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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

"O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas

 

Acabei de ler o livro, em formato de ebook, da reportagem do escritor de ficção, espanhol e ateu, Javier Cercas, da sua viagem, em agosto de 2023, como convidado para a comitiva que acompanhou o Papa Francisco na sua visita à Mongólia, e intitulado de "O Louco de Deus no Fim do Mundo".
A obra contém várias partes, no início expõe a surpresa do convite, feito por Fazzini o editor de uma livraria católica, e a estranheza pela encomenda de um livro escrito por ele sobre a viagem, tendo total liberdade sobre o conteúdo do mesmo. Aceite o convite, Cercas assume o interesse em ter uma audição com Francisco, o que não lhe é garantido, ficou o compromisso de esforços nesse sentido.
Cercas revela a sua educação católica e factos da sua caminhada para o ateísmo, sendo os intervenientes no livro, normalmente informados do seu anticlericalismo, põe em contraste a posição dos Loucos de Deus com a dele, um Louco Sem Deus, mas anseia questionar Francisco sobre a crença da sua mãe na Ressureição da Carne e do reencontro dela com o seu falecido marido.
Na parte seguinte relata os dias em Roma antes da viagem, onde tenta compreender quem é o Jose Mario Bergoglio por detrás do Papa, expõe alguma informação biográfica resultante da sua pesquisa e entrevistas a vários homens fortes da comunicação social e cultura da Santa Sé, que genericamente chama de Soldados de Bergoglio. Aqui inclui o responsável pela Cultura do Vaticano, o poeta português Tolentino Mendonça. Assim, conhecemos a ideia que o escritor vai formando de como é Francisco, as marcas do seu papado, a revolução que faz no coração do Catolicismo e as resistências que o cercam
Depois vem a reportagem dos dias da visita à Mongólia, país onde quase não há católicos. Cercas conta em pormenor a viagem de avião, onde teve uma audiência privada com o Papa que deixa para o final do livro. Descreve o comportamento dos jornalistas presentes e das pessoas da comitiva papal que vai conhecendo. Contacta com vários missionários estabelecidos em Ulan Bator, que descrevem a realidade social e religiosa desta capital e dos Mongóis e reporta os eventos da visita oficial do Papa.
O relato da visita é composto de várias frentes: a dos jornalistas que são mais repórteres políticos com interesse na relação Igreja/China e sem interesse na mensagem religiosa e com ignorância neste domínio. Outra é as entrevistas a missionários vindos de África, América Latina e Europa para um meio tão diferente e a tentativa de perceber estes loucos de Deus no fim do mundo, faz questões difíceis sobre a fé e o seu dia-a-dia. A última é a descrição dos atos oficiais: os encontros políticos, inaugurações e uma missa, onde a sua perspicácia de analista não esconde as tensões, desconfianças e as máscaras entre a religião, a política e a sombra da China.
Por fim o regresso, que contém uma entrevista com o titular do discatério da Doutrina da Fé, ou seja, ao herdeiro da Inquisição e do Santo Ofício no papado de Francisco, outro argentino que até fora alvo da desconfiança do ministério tão mal afamado que agora tutela e a quem Cercas não deixa de fazer questões difíceis e falar sobre o credo e de contrastar este homem com "O grande Inquisidor" de Dostoievski no romance dos Irmãos Karamazov. Já em Barcelona, Cercas vem jantar com a mãe e traz-lhe a resposta que Francisco lhe deu sobre a Ressurreição.
Nunca li nenhum romance de Javier Cercas, mas esta reportagem mostra que é alguém que sabe contar uma história, reportar uma viagem, capaz de entrevistar distinguindo o que são as suas opiniões, crenças e formas de pensar, respeitando as ideias do outro e faz tudo isto com reflexões e análises críticas pessoais sem menorizar tudo o que em contrário lhe é respondido.
A obra tem um epílogo com um acontecimento posterior, a morte da mãe de Cercas, onde uma surpresa veio fechar com chave de ouro o livro deste homem ateu, anticlerical que mostra Jose Maria Bergoglio e o Papa Francisco sem complexos, mas sem qualquer tentativa de o repórter se tornar num apóstolo camuflado para gente sem fé. Vale a pena ler esta obra com muitas ideias para reflexão para crentes ou descrentes. Não é um livro religioso, mas fala de um Francisco verdadeiramente cristão que dirigiu o Vaticano.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"As crónicas de Explosão" de Yan Lianke

