Para celebrar o dia mundial do livro, uma espécie de aniversário destes meus companheiros diários desde que aprendi a ler ou até talvez um pouco antes, porque as imagens também se lêem nos livros, decidi falar das obras lidas que mais me marcaram no último ano, considerando três campos distintos: a literatura portuguesa, a literatura canadiana e a divulgação científica.
Na literatura nacional estive indeciso na escolha, dois escritores marcaram-me fortemente neste período: José Luís Peixoto e Gonçalo M Tavares. Optei por "Jerusalém", sem dúvida um romance negro... negríssimo, forte... fortíssimo, tão absurdo ou mais que uma história de Kafka, uma série de personagens neuróticas que se cruzam em situações vertiginosas, que desembocam num desenlace que, embora previsível, é uma surpresa. É um retrato da nossa época actual com todos as suas incoerências. Um livro com potencial de tornar-se um marco da literatura contemporânea e uma das referências do que de bom se faz actualmente no domínio da escrita em Portugal. (No Brasil, editado pela Companhia das Letras)
A foto menor esconde a maior obra que li e já completou de duas décadas de existência. Três romances que se ligam através de algumas personagens comuns em três universos diferentes e que formam "The Cornish Trilogy", um conjunto que mostra porque Robertson Davies foi um dos maiores vultos da literatura do Canadá do século XX. "The Rebel Angels" uma tertúlia de académicos testamenteiros de um talentoso e rico benfeitor das artes (F. Cornish) discutem os assuntos mais profundos do saber, perturbados por uma jovem assistente universitária inteligente e por um ex-colega tão genial como demoníaco. "What's bred in the bone" a biografia de F. Cornish, um sábio e génio da pintura antiga, cujo principal trabalho foi uma original falsificação. "The Lyre of Orpheus" o primeiro patrocínio do legado do génio é a conclusão/composição de uma ópera incompletíssima de Hoffmann por uma compositora em início de carreira, um mundo que funde letras, música, representação e encenação. Três livros de um homem de saber enciclopédico e com uma escrita quase Queirosiana. (Desconheço tradução em Portugal, no Brasil o primeiro volume está editado pela Ediouro como "Os Anjos Rebeldes").
Mais que divulgação científica, é um alerta para os riscos que a civilização enfrenta, tendo em conta os sinais cada vez mais evidentes da concretização das alterações climáticas. Algumas soluções para salvar a humanidade podem passar por aquelas que foram mais veementemente rejeitadas nos últimos tempos e outras são de uma tecnologia que, embora pareça ficção científica, já se encontra disponível. Um livro perturbador, polémico e, nalgumas propostas, talvez mesmo tendencioso. Editados em Portugal (Gradiva) e Brasil (Intrinseca) sob o título (A vingança de Gaia)