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domingo, 25 de janeiro de 2026

"A Multiplicação dos Milagres" João Pedro Porto

 

Após vários anos, regressei ao escritor de ficção e poesia açoriano João Pedro Porto, com a leitura do seu recente romance "A Multiplicação dos Milagres".

Berto Brisi é um editor em Milão muito especial, não procura obras a publicar só espera que estas lhe venham até ele, é, por isso, conhecido como o Osga. Após conhecermos a sua origem perto de Turim, das suas deambulações por Itália e do histórico sucesso inicial com dois autores, a estagnação leva a que o dono do grupo comece a exigir novas publicações, até ele próprio criar três escritores de enorme sucesso, que, logicamente, ninguém conhece e para quem lhes arranja dados biográficos e acidentes em espaços expostos para justificar a respetiva existência, mas um dia eis que os três autores se cruzam com ele e entra-se numa espiral de situações complexas entre o criador, as personagens criadas e outras imaginadas por Berto.

Uma narrativa deslumbrante, surrealista que lembra Italo Calvino, temperada com absurdos kafkianos e de Saramago, unidos pelo brilhantismo da mitologia pagã pinceladas com o fascínio da história cultural, mitológica e geografia da península itálica, construída com uma escrita mirabolante de grande riqueza lexical e estonteante que monta um edifício todo ele hiperbólico e maravilhoso.

Tal como na sobrecapa, a zona central do livro está ocupada por mais de duas dezenas de desenhos e aguarelas do reconhecido pintor desenhador açoriano: Urbano, várias parecem referências da narrativa, ou esta às pinturas, que enriquecem a obra, complementando o texto com imagem.

Tal como em "A Brecha", João Pedro Porto é um escritor Açoriano, mas não produz obras de cariz regionalista, os seus livros ultrapassam a fronteira  temática da açorianidade em que, por vezes, alguns criadores deste arquipélago se limitam, sem deixar de ser um membro da cultura Regional.

Gostei muito, li em ritmo acelerado as piruetas da narrativa, mas não é um texto fácil, pois além das numerosas referências culturais, umas reais, outras lendárias da península Itálica, com enfoque em Dante, que mostram o grande conhecimento do autor sobre esta região as reviravoltas e maravilhoso da narrativa fazem-nos perder nesta vertiginosa história, com histórias  no seu interior.

Para quem gosta mesmo de literatura em estado puro, a escrita é muito bela e cheia de frases e ditos que importa sublinhar pelas ideias que encerram e recomendo vivamente este docinho literário.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah

Estreei-me no escritor, presentemente de língua inglesa, do arquipélago do Zanzibar na Tanzânia, Abdulrazak Gurnah, laureado com o Nobel da literatura em 2021, lendo um dos seus romances mais conhecidos "Junto ao Mar".
O romance começa com o narrar do idoso Saleh Omar da sua entrada como fugitivo do Zanzibar num aeroporto de Londres com o passaporte de Rajab Shaban, transparecendo que não sabe inglês, e com uma caixa de incenso apenas como principal bagagem. Após relatar o contacto com o agente de imigração e com uma voluntária para refugiados, é acolhido num centro de abrigo, onde buscam um tradutor para comunicar, encontram Latif Mahmud, este, igualmente um refugiado já naturalizado, suspeita de um usurpador do nome do seu pai, enquanto o primeiro desconfia que se trata do filho do homem de quem tomou a identidade. Entre o receio e a curiosidade, depois de alojado dá-se o encontro entre ambos e a narrativa passa para a história das duas famílias da parte de cada um: as falhas, os erros, as retaliações e as perseguições com a independência e os excessos de qualquer revolução que permitem um conhecimento mútuo e o crescimento de uma amizade inesperada.
Numa narrativa pouco acelerada, em parte nostálgica, em parte sentimental, a dar a conhecer a vida dos refugiados, das vítimas do fim da colonização e da guerra fria em África; o autor mostra com olhar africano o que foi a vida na parte oriental deste continente e as ligações históricas e comerciais entre os povos banhados pelo Índico.
Uma obra de divulgação civilizacional e cultural de uma parte do mundo muitas vezes esquecida ou contada apenas pela perspetiva europeia e vale conhecer pelo outro lado.
Gostei e deu para perceber a argumentação do comité Nobel das razões do galardão de literatura atribuído a Abdulrazak Gurnah. Fácil de ler e recomendo a quem quer alargar os seus conhecimentos sobre esta região de uma forma simpática e agradável.
 

domingo, 4 de janeiro de 2026

"Os Informadores" de Juan Gabriel Vásquez

 

Citação

"Porque as falhas herdam-se; e herda-se a culpa; cada um paga pelo que fizeram os seus antepassados, isso toda a gente sabe."

Estreei-me na leitura do escritor colombiano: Juan Gabriel Vásquez, com o presente romance "Os Informadores", país que conheço muito mal e de quem lera apenas obras do famoso Gabriel García Marquez.

Gabriel Santoro publica um livro baseado nas memórias que gravou de uma amiga de família sobre a vida na Colômbia da comunidade alemã refugiada ou imigrada naquele país que depois se tornou alvo de discriminação durante a II grande guerra, mas estava longe de prever que o principal detrator público da obra seria o seu homónimo pai, uma personalidade influente que chega ao corte de relações, até ao dia em que a doença deste o obriga a aproximar-se do filho, mas a sua morte inesperada é seguida de um escândalo sobre a ética do seu passado, começa então a buscar o que causou incómodo a partir da sua amiga, descobre então que a sua obra recordou traições e erros de cuja mancha se sente herdeiro.

O livro está dividido em várias partes, na primeira descobrimos o conteúdo da obra que Gabriel publicara e o que era a sociedade colombiana nas décadas de 1930/40, acompanhado da busca em compreender a aversão do pai ao seu conteúdo, a aproximação familiar com a doença e o renascer do progenitor. Após a morte de Santoro sénior, ele descobre o que não lhe fora comunicado antes pela sua fonte, o incómodo e a vergonha que o livro trazia à memória do pai, uma referência pública de ética, o que origina um segundo livro. Por fim,  fruto dos livros, dá-se o encontro  com as vítimas e a análise das feridas que ainda persistiam.

O texto divide-se entre o tom de memórias, com relatos do passado, reflexões das personagens sobre o essa época e a realidade social da Colômbia durante a guerra e hoje, bem como o evoluir da situação no presente em resultado do livro, é uma narrativa exposta de uma forma original, que intercala factos históricos, com personagens fictícias e reais, entusiasmei-me menos do que a obra merece, talvez por a ter lido no período natalício, pois reconheço a grande qualidade do romance e deixou-me curiosidade suficiente para querer voltar ao escritor que me parece ser uma alguém emergente e original na literatura latinoamericana atual.