 
Estreei-me no escritor chinês, Yan Lianke, com o seu romance "As Crónicas de Explosão". Explosão é uma aldeia remota (ficcionada), situada na encosta de uma montanha. Yan Lianke, o filho da terra que, por ser um escritor famoso, foi contratado para pôr em crónica a história de Explosão, mas que aceitou na condição de escrever livremente e à sua maneira (crítica e sardónica). 
O cronista mostra o papel dos protagonistas que em 50 anos fizeram que Explosão tenha sofrido uma explosão económica e demográfica, passando de uma pequena aldeia de província, numa metrópole de milhões de habitantes e com um potencial económico e industrial comparável ao de Pequim e Xangai. 
As crónicas começam a apresentar as origens pré-históricas do local, os protagonistas e a cronologia da publicação, onde fica claro que a narrativa foi rejeitada por quem a encomendou, penalizando o escritor com a sua desnaturalização e apagamento da história, evidenciando logo o teor crítico do livro.
Kong Dongde, avisado num sonho, envia os seus 4 filhos a descobrirem para que estão destinados mandando-os a uma saída noturna e a identificarem o primeiro objeto que encontrarem. Estranhamente todos pais em Explosão tiveram o mesmo sonho e deram a mesma ordem. Kong Mingliang, além de encontrar algo que prova que será o futuro líder de Explosão, cruza-se com a filha do rival do pai: Zhu Ying. Arranca assim a evolução daquele povoado em resultado das ligações de amor, ciúme, ódio rivalidade, prostituição, compadrio, corrupção e ambição de poder desmedida na família Kong.
A narrativa, sempre num tom crítico e de ironia inteligente, é uma intricada teia de vontades, corrupção, prostituição, sedução por dinheiro e sexo, tráfico de influências e iniciativas cujo objetivo é levar ao topo a força e a capacidade de Explosão de vencer na China e perante o Mundo, torna-se assim numa réplica da ascensão do próprio País com exposição dos defeitos e o calcar dos valores e da história, mas reconhece o engenho e capacidade de liderança sobre o povo para alcançar os objetivos comuns traçados para vencer.
A narrativa apoia-se ainda num estilo onde plantas, animais, geologia e meteorologia dão sinais de solidariedade e obediência conformes com a força dos sentimentos, das tensões e das intenções dos protagonistas, metamorfoseando-se em sintonia com os momentos narrados, estilo que se intensifica ao longo do romance. Género literário que no fim Yan Lianke explica no fim e designa de "mitorrealismo", este parece-se com o realismo mágico da América Latina, mas mais intenso e hiperbólico.
Talvez por esta fusão do mitorrealismo com crónica familiar e de uma geografia rural longínqua da civilização, a obra faz recordar "Cem anos de Solidão", onde a dinastia Kong lembra a saga dos Buendía e Explosão é a nova Macondo, embora a qualidade da narrativa não me pareça tão constante e equilibrada ao longo de toda a obra como na de Marquez, mas talvez isto resulte do modo de transpor o texto literário de chinês para um língua tão distante como o português.
Surpreendeu-me muito como o escritor, através de uma linguagem sardónica, expõe feridas no sucesso económico da China ao longo do último meio século, dentro de um País onde a liberdade de expressão não é considerada existente e até consegue brincar com isso! Verdade que não esconde a importância do foco nos objetivos deste Povo e o sucesso e a rivalidade chinesa com os Estados Unidos da América. Na biografia de Yan Lianke pela internet constam alguns problemas que tem tido de enfrentar no regime em que vive. Este romance mostra o valor da China, as feridas do seu progresso acelerado e ainda que esta tem escritores de excelência que devem ser lidos e conhecidos no Ocidente.
Eis um grande romance de um autor que tem uma obra vasta, com várias temáticas e vários prémios literários.

domingo, 6 de setembro de 2026

"Eu que servi o rei de Inglaterra" de Bohumil Hrabal

 

Acabei de ler "Eu que servi do rei de Inglaterra" do escritor checo Bohumil Hrabal.  As memórias de um empregado de mesa num restaurante de hotel.
Pikkolo relata em monólogo a sua vida desde infância na pobreza em casa da avó no meio rural, onde se apanhava roupa abandonada do hotel na vizinhança para remendar e comercializar, passando ele a vender salsichas numa estação de comboio, onde usava de artimanhas para ficar com o troco e mudando-se depois para empregado de mesa em Praga, variando de hotel e onde serviu a burguesia e a aristocracia até atender um imperador, chegar a chefe dos criados, ter um casamento de regime até ascender a hoteleiro de luxo. Depois a descida, com a mudança de regime político, a prisão dos capitalistas e por fim acabar sozinho, feliz e a escrever as suas memórias.
À semelhança do anterior romance que li e refiro aqui, o narrador é o protagonista da sua biografia, contada na primeira pessoa e onde há sempre um misto de observação crítica da vida social que o envolve, feita num tom atravessado por um humor ácido e saudosista do passado. Num primeiro momento, há um Pikkolo que se orgulha de sair da pobreza rural e da sua esperteza em obter dinheiro. Como criado observa e analisa os vícios dos clientes mais ricos: mordomias, comida, álcool prostitutas e exibicionismo. Sonha ser igual, estreia-se num bordel e inicia-se no sexo sem deixar de ser um romântico. Na invasão nazi descobre uma alemã, mas descobre que está refém de uma relação com função procriadora da raça ariana da qual também descende. É a época de rejeição do seu povo até à libertação, momento em que toda a sua vida é uma tentativa de ser aceite pela classe que invejou, consegue ter dinheiro e chegar ao topo sem nunca ser aceite pelos pares, até à resignação e situação final feliz.
Há momentos kafkianos, com absurdos hilariantes, como a vida dos presos por serem ricos, que ele forçou a sua acusação e pagar a sua pena. Outros são mesmo ternos, românticos e nostálgicos, numa escrita de parágrafo longos, onde o tom poético atravessa toda a narrativa. Gostei e recomendo a quem aprecia excelentes textos literários cheio de criticismo subtil.