segunda-feira, 13 de junho de 2016

Férias: Campânia e Nápoles - na rota dos vulcões

Nápoles com o Vesúvio ao fundo - imagem Wikipédia

Estou de férias e novamente a minha opção de viagens recaiu na Itália, desta vez uma visita ao sul de Itália: Nápoles, a cidade à sombra do vulcão Vesúvio, capital de reino durante séculos, com um património histórico rico e famosa pelo seu ar latino, bairros populares de aspeto decadente e baía aberta ao Mediterrâneo.
Todavia, desta vez  a escolha privilegiou o património natural dos vulcões e dos seus perigos: Vesúvio que ameaça Nápoles e sobretudo pretendo visitar Pompeia, a cidade soterrada por uma erupção no ano 79 DC e hoje um local arqueológico de excelência e Património da Humanidade da Unesco; a cidade de Pozzuoli, situada dentro de uma cratera do supervulcão ativo Campi Flegrei e o conjunto de fumarolas de Solfatara pertença deste mesmo complexo vulcânico.
Se as condições o permitirem uma viagem pela costa Amalfitana da província de Salerno, debruçada sobre o mar Tirreno e também património da humanidade.
À medida que tiver tempo e internet disponível, espero atualizar os posts agendados sobre estes locais.

sábado, 4 de junho de 2016

"Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher" de Stefan Zweig



"Vinte Quatro Hortas da Vida de Uma Mulher", do austríaco Stefan Zweig, é uma pequena novela que evidencia como uma situação, não preparada, nem intencional, pode levar a comportamentos repentinos, socialmente criticáveis e ostracizantes, mas onde uma mente aberta e compreensiva é capaz não só de entender, como até de não deixar afetar o seu relacionamento com que assim age. Há sentimentos por vezes mais fortes que a razão que fomentam a loucura e marcam uma pessoa e, em simultâneo, correspondem até ao ponto mais alto da vida e aquele por qual valeu a pena viver.
Uma escrita muito elegante, tal como o meio social onde o enredo se passa, a trama principal é uma narração em estilo de confidência em primeira pessoa, despoletada por uma crítica social e coscuvilheira sobre o comportamento de uma terceira pessoa. O texto evidencia uma mestria do escritor na  forma de descrever sentimentos e de expor a sua expressão psicológica e física.
Uma novela que se lê muito bem, tanto pela beleza da escrita, como pela elegância com que a história é narrada. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

"Húmus" de Raul Brandão


"Húmus" de Raul Brandão é por muitos considerado como um dos livros mais marcantes e importantes da história da literatura de Portugal. Todavia é uma obra cujo género literário é quase impossível de caracterizar: não é uma obra de ficção, mas parte de um enquadramento e personagens ficcionadas; não é um ensaio filosófico, mas expõe uma sequência de reflexões que são encadeadas filosoficamente e seguindo uma via existencialista; o texto não é poesia, mas é trabalhado como se fosse um poema, embora também não encaixe bem no estilo de poesia em prosa ou de prosa poética; e sem dúvida mostra a genialidade do escritor em saber escrever e tratar a língua Portuguesa na escrita, senti inclusive uma proximidade à forma como Pessoa trabalha as palavras no "Livro do Desassossego".
A partir da descrição de uma pequena vila do interior, triste, insignificante e pacata, bem como do dia-a-dia dos seus habitantes mais idosos que já sentem o ocaso da vida, tristes, amargurados e sem perspetivas mas com passado; o protagonista, que por vezes discute consigo mesmo na figura de Gabiru, sente que a vida foi um engano ao concluir pela inexistência de Deus ou que este não está disponível para o Homem e deduz que foi pela força da morte que se moldaram as opções de vida.
Começa então uma sequência de raciocínios lógicos, amargos e existencialistas que evidenciam como as personagens da vila viveram reféns de regras para salvarem a sua alma e evitarem a morte na eternidade, chegando à velhice frustradas, rancorosas uma forma vã para conquistar a salvação de um Deus que provavelmente não existe ou não vê, nem ouve os gritos de sofrimento da Humanidade para lhe agradar: entre elas a mulher que acolhe a órfã para cumprir o seu dever, educa-a no seu lugar e esta engravida do seu filho; a outra, criada de esfrega com uma filha, que se une aos ladrões e na sua infelicidade cria um mundo fantasioso sobre a situação da sua filha; a moribunda que não quer morrer; até à descrição da inveja e fel que se instala entre os velhos cujo passatempo são as cartas e e se subjugaram a regras hipócritas para se socializarem mas que não vale a pena respeitar sem um Deus que compense esse sacrifício. A influência de Dostoievski torna-se evidente com a mesma conclusão deste: Sem Deus não precisamos de nos limitar nas nossas ações e não há limite para o mal que desejamos fazer.
Após duzentas páginas de revolta, eis que o livro dá uma grande volta e cheio de luz prateada perante uma reviravolta nas conclusões de Gabiru e o húmus que une a morte à vida na sequência do desaparecimento da sua esposa. Uma obra que em termos de escrita é uma jóia, mas muito difícil de se ler e só recomendo a quem gosta desta luta contínua de reflexões e revolta em estilo de ensaio filosófico, mas valeu a pena ler.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

