportunidade.
A cidade de Pisa, a terra de Galileu Galilei, é conhecida sobretudo pela sua torre inclinada, onde o cientista fez a experiência sobre a queda dos graves, o desvio da vertical neste monumento resulta do facto de na época não ser regra efetuarem-se estudos geotécnicos para se compreender a reação das rochas quando sujeitas à carga vertical resultante da implantação de um edifício sobre elas, é que nem todas se comportam de igual modo e curiosamente, apesar da pequena área da torre desta basílica, sobre existem sobretudo dois tipos de espessuras de camadas de rocha e graus de saturação de água e a altura implicou  desta estrutura implicou uma peso significativo tendo as duas espessuras e quantidade de água reagido de forma diferente, uma compactando-se mais do que a outra e assim o chão que servia de suporte desta desceu de modo mais acentuado levando à inclinação da torre. Hoje não há grande construtora que não tenha antes do início do arranque de um projeto, quer seja edifícios com uma dimensão significativa como arranha-céus ou um mero pavilhão de exposições, barragens e até estradas que não faça sondagens mais ou menos complexas para conhecer as rochas subjacentes e o seu comportamento geotécnico ou reológico tendo em conta o peso a que ser sujeita e os efeitos que tal pode ter na construção de modo a se corrigir eventuais problemas atempadamente.
Tudo isto faltou em Pisa, a cedência continua e foi preciso uma intervenção geotécnica e de engenharia civil para evitar o colapso da torre cuja inclinação prosseguia de modo contínuo, mas agora chegou o momento de ir explorar a cidade e a sua atração turística.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Férias Toscânia: Siena, em busca da cidade medieval italiana

Siena e os seus princípais símbolos- imagem daqui

Siena é outra cidade património mundial por o seu centro preservar a arquitetura e o planeamento de uma grande cidade medieval. Infelizmente tal resultou do facto desta então importante terra ter sido muito afetada pela peste negra o que fez perder a sua grande dinâmica política e económica na Toscânia, ao contrário de Florença, estagnando assim no tempo o que permitiu preservar todo o seu centro histórico tornando-o num autêntico museu vivo.
Agora falta-me explorar este património, a sua praça e o seu belíssimo duomo. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Férias Toscânia - Florença: o berço do Renascimento

Florença: imagem daqui

Florença foi uma das cidades que mais cedo desejei visitar, contudo, talvez tenha levado mais de uma década entre a decisão e a programação da visita, mas depois de ter passado rapidamente por Veneza, reconheci que não poderia passar mais tempo para comparar aquelas que artisticamente e arquitetonicamente devem ser as duas cidades mais marcantes da Itália.
Espero neste berço do renascimento e património mundial, não só conhecer a arquitetura como arte, como os grandes Giotto, Boticelli, da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Caravaggio e outros artistas que viram projetada a sua luz genial através da família Medici na terra do grande Dante cuja obra-prima, "A divina comédia" já li e também de Maquiavel.
Sendo esta a capital da Toscânia, à qual cheguei de comboio para conhecer a paisagem entre a Lombardia e esta cidade, e estando numa das províncias mais cosmopolitas deste país, penso ainda visitar, pelo menos duas das cidades com património conhecido mundialmente e ainda na minha rota operática ter mais um grande momento musical, agora com um obra suis generis e como vai sendo curiosamente hábito, na Itália não ouço óperas italianas.
Espero assim ao longo desta semana colher impressões suficientes sobre a vida atual, a gastronomia e o estado da arte da cidade de Florença e da província da Toscânia.


sábado, 13 de junho de 2015

"O tempo morto é um bom lugar" de Manuel Jorge Marmelo


"O tempo morto é um bom lugar" de Manuel Jorge Marmelo, autor que só conhecia de contos publicados em jornais, foi o primeiro romance que li deste escritor/jornalista que se encontra entre os autores atuais com maior projeção pública no meio editorial nacional.
É um romance sobre a atualidade social, cultural e económica de Portugal e aproveita-se da ideia algo corrente quando se olha o País de que é bem mais agradável a vida na prisão do que a luta do cidadão comum para sobreviver.
O livro divide-se em três partes: Na primeira um jornalista, desempregado e preso, narra as razões da prisão: o assassinato de uma celebridade de um "reality show" com quem teve uma relação na sequência de lhe ter sido encomendada a feitura de uma autobiografia, que nunca chegou a escrever, e descobre que o tempo morto na cadeia é bem mais vantajoso que o da liberdade. Na segunda descobre-se o suicídio do jornalista e conhece-se a pretensa vida da celebridade, os problemas que enfrentou desde criança até à mudança de vida e as potencialidades do sonho da fama. A última cobre uma investigação jornalística sobre quem terá morto a jovem e quem terá sido de facto o autor da autobiografia póstuma.
Estas partes  têm relatos paralelos e denunciam os problemas que a sociedade portuguesa atravessa: acusações políticas que se subentendem os destinatários, a vacuidade do mundo mediático e as dificuldades do cidadão comum. A escrita não é alheia ao estilo jornalístico, mas é interessante e apesar de se narrarem dificuldades, o tom irónico tira o carácter deprimente às situações, embora a obra só seja conclusiva no aspeto de ser uma forma de se chorar o Portugal do presente. Gostei e, mesmo tendo em conta que é um retrato frio e duro da conjuntura atual, é de leitura fácil. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"O livro de Jón" de Ófeigur Sigurdsson


