O livro "Meursault, contra-investigação" que acabei de ler, do argelino Kamel Daoud, prémio Goncourt de 2014 é uma reação à famosa novela "O Estrangeiro" de Camus, prémio Nobel de 1957, que reli antes para melhor a compreender.
Para quem não se lembra, ou não sabe, Meursault é o estrangeiro membro da comunidade colonial em Argel e o assassino do árabe na obra de Camus, de cuja vítima nada soubemos na novela, exceto a existência de uma pretensa irmã, pois nem travou conhecimento com o seu criminoso.
Agora Daoud atribui um nome ao árabe: Moussa, uma comunidade de bairro e uma família, curiosamente não tem uma irmã mas sim um irmão: Haroun, situação explicada nesta ficção, e é este familiar mais novo que narra todo o impacte do crime e o seu contexto sociocultural.
Haroun serve-se da narração de "O Estrangeiro" para não só falar do absurdo na novela de Camus, mas também para contrapor o choque de culturas entre o colono e o povo local, a importância da língua francesa no contexto é interessante, e fala-se até da diferença do ocupante matar um anónimo autóctone e o desprezo votado à vítima em contraponto com os assassinatos na luta pela liberdade da Argélia ou na retaliação do irmão.
Harroun narra a sua vida e desenha situações paralelas e opostas sobre as quais reflete e compara com as de "O Estrangeiro". Em ambos os mundos o narrador está desadaptado dos costumes da sua sociedade, ambos matam, ambos são ateus que confrontam o clero, ambos têm uma relação de incompreensão com a mãe e ambos tiveram uma relação amorosa não comprometida. Todavia Camus conta o presente, Daoud faz uma restrospetiva desde as dificuldades dos argelinos ao tempo de Meursault, passa pela esperança da libertação do País e vai até à desilusão no presente, uma realidade quem também convive com o absurdo.
Um livro interessante, também de pequena dimensão, mas cuja qualidade sai diminuída pela comparação com a genialidade intrínseca a uma das obras maiores do século XX. Não obriga a ler "O Estrangeiro" previamente, mas que ajuda a leitura desta, ajuda, e a de Camus é a obra-prima.