"Teoria Geral do Esquecimento" de José Eduardo Agualusa


O romance "Teoria Geral do Esquecimento" de José Eduardo Agualusa foi finalista do Booker International Prize.
O enredo deste romance baseia-se no caso verídico de uma mulher de origem portuguesa que se isolou do exterior durante cerca de 30 anos no seu apartamento em Luanda desde pouco antes da independência de Angola para fugir à realidade violenta e à mudança política que assistia à sua volta. Agualusa, a partir de escritos de Ludovica, de informações de pessoas que direta ou indiretamente interferiram com ela neste período, inclusive família, assaltantes, vizinhança e uma criança, constrói uma estória que ele diz ser de pura ficção, mas que é em simultâneo divertida, irónica e de crítica à gestão política do País, expondo ainda os problemas sociais e económicos que o povo daquela nação enfrenta, para isto utiliza personagens interessantemente caracterizadas que viveram no exterior do mundo da protagonista em contraponto com o que a mesma observava para fora das paredes onde vivia separada da cidade.
O prémio para que estava nomeado foi um motivo que me fez elevar a perspetiva sobre a envergadura desta obra. Apesar de ter gostado do livro, o romance: "O vendedor de passados", que já li há vários anos, continua a ser o meu preferido de Agualusa.
Contudo assumo que gostei da obra e o romance lê-se muito rapidamente. A escrita está cheia de ironias subliminares que dão um tom divertido a uma realidade que deve ter sido dura para todos, mas sobretudo para Ludovica, uma obra fácil e recomendável a qualquer tipo de leitor.

terça-feira, 24 de maio de 2016

"As vozes do rio Pamano" de Jaume Cabré


"As vozes do rio Pamano" do catalão Jaume Cabré é daqueles livros que não são apenas mais uma obra de ficção, é daqueles romances que pela sua estrutura, narrativa, imaginação, informação histórica e social e qualidade intrínseca enriquecem a literatura como forma de arte.
"As vozes do rio Pamano" - através de uma intrincada exposição de cenas, diálogos e reflexões dos protagonistas, dispostas no livro sem respeitar uma linha cronológica, mas que muitas vezes se entrecruzam, se chocam dentro dos mesmos capítulos, relembram o passado ou vislumbram o futuro - tece uma trama que retrata o continuar do sangrar das feridas abertas com a guerra civil de Espanha durante os quase 80 anos anos que se lhe seguiram tanto durante a ditadura com os golpes oportunistas dos poderosos, seus opositores do momento e vítimas, como penetram a democracia com o aproveitamento e adaptação dos mesmos às novas realidades sociopolíticas, tudo isto com o apadrinhamento da Igreja, ora comprometida com os erros ora vítima dos que sempre sabem dar a volta por cima e manipulado por uma paixão doentia