"O livro de Jón", do Islandês Ófeigur Sigurdsson, é um romance epistolar constituído por mais de duas dezenas de cartas escritas por Jón à sua mulher durante o período da erupção do vulcão Katla de 1755 (a maior que há memória nesta ilha desde o povoamento e que teve um impacte climático planetário) e enquanto se encontrava refugiado numa gruta a sudeste deste, por um motivo pessoal e anterior à catástrofe, no local onde não só construiu a sua habitação, como inclusive um hospital e acolheu alguns dos maiores cientistas e pensadores daquele povo naquela época.
Apesar de ser uma obra ficcional, grande número das personagens, incluindo Jón, tiveram existência real e o autor aproveita este estilo não só para descrever muitos dos problemas sociais, económicos e políticos da Islândia de então, como mostrar a mentalidade, usos e costumes deste povo insular e ainda fazer uma descrição literária da erupção do Katla e dos seus efeitos catastróficos, inclusive responsabilizando-a do terramoto de Lisboa igualmente descrito com grande força. Contudo a obra mistura realidade, sonhos e uma natureza que por vezes é mágica.
A escrita é acessível, muito poética, sentimental e o romance é pequeno, embora por vezes os parágrafos seja extensos, só não temos o eco das cartas na mulher amada, nem se vem a saber se de facto estas chegaram à destinatária. Gostei da obra e recomendo, até pela descrição da erupção, sobretudo das enxurradas glaciares resultantes do contacto do magma quente com a calote de gelo que cobre a ilha nesta zona, originando assim os "jökullhlaups", vivamente descritos no livro.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa


Mergulhei no romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa logo no dia em que o adquiri numa publicação fac-similada da primeira edição no Brasil de 1956 e efetuada pela loja do jornal Público na coleção "800 anos de literaturas em Português". Este interesse na obra, há muito tempo esgotada em Portugal, resultava do facto desta estar qualificada como um dos trabalhos de ficção mais importantes escritos em Português e, inclusive, uma das obras de literatura mundial mais significativas de todo o século XX.
Em primeiro lugar saliento que gostei muito da trama: as memórias de Riobaldo narradas a Quelemén sobre o tempo em que fora jagunço e chegara a liderar um grupo na caça de um assassino de um chefe seu exemplar. Uma época em que se apaixonou por Diadorim, uma personagem travestida de soldado, em que sentia o dilema da paixão face os complexos de masculinidade e assumia o seu amor consentido pela distante e bela Otacília, período que lhe levantou questões sobre o bem, o mal, o Diabo a realização ou não de um pacto com este e até a dúvida sobre a existência deste ou não.
O romance não é uma estória linear: algumas das dúvidas sobre o bem, o mal e o demónio no protagonistas são lançadas ao ouvinte da narração, colocadas à reflexão por Riobaldo no texto que, em paralelo, também expõe os seus problemas morais e sentimentais e obriga-se a viajar no tempo para justificar determinados momentos da sua saga contra o inimigo e, em paralelo, descreve de uma forma poética a paisagem do sertão, as suas veredas, os seus rios e as suas gentes.
Guimarães Rosa utilizou no romance o modo de expressar sertanejo: vocábulos e sintaxe alterados pela linguagem popular, neologismos do escritor, regionalismos e ainda apresenta as espécies da fauna e flora da zona de Goiás, Minas Gerais e Baía como elementos simbólicos do carater das personagens, o que torna o texto num rendilhado complexo  que obriga a uma atenção intensa para quem não domina nenhum destes campos como eu e não estava prevenido para este estilo. Gostei do romance, embora por vezes tenha sido esgotante chegar à compreensão do conteúdo escrito e sei que nem tudo foi apreendido. Um livro que recomendo a quem além da magnífica estória, está disposto ao esforço de atenção e descoberta do que se esconde por detrás deste difícil texto.