sábado, 24 de março de 2018

"Os despojos do dia" de Kazuo Ishiguro


Excerto
"Certamente só pode ser um «grande» mordomo aquele que está em condições de apontar para os seus anos de serviço e dizer que empregou os seus talentos a servir um grande cavalheiro - e, através dele, a servir a humanidade."

Há vários anos recomendaram-me "Os despojos do Dia" como uma prova da excelências da literatura japonesa. Anotei, o tempo passou e não comprei, até que o último Nobel atribuído a Kazuo Ishiguro me levou à compra e então deparei-me com um livro sobre a sociedade conservadora inglesa, narrado pela personagem mais obsessivamente britânica que li até hoje e numa escrita magnífica, sem artificialismos estilísticos, mas de uma beleza pura que confere um equilíbrio difícil de encontrar num texto das memórias e ideias preconcebidas de um mordomo sobre a sua profissão.
Stevens sente que está a cometer pequenos erros profissionais desde a mudança para o seu atual patrão, um norteamericano que comprou a residência de lord Darlington, a quem ele sempre servira como mordomo até à morte daquele. Ao aperceber-se da tensão, o novo proprietário que pretende ir por uns dias aos Estados Unidos recomenda-lhe uma viagem para espairecer e conhecer a Inglaterra. Setvens que tem em mente aventurar-se a contratar uma ex-governanta que lhe escreveu, aceita a recomendação e faz uma viagem de uma semana até à cidade da antiga colega, ao longo desta reflete sobre o que são os deveres profissionais de um grande mordomo, como foi a sua vida ao entregar-se ao distinto lord, recorda outros que optaram por aproveitar a sua vida, enquanto ele cumpria servir alguém em quem pôs todas as suas esperanças para através dele estar ao serviço do mundo, só que que ao logo da deslocação vai-se apercebendo de falhas neste processo, vai encontrando gente que lhe desperta para outras realidades e descobre a beleza do mundo que o rodeava e desconhecia. Um verdadeiro exame curricular sobre a validade da sua vida e da sua forma de pensar.
A partir desta história fica claro que Ishiguro, filho de japoneses, nascido no Japão e imigrante na Inglaterra desde os 5 anos, é um escritor inglês, talvez o único aspeto nipónico neste livro é descobrir que a cultura conservadora inglesa e japonesa compartilham a sobriedade no mostrar os sentimentos, no falar e no agir em sociedade e ambos têm a obsessão dos rituais de pormenores no mais diversos atos comuns do dia a dia e nisto este livro é também uma mostra genial do que é ser"british".
Uma reflexão psicológica sobre o sentido da vida, mas relatada de uma das formas mais belas que li em literatura, com momentos onde o choque de sentimentos com o dever desrespeita a humanidade que há em cada um em nome de uma pretensa perfeição de saber estar em sociedade. Um livro de uma grande beleza e subtileza. 

domingo, 18 de março de 2018

"Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina" de Mário de Carvalho

Excertos

"E a simpleza repugna aos portugueses. Deixar alguém na despreocupação? A fruir dos seus direitos? Isso é antilusitano."

«Ora aí está, aquela minha ideia do geólogo é que era. Isto não há nada como as ciências exactas,»

"Lá em baixo, na paisagem, incrustada na duríssima permanência das coisas, onde só mandam castelos, menires, cromeleques, destoa, azulínea, e sobressalta, com transparência, a piscina modernaça e tratada a poder de fluidos caros e especiosos."

O título do livro "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina", prémio PEN clube de 2003, do escritor português, várias vezes premiado, Mário de Carvalho, já de si indicia que não se está perante uma obra de estilo tradicional, de facto, o autor classificou-a não de romance ou novela, mas de um cronovelema e, segundo ele, o termo é algo que "não rejeita nada e não se sujeita a imposições".
O texto é mesmo uma narrativa que flui naturalmente como um rio de humor agridoce que se encadeia na mudança de narrador, de tempo e de espaço, corre na terceira pessoa ou na primeira, por vezes é meramente descritivo, noutras são diálogos e onde a língua Portuguesa é explorada com uma riqueza vocabular enorme, ora num estrutura gramatical de excelência, mas vai da erudição ao calão, outras desce ao linguajar popular e no desrespeito pelas regras, a roçar o realismo mágico, e lá se vai construindo uma estória que mostra um Portugal sem disfarçar os seus defeitos e vícios comuns.
A trama do livro, numa paródia intercalada de reflexões críticas a Portugal e suas gentes, consiste na existência de dois coronéis reformados que recuperaram casas de campo no Alentejo, um decide ter uma piscina em torno do qual se reúnem e falam das aventuras dos seus tempos de guerra, para obtenção de água contratam um jovem vedor, mestre de xadrez, que nestas funções deambula pelo sul do País onde se depara com vários tipos de aventuras e peripécias no seu carro que chega a ser anfíbio, enquanto o seu tio lhe dá conselhos de macho apesar das suas relações complicadas com mulheres. Por sua vez, as esposas dos militares encontram-se ávidas de aventuras, uma invejando a outra nas suas conquistas, enquanto um filho leva uma vida a fazer graffiti numa caravana, sem dinheiro e no desprezo aos rigores castrenses, tudo isto vai-se cruzando e sendo observado por um mocho e um melro que a tudo assistem e comentam de uma oliveira e acrescentam ou cortam o seu ponto.
Como todas as paródias, o humor atravessa o texto, mas a sátira mordaz aos aspetos da vida do País deixa um sabor agridoce, que o fantástico, que por vezes entra, não apaga. Gostei, este cronovelema, num estilo tão distinto deste romance, mostra bem a versatilidade de Mário de Carvalho, um mestre genial da escrita e da língua Portuguesa e esta capacidade tornam este livro numa obra de arte e um desfile de possibilidades de explorar e tratar o idioma lusitano.

quinta-feira, 15 de março de 2018

"O Jogo do Mundo" (Rayuela) de Julio Cortázar


Citações
"Para que é que serve um escritor senão para destruir a literatura?"
":o juízo que o Rei pronuncia não é o seu, mas o teu. Julgas-te a ti mesmo sem o saberes."

Eu sabia que "O jogo do mundo" do argentino Julio Cortázar, à semelhança do desenho do jogo desafiante mostrado na capa do livro que nos punha a saltar de "casa" em "casa" e surge na estória, era um romance que recomendava saltar entre capítulos, isto numa sequência de leitura diferente das narrativas habituais noutra obras, só que este livro é bem mais complexo do que os meros saltinhos do jogo da macaca (rayuela em castelhano da Argentina ou amarelinha no Brasil).
A trama está relacionada com um grupo de artistas e pensadores estrangeiros "refugiado" em Paris do final dos anos 1950, quando esta cidade ainda era considerada o centro do pensamento e das artes mundiais. Neste grupo, o intelectual Horácio Oliveira, argentino, desenvolve uma paixão por Maga, uma uruguaia de pouca culta cuja ignorância desperta reações várias no grupo que se reúne numa tertúlia de reflexão "Clube da Serpente", que discute pintura, filosofia ocidental existencialista e tibetana, jazz e, claro, literatura. Uma ocorrência grave levará não só à fuga de Maga, como à exclusão de Horácio e ao seu desnorte em busca dela, o que o leva de regresso à Argentina para junto de gente de um circo ao lado de um manicómio, aí a mulher do seu melhor amigo torna-se obsessivamente numa réplica de Maga com toda a tensão psicológica deste jogo.
Cortázar escreve não só o romance, que ocupa quase os dois primeiros terços do livro (cerca de 400 páginas), por vezes divertido, mas também tenso, como também expõe em mais do terço final uma reflexão sobre a literatura, a arte e o existencialismo, tanto através de discussões das personagens da própria trama, como também com recursos a pequenos textos de um escritor, Morelli que se cruza com os da primeira parte e cujo seu espólio é acedido por eles.
Cortázar leva-nos através de uma tabela guia, associada aos capítulos, a saltitar da narrativa romanesca para outros da última parte, isto numa sequência que parece ilógica, mas que está profundamente estruturada e onde se descobrem os escritos de Morelli que fala da desconstrução da literatura, da necessidade de o leitor não ser um mero elemento passivo da obra, bem como, se acede a pretensos excertos de outros textos de origem diversa a que se adiciona ainda reuniões do clube da serpente a refletir sobre tudo e mais alguma coisa dispensáveis à trama.
Cortázar não deixa de ensaiar escritas criativas, com estilos variados em função dos diferentes autores dos capítulos por onde se saltita e no fim fecha-se o ciclo de um romance muito mais vasto que uma simples estória.
Gostei muito, custou-me a ambientar inicialmente no que parecia caótico, mas depois vibrei e tornou-se numa experiência inesquecível, recomendo apenas a leitores não passivos que gostam de ser desafiados pelo escritor... mas dá para ler sem o saltitar no que será uma experiência muito menos intensa deste livro.

quinta-feira, 1 de março de 2018

"O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa


Citações
"Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente"

"Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, que não admite lei senão a Natureza,... ...por que carga de água é que defende o altruísmo e o sacrifício pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais?"

"O Banqueiro Anarquista" é um dos textos famosos de Fernando, aliás penso que tudo dele é famoso e bom. Assim, após me cruzar com uma divulgação deste texto num blogue, que sigo recentemente, lembrei-me que o folheara poucos dias atrás e decidi conhecer o meu poeta de eleição como contista.
Num jantar de dois amigos, o narrador decide questionar o banqueiro rico sobre dizerem que ele fora anarquista, ao contrário do que a sua profissão e estatuto indicaria. O banqueiro não só confirma o passado, como confessa ainda o ser e de levar esse espírito à prática mais do que os defensores típicos da causa. A partir daqui, o banqueiro irá fundamentar as suas razões, a coerência da sua situação e todo o historial que o levou ao seu sucessos no respeito da ideia que defende.
Fernando Pessoa desenvolve assim, ao longo de várias dezenas de páginas, um conto com uma evolução dialética de forma socrática liderada pelo banqueiro, mas onde ele próprio aponta o que parece incoerente, em seguida refuta e evidencia a lógica do seu raciocínio, que depois o amigo narra.
Um texto filosófico, inteligente que se torna divertido com as ironias e críticas subliminares aos defeitos e vícios da sociedade que então se confrontava entre a mentalidade burguesa, o marxismo e a terceira via do anarquismo.
Bem escrito, argumentado e uma pérola que recomendo a todos os leitores que gostem de debates inteligentes e de bom humor. Adorei.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

"Os Navios da Noite" de João de Melo

Citações
"O pior de todos os cegos  será sempre aquele que, podendo olhar a luz e a beleza encantada do dia, só quer ver a noite do mundo, o fundo escuro das águas, os abismos invisíveis do mar."

"Não existe nenhum tempo fora daquele que vivemos; nem um destino diferente do nosso."

Já há várias décadas que não regressava a João de Melo, talvez o escritor açoriano vivo de maior projeção literária. Antes, lera-o em magníficos romances de seu quase início de carreira e, agora, voltei a ele num outro género em que ele muito publicou: contos; com um livro recente já em estado adiantado do seu longo currículo literário "Os Navios da Noite".
O livro contém 18 contos, metade não muito curtos, onde a memória de acontecimentos sofridos pelos protagonistas das histórias deixaram memórias e marcas como navios.
Há muito que não lia João de Melo, notei, pelo menos em relação entre as obras lidas, uma evolução na escrita, agora parece-me mais simples e realista, antes sentia uma auréola barroca e rebuscada de que não desgostava, mas são ambas elegantes e poéticas.
João de Melo nalguns destes navios aparece desiludido com Portugal e os Portugueses, é quase um misantropo nacional, provavelmente fruto da crise que o País atravessava quando a escrita da obra escrita, embora o conto da prisão do Governo e Presidente por venda do País em prejuízo do Povo tenha ironia inteligente e bom humor.
Noutros contos há ternura ou amargura em tom de reflexão individual, nestes, por vezes, parece existir um desequilíbrio entre a dimensão da narrativa, o tempo para o seu desenvolvimento e o despertar do interesse para o seu conteúdo.
Assim, houve contos que gostei, como o do cego na minha ilha do Faial, o das reflexões sobre o Génio de Aladino, os de ternura familiar e o do regresso de Eça de Queirós a Lisboa, embora a mordacidade dele surja mais amarga em João de Melo do que no do século XIX, mas de outros contos que gostei menos e até houve alguns que até me desagradaram. Valeu pela visita ao autor por ter ficado a curiosidade de verificar como envelheceu nos romances mais recentes e compará-lo com um dos primeiros reeditado e reescrito que me falta ler.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"A obra ao Negro" de Marguerite Yourcenar


Citações
"roubar os segredos da morte para lutar contra ela, utilizar as receitas naturais para auxiliar ou contrariar a natureza, dominar o mundo e o homem, refazê-los, talvez criá-los..."
"Hei de morrer um pouco menos estúpido do que nasci"
"Uma onça de inércia pesa mais do que um alqueire de saber"

"A obra ao Negro" é o terceiro livro que leio de Marguerite Yourcenar, escritora de culto de nacionalidade e língua francesa, nascida em Bruxelas e também cidadã norteamericana, sendo que  "Memórias de Adriano" é um dos livros da minha vida, pelo que iniciei este romance com uma bitola elevada, apesar de bom, o estilo e  a mensagem são bem distintos um do outro.
O livro narra a vida do flamengo Zenão e a visão da sociedade europeia no século XVI, a época da reforma e contrarreforma religiosa, vista pelos olhos e a razão do protagonista que representa o espírito do renascimento ainda enraizado pelo misticismo medieval mas a libertar-se pela ânsia do saber científico, apesar de todos os riscos que isso representava para a sobrevivência deste filósofo, médico, investigador/alquimista e intimamente ateu e sodomita, quando as religiões, as cismas e a política partilhavam o poder e regiam a justiça segundo os seus interesses e ideias.
Zenão, nascido bastardo de uma jovem de família poderosa da banca da Flandres que pertencia à católica Espanha, educado por um cónego e apaixonado pelos segredos da natureza, filosofia e tecnologia, não convive bem com nenhuma das ideias e poderes estabelecidos, parte pelo mundo correndo riscos, enquanto tratados científicos anunciam importantes descobertas ainda enraizadas no pensamento religioso e quando este está em conflito sangrento e aliado a interesses de dinastias que disputam espaço na Europa. Assim, o protagonista terá contacto com tudo isto em várias partes do velho mundo e relações difíceis de familiares conservadores e reformistas e estará sempre sob a ameaça da condenação por heresia, sobrevive uma vezes a coberto de identidade falsa, outras protegido por religiosos tolerantes com quem tem sábias discussões e outras em ações de risco contra tudo e todos, como médico, aliado das vítimas e com a sua moral privada.
A obra densa de informações históricas arrumadas ao interesse da trama, dá-nos um retrato negro dos medos e conflitos associados à mudança do misticismo medieval para o renascimento. As cismas religiosas violentas, a inquisição e as descobertas marítimas numa época que hoje parece cheia de luz, mas que se nutria de terror e da coragem para mudar o estado de coisas. Nem Papa, nem Lutero são heróis, tudo está em mudança e luta pelos seus interesses. Zenão passa por isto à espera de se tornar vítima que ninguém como ele poderia escapar e é uma das personagens mais fortes de toda a literatura que já li.
Gostei, mas a densidade de informação e a escrita introspetiva do livro não o torna fácil a todos os leitores, parece um quadro negro de Hyeronimus Bosch ou de Pieter Bruegel, mas sem uma mensagem de governar para um mundo melhor que caracteriza as Memórias de Adriano, que prefiro, mas sem dúvida é um bom e culto romance.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Ficção Curta Completa de H. G. Wells - Volume I


Citações
"Nas novas condições de conforto e segurança perfeitos, aquela energia inquieta, que em nós é força, tornar-se-ia fraqueza."
"Onde não há mudança, nem necessidade de mudar, não há inteligência."

Este livro, além de conter a famosa obra "A Máquina do Tempo", tem ainda uma coletânea de 34 contos de H. G. Wells um inglês e um dos pais da ficção científica do final do século XIX até meados do XX.
Sem dúvida que o texto mais marcante do livro é: "A Máquina do Tempo", um cientista destemido não só a cria, como viaja e depois vem relatar a sua experiência com uma civilização distante, sucessora da nossa e muito diferente. Apesar da estória ter como base a viagem temporal, podendo classificar-se de ficção científica, a obra é, essencialmente, uma reflexão sobre os males da estratificação social, a degradação das condições laborais dos mais fracos e a degeneração associada ao bem-estar de outros à custa dos desfavorecidos, o que pode levar a reversões e a degradações perigosas em todos. Tem subjacente ideias políticas e sociais, mesmo que expostas de forma inteligente e transportadas para um mundo distópico à distância de centenas de milhares de anos, aproxima-se mais do género de Thomas More em "A Utopia" uns séculos antes, do que uma ficção científica de entretenimento.
Os restantes contos são de vários géneros e virados ao lazer: há os de divulgação científica, com incidentes e especulações mais ou menos fantásticas que caracterizam muito bem as mentalidades e a evolução da investigação em ciência na Inglaterra no final do século XIX e lembram Jules Verne; há os do género gótico, mais livres na imaginação que jogam com medos como Allan Poe; e há ainda outros mais sociais e críticos que podem ter influência de Tchekov, ou ser originais no estilo e de mensagens várias.
A escrita é muito fácil, escorreita e elegante com figuras de estilo quanto baste e recorre ao saber científico transposto para a divulgação ficcional. Torna-se evidente que Wells não só estava a par dos avanços científicos, mas também refletia sobre a ciência, criando fundamentos que seguem a forma de investigação séria, ler o modo como ele fala do espaço e do tempo em "A máquina do tempo", sabendo que a obra é anterior à teoria da relatividade, leva a supor que até Einstein se influenciou por ele na sua investigação e isto mostra que teria uma inteligência, além de cultura, excecional.
Gostei muito e fico agora à espera da saída do segundo volume deste escritor mais conhecido pela Guerra dos Mundos.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

"O Poder e a Glória" de Graham Greene

Citações do livro
"O medo e a morte não eram as coisas piores, por vezes, a continuação da vida era um erro"
"A infelicidade também se podia tornar num hábito, tal como a piedade"
"Até um cobarde tem o sentido do dever"

Foi o meu regresso ao escritor inglês, mais popular pelos livros de espionagem, Graham Greene desde que o lera na minha juventude e, novamente, com um livro de ficção centrado em questões religiosas, tema de várias obras após a sua conversão, em adulto, ao cristianimo católico. "O Poder e a Glória" é o resultado da sua visita ao estado de Tabasco no México para conhecer a perseguição ao catolicismo (1928-34) que proibiu todo o clero de exercer qualquer culto ou qualquer manifestação de fé pelas pessoas sob a ameaça de crime de traição punível com a morte.
O romance descreve a resistência do que seria o último padre sobrevivente neste Estado após a interdição do clero e da oferta aos sacerdotes para renunciarem o seu exercício e se casarem com o benefício de uma pensão, o que levou ao fuzilamento de muitos, a fuga da maioria para outras partes do México, enquanto o protagonista clandestinamente mantém vivo o seu sacerdócio para preservar a fé na região em oposição a outro que opta pelo casamento e pensão.
Tudo seria uma simples perseguição, não fosse Graham Greene escolher como herói um padre que se torna alcoólico, que numa paixão tem uma filha que ama, que se esforça por obter as condições de prática sacerdotal e descobre como se acomodara aos hábitos do clero quando fora livre, sendo agora uma ameaça às pessoas que quer apoiar na sua salvação e espalha a morte, ou seja, um anti-herói, que até reconhece virtudes ao colega renegado, mesmo assim, ele não desiste da sua fé, da sua luta e das suas obrigações até deixar-se cair nas malhas dos seus perseguidores de quem já escapara algumas vezes para em consciência salvar a alma de um ladrão.
É neste dilema pessoal de vocação sacerdotal e fé de alguém que se considera indigno para as suas funções que a obra glorifica este homem, que em situações de humilhação em humilhação, ora cheias de ternura, ora de horror  e outras onde só um entendedor da essência do culto, como a necessidade de comprar vinho de uva onde impera a lei seca e, clandestinamente, lhe propõem em alternativa brandy, que resiste e é despojado do seu produto, mas que no seu dever se sente um condenado que salva e é nisto que se percebe a grandeza deste livro que foi um sucesso em meados do século XX. Uma grande obra de introspeção que opõe a força da fé à fragilidade humana dentro de um padre. Gostei muito, mesmo sendo uma obra que implicitamente assume muitos dos defeitos do catolicismo, compreende-o muito bem.

domingo, 28 de janeiro de 2018

"O Relatório de Brodeck" de Phillippe Claudel


Citações do livro
"A imbecilidade é uma doença que casa bem com o medo."
"Bastam a raiva e o ódio para desarranjar os cérebros. São aguardentes mais violentas."

Em "O relatório de Brodeck", do francês Philippe Claudel, o protagonista, é encarregado pelo Presidente do lugar a escrever um relatório em nome da população que justifique o assassinato coletivo, perpetrado pelos adultos da aldeia, de um visitante que ali se estabelecera há uns meses numa pousada e agitara as consciências pelo seu exotismo e simpatia, só que Brodeck não assistiu ao crime e logo na primeira frase do romance assume "não tive culpa de nada.".
A obra decorre no pós-guerra entre o dia em que o narrador interrompeu a sessão do crime da aldeia até à entrega do relatório que teve de escrever. Entretanto, Brodeck vai-nos narrando a sua via de órfão não natural da aldeia, o acolhimento por uma mulher e os acontecimentos mais importantes da aldeia fechada ao exterior, desconfiada por instinto de sobrevivência e onde todos são culpados de algo, inclusive contra o autor, denunciado na guerra como estrangeiro para um campo de concentração que o ensombra. Paralelamente, vamos descobrindo a chegada do assassinado, nunca disse o nome e ficou conhecido por "De Anderer" (o outro), mas que com o seu sorriso desconcertante e desenhos espelhava o mal que pesava na consciência local e desejavam esquecer.
Talvez por o escritor também  ser argumentista, a obra evolui de forma cinematográfica, enquanto o texto, cheio de metáforas, tem um encadeado de alegorias cujos acontecimentos fazem-nos refletir sobre ideias subjacentes. Nunca é dito qual é a guerra, subentende-se a II Grande Guerra. Nunca é dito o local, deduz-se ser um território fronteiriço da França com a Alemanha (Claudel é natural dessa faixa), daí a desconfiança para com os de fora. Não sabemos a raça de Brodeck, apenas é diferente. O povo tem um dialeto próprio germânico, tal como a Lorena do escritor, com imensas frases no livro sempre traduzidas, incluindo os equívocos malévolos que escondem.
O romance torna-se incómodo pelas perguntas que levanta, pela evidenciação do mal que somos capazes de fazer, nos momentos extremos ou fáceis, a opressão que tal provoca na consciência individual e coletiva e a reação contra quem de alguma forma nos faz lembrar aquilo que nos pesa.
O livro é muito fácil de ler, apesar de se subentender sombras a pesar quase todas as passagens, pouco extensos e marcante. Gostei muito.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Resistência" de Julián Fuks


O pequeno romance "A Resistência" do escritor Brasileiro Julián Fuks, filho de refugiados políticos Argentinos, o mais recente vencedor do prémio literário José Saramago, é uma obra em estilo de coletânea de curtas memórias do narrador sobre a sua relação com o irmão mais velho, adotado quando recém-nascido pelos pais, e a gestão das questões em torno da integração do mesmo no agregado de acolhimento. Esta situação permite em simultâneo narrar a história de toda a família que, por coincidência, tem grande similitude com a do próprio escritor: também são pais refugiados da Argentina em São Paulo, servindo esta técnica para denunciar alguns dos horrores da ditadura de onde saíam e a curiosidade de se fixarem num país, ainda não democrático, mas onde a simpatia Brasileira permitiu adotarem a nova terra como sua.
A escrita toma a forma de uma sucessão de crónicas brilhantemente escritas, com ternura, elegância e poesia onde o narrador as inicia servindo-se de uma frase ou palavra como mote para reflexões em questões psicológicas, de consciência, de perseguição política, de nostalgia do refugiado e da integração num meio diferente, criando uma espiral de pensamentos e frases fortes que montam um rendilhado em torno da ideia central dessa memória, enquanto o conjunto dos textos forma um caleidoscópio que cria uma visão multicolorida de grande sensibilidade estética dos vários problemas expostos no romance.
Um pequeno livro onde Julian lapida a língua portuguesa e demonstra como ela pode brilhar tanto quanto um diamante e soar com a sonoridade de uma sonata maravilhosa. Uma narrativa temperada pelo amor humano que mostra como a ternura também pode ser uma ferramenta de denúncia das dificuldades da vida e da injustiça política. Gostei muito desta pérola literária e recomendo a sua leitura.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

"Piada Infinita" de David Foster Wallace


Penso que este livro "Piada Infinita", no Brasil "Graça Infinita", do americano David Foster Wallace, foi o  desafio mais difícil de leitura de um romance que enfrentei até hoje e, apesar de tanta dificuldade, gostei de o ler.
Não é tarefa fácil descrever este calhamaço de estilo pós-moderno tendo em conta a complexidade do seu conteúdo, numerosos personagens e quantidade de situações, com a inclusão de informações técnico-científicas enciclopédicas misturadas com paródia, narrativas deprimentes, violentas, sarcásticas e irónicas com uma subtil crítica política e social subjacente, tudo isto narrado num futuro próximo, mas em parte em continuidade com o presente e ainda com uma escrita complexa, por vezes com fluxo de consciência em parágrafos que se arrastam por várias folhas sem ponto final, expostos numa letra miudinha com centenas de notas do autor no final do livro em letra ainda menor e ainda com sub-notas às mesmas num cartapácio com cerca de 1200 páginas. Uuf!!
Contudo, vou tentar resumir este montão de texto.
Num futuro próximo e por questões de interesse estratégico dos Estados Unidos da América (EUA), este forma uma confederação com o Canadá e o México a ONAM (Organization of North America Nations); problemas ambientais graves obrigam ao despovoamento de grande parte do nordeste dos EUA e do sul do Quebec tornando-se esta região num local de depósito de lixos perigosos de grande parte do continente e onde a poluição cria mutações genéticas nos animais geradoras de mitos de monstros. Os quebequenes criam um grupo terrorista separatista da ONAM com heróis que passaram num teste de resistência num jogo de saltar diante de trens em andamento, onde muitos dos sobreviventes ficam mutilados e por isso estão numa Associação de Cadeiras de Rodas (AFR); enquanto isto, os norte-americanos se deixam levar por uma vida de entretenimento e prazer como supremo desejo e ideal, isto é divulgado e promovido pelas novas redes de computadores e de suporte digital e a força do capitalismo cria um calendário oficial baseado num vencedor anual de subsidio à ONAM.
Nesta realidade estranha, um cidadão com um passado complicado funda uma escola de ténis de elite em Boston, de onde os seus estudantes originam muitas personagens tal como a família fundadora de origem mista quebequense e americana. Junto à escola situa-se um centro de reabilitação de toxicodependentes e alcoólicos que constitui outro grupo de personagens e entre ambos circulam estupefacientes em abundância na busca de prazer, enquanto o fundador da escola se tornou num realizador de filmes de culto e criou a obra perfeita para  o prazer "Piada Infinita" que quem vê fica de tal forma extasiado que se torna inválido para outra tarefa humana e para sempre dependente do seu visionamento, enquanto o autor se suicida com uma técnica rebuscada. Entretanto esta fita parece passar a ser distribuída pelos separatistas da AFR como forma de derrotar os EUA e a sua agência de inteligência, com agentes que são uma caricatura hollywoodesca, passam a procurar o filme entre terroristas, toxicodependentes, agentes duplos, triplos, travestis, líderes mafiosos, estudantes, gente de dupla nacionalidade, estropiados por razões várias, etc. Entretanto, há esta amálgama, que mostra uma grande diversidade dos excluídos nos EUA, no mundo da escola disserta-se sobre o ténis e os adolescentes desenvolvem jogos de guerra com recurso às novas tecnologias como estratégia de amadurecer a veia desportista, enquanto ao lado, os alcoólicos anónimos falam sobre reabilitação com memórias e descrições das alucinações efeitos de drogas e do seu submundo, técnicas do seu manuseio e sua produção farmacêutica, tecendo-se uma teia difícil de desatar que cruza, em parte, os dois mundos e uma estória policial louca.
A escrita é tão diversificada quanto as personagens. Há diálogos alucinados com influência do inglês e francês canadiano parodiado, tal como abuso dos estereótipos dos dois povos aqui vivendo no seio da região universitária do MIT, mas onde se concentram os emigrantes portugueses e brasileiros na área de Boston, que também não são poupados. Num repente passa-se a dissertações técnicas sobre drogas e suas sensações e parágrafos densos e extensos com mudanças bruscas no seu interior de momento, lugar e situações. Surgem erros ortográficos, neologismos e pormenores intrincados de ciência com cultura enciclopédica que geram uma paródia que, por vezes, é deprimente, noutras com gírias das classes excluídas da sociedade e descrições deste submundo e com recurso ao calão, descrições fisiológicas degradantes, sarcasmo e ironia que até pode ser ofensivo e aterrorizante.
Foi uma luta para não me perder nesta loucura onde os devaneios dos alucinogénios convivem com a erudição e as culturas dos excluídos, por vezes de modo repetitivo e extenso, pelo que me admira concluir com o seguinte: o livro cativou-me durante um mês e gostei, pois diverti-me imenso.
Apesar de cativado, só o recomendo a quem estiver disposto a um desafio forte e capaz de aceitar que a arte brinque com a crueza de alguns aspetos degradantes da vida e seja capaz de pensar na crítica indireta sobre o caminho que uma sociedade sem valores nos pode levar e não se escandalize com pormenores que satirizam o catolicismo como forma de atingir as religiões, mas que também tem exemplos que uma ternura profunda, capazes de comover os corações empedernidos.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Focos de Tensão" de George Friedman


"Focos de Tensão" de George Friedman, filho de uma família judaica do leste da Europa refugiada nos Estados Unidos, é um ensaio onde o autor, académico, procura evidenciar que a paz na Europa não é um facto definitivo, existindo muitos aspetos em que este continente possui tensões que podem fugir ao controlo dos seus dirigentes, nomeadamente: nacionalismos (o caso da Catalunha nem é lembrado), interesses económicos, receios, crenças e particularidades que são explosivas e cujo um incidente pode levar a guerras.
Assim, após se compreender os caminhos que levaram a Europa a dominar o mundo cultural, política, económica e militarmente, Portugal não é esquecido, este continente, pela sua filosofia e tensões internas, em 3 décadas no século XX tornou-se marginal e desinteressante para as várias potências do século XXI, um mero rico fraco, incapaz de se defender de ameaças de guerra ou de se impor para salvaguardar os seus interesses: um cadinho cujos equilíbrios em que assenta a sua paz, inclusive na União europeia, a qualquer momento pode entrar em rotura. Um ensaio que é uma lição de história e um aviso aos europeus. Li-o em formato ebook, mas existe também a versão em livro de papel.

domingo, 24 de dezembro de 2017

O cerne do Natal está no nascimento de uma Criança - Jesus


A palavra natal vem de nato, nascido; por isso natalidade indica número de nascimentos. Quando em Roma se celebrava o sol de inverno como fonte de vida e a natureza parecia morta os Cristãos aproveitaram a festa para celebrar o Nascimento de Jesus, a quem consideravam a verdadeira Vida e fonte de Luz. Se o Natal lembra esperança e amor é porque associamos estas ideias ao ver um recém-nascido como o Menino Jesus. Votos de um FELIZ NATAL  a todos os leitores de Geocrusoe.
Foto: Pormenor do presépio do  Agrupamento 973 do CNE no exterior do centro de culto de São Mateus na Ribeirinha.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lincoln no Bardo de George Saunders


Sabia que o vencedor do Booker Prize 2017 seria um livro diferente de todos os que já lera e foi a curiosidade que me levou a arriscar a ler "Lincoln no Bardo" de George Saunders, norteamericano, e neste aspeto, após a leitura, assumo a originalidade da estória e da escrita do romance que em nada se assemelha a nenhum outro. Assim, não admira que no início tenha estranhado, mas ao contrário do que por vezes acontece ao continuar a ler, aqui não "entranhei".
A estória arranca com a morte de Willliam (personagem histórica) filho do Presidente Lincoln após este, perante a enfermidade da criança, manter o baile na casa branca por o considerar importante para animar a comunidade da cidade, tensa com a guerra civil que os Estados Unidos então atravessam. Segue-se o funeral e a receção da criança na comunidade dos que já abandonaram esta vida mas resistem em permanecer no cemitério, onde vamos conhecendo o que os mais marcou individualmente enquanto estiveram na terra. Atordoado, William não reconhece a situação em que está, é visitado pelo pai durante a noite, depois há uma luta dos anjos do mal para conquistar os resistentes e o recém-chegado, este não cede ancorado na promessa da volta do Presidente. Assiste-se assim a s estratégias de solidariedade das almas, enquanto vamos descobrindo todos os seus vícios e defeitos privados do passado de que ainda não se libertaram. Assim, durante uma noite, vê-se o esforço coletivo para fazer o bem a alguém recém-chegado por parte de gente que se sabe estar condenada pelo que antes fizera, nalguns casos condutas bastante chocantes, tentando inclusive agir sobre o visitante vivo de forma metafísica.
Passando agora à escrita, novamente se entra numa texto diferente de tudo o que já li, o período respeitante à vida dos Lincoln desde a doença, baile, morte de William e sentimentos do Pai são narradas como uma coletânea de testemunhos, por norma de um parágrafo, cujos autores são referenciados ou como excertos de notícias ou livros de memórias novamente com a origem identificada (mesmo que fictícia), enquanto no além temos como que um texto dramático onde os atores vão referindo as suas partes e construindo uma peça que se assemelha a uma representação macabra cujos intervenientes têm de se recolher ao seu sarcófago com o nascer do sol e  onde cada personagem ou testemunho tem características sintáticas, lexicais e níveis da pessoa em si, o que dá uma mistura de estilos e formas de expressão variada, desde o formal até ao brejeiro, afinal na sociedade tudo isso coexiste como no livro e apesar de mais de 300 páginas a leitura é rápida pelo espaço livre entre textos para teatro.  O livro intercala por vezes capítulos referentes ao período em casa dos Lincoln com outros passados no sobrenatural, montando-se assim o conjunto da obra.
Técnica e imaginação não faltam no romance, se gostei? A minha resposta é não!
Há pontos incoerentes, o autor quis mostrar a ligação de cada um aos seus vícios e hábitos que nem no além se conseguem libertar, não sei se quis condenar indiretamente alguns comportamentos que hoje são aceites ao contrário do passado, além de mostrar a dor íntima de um pai que luta com o dever público e a discrição privada, mas que a obra dá lugar a muitas questões, lá isso permite, como exercício de escrita é uma jóia e talvez seja isso que justifica tão importante prémio.

sábado, 16 de dezembro de 2017

"Homer & Langley" de E. L. Doctorow


O romance "Homer & Langley", do escritor americano E. L. Doctorow, ficciona a vida dos dois personagens reais, os irmãos Collyer cujos nomes dão o título à obra. Estes nascidos na década de 1880, filhos de um casal de classe média alta noviorquina que após a morte dos pais e da cegueira de Homer, já no século XX, foram progressivamente se isolando do exterior e recolhendo-se na sua luxuosa vivenda na 5.ª Avenida de Nova Iorque à custa da confortável herança, tal aconteceu não só por quezílias destes com as autoridades e vizinhos, mas, sobretudo, por Langley com traumas vindos da 1.ª Grande Guerra Mundial ter passado a sofrer de uma desordem psicológica de acumulação compulsiva que o levava a trazer para casa um grande número de bugigangas e todos os jornais publicados na cidade enquanto cuidava do seu irmão que fora pianista de cinema mudo.
O escritor imagina a vida destes dois irmãos narrado pelo cego Homer, sobretudo o quotidiano dentro de casa e as obsessões de Langley. Todavia Doctorow extravasa em muito a vida dos irmãos, uma vez que morreram vítimas da sua situação em 1947, enquanto na obra a sua vida estende-se até à década de 1980, servindo assim de meio para contar o evoluir da sociedade, da tecnologia e a sucessão dos grandes acontecimentos locais e mundiais, até o aparecimento de movimentos juvenis ao longo de quase um século de história dos Estados Unidos.
A biografia ficcionada é contada sempre na primeira pessoa na perspetiva de Homer, incluindo as suas paixões e interpretações do que assistia, até às suas adaptações para compensar a cegueira, passando pela crítica subtil do evoluir da sociedade e ainda o impacte dos novos utensílios que só conhecia por descrição de terceiros e fins a que se destinavam.
A escrita é de uma grande elegância e beleza narrativa, mas sempre com um tom nostálgico de quem gostou de coisas agradáveis da vida, o que confere um enorme prazer de leitura a quem aprecia um bom texto bem escrito que relata 100 anos em apenas 172 páginas. Gostei muito.

domingo, 10 de dezembro de 2017

"Os Milagres do Anticristo" de Selma Lagerlöf


O romance: "Os Milagres do Anticristo", da escritora sueca Selma Lagerlöf, a primeira mulher vencedora de um prémio Nobel da literatura, é uma obra que usa o fantástico tomando lendas e crenças para criar uma sátira e levar a uma reflexão sobre a confusão entre comportamentos sociais, ideologias políticas e fé religiosa.
A partir de uma crença generalizada na Sicília de que o anticristo terá a mesma aparência que Cristo e dum acontecimento que Selma conheceu numas férias naquela ilha, da substituição (à socapa) de uma imagem de altar por outra falsa; a escritora cria uma parábola de reflexão com humor e ironia sobre a confusão da ideia política de socialismo e da mensagem do cristianismo, ambientada à terra siciliana e com recurso aos mitos, religiosidade, disfunções sociais, vícios culturais, sede de justiça e paixões que formam a imagem coletiva do estilo de vida siciliano.
Na colina romana do Capitólio uma sibila profetizou a César Augusto que ali se adoraria Cristo ou o anticristo, mas não o homem fraco. Após a conversão de Roma ali construiu-se a igreja Aracoeli (eu conheço-a e para mim o seu interior é um dos mais belos e ricos da cidade), onde uma imagem de Cristo menino é venerada durante séculos para evitar a adoração do mal, mas no de 1800 uma inglesa ambiciona a sua posse e procede à sua troca, com o embuste descoberto fica com a falsa e viaja por muitos locais onde se operam maravilhas, até ir parar a um altar numa pequena e pobre cidade da Sicília e nesta comunidade esquecida muito muda com o patrocínio de uma devota apaixonada por um revolucionário e o sucesso do povoado é um exemplo para a região do Etna, até que se descobre a verdade das origens da imagem "milagreira" que só agia a favor do interesse mundano.
A escrita é muito fácil e cativante. A forma de explorar mitos e hiperbolizar acontecimentos fantásticos faz parte do estilo desta escritora nórdica, que neste romance deixa os de origem pagã da Escandinávia e pega nos associados às crenças Católicas e denúncia subtil dos defeitos estruturais da sociedade latina, com aproveitamentos religiosos e políticos nas questões de ideologia e fé, No fim a obra dá um grande abanão a quem vai pensando que se emite alguma opinião de fundo sobre religião, mas não deixa de ser mordaz a quem quer aproveitar o cristianismo para fins ideológicos. Como todo o romance que mexe com religião, valores e estilos de vida, o livro pode chocar, mas no fundo é uma excelente reflexão a brincar com a crendice popular e o aproveitamento político e social desta. Gostei muito.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho


Apesar de "Perguntem a Sarah Gross" ser um romance escrito por um português contemporâneo, João Pinto Coelho, a obra nada tem relacionado com Portugal, nem sequer uma referência ao país.
A trama desenrola-se com duas estórias ocorridas em tempos diferentes que se vão alternando na sequência dos capítulos. A mais recente é contada na primeira pessoa pela narradora, esta expõe a sua entrada num colégio de elite no Connecticut fugida do Oregon, as lutas que tem de enfrentar entre o conservadorismo de alguns da instituição na década de 1960, a dificuldade de aceitação de negros no estabelecimento, um problema pessoal que esconde, mas tudo merece a genial proteção da diretora, a mulher exemplar Sarah Gross, da qual ela pouco sabe.
A outra estória percebe-se que tem um narrador distinto, começa no final da I Grande Guerra quando  Henrick Gross, um americano judeu de ascendência polaca, decide alistar-se e contribuir para a independência da Polónia, estabelecer-se na cidade de origem do pai, tornando-se numa importante figura e onde a sua filha Sarah cresce até que a terra é tomada pelos nazis, mudam-lhe o nome para Auschwitz e quase tudo se desmorona, mas a excecionalidade de Sarah floresce. Depois, os dois tramas fundem-se várias décadas depois com suspense, memórias, proteção, dor e se percebe quem contou e quem foi Sarah Gross.
O romance com uma escrita escorreita, e agradável, sem malabarismos de sintaxe ou a seguir as tendências criativas da modernidade, é de fácil leitura, mesmo nas páginas negras do preconceito então reinante nos Estados Unidos ou na descida aos infernos do genocídio judaico. Apesar de recheado de informações históricas, onde os polacos não surgem tão alheios ao antissemitismo, gera suspense na luta de sobrevivência contra a desumanidade enfrentada por Sarah ou nas ameaças sentidas pela narradora e tem um final que em vários aspetos surpreende o leitor. Gostei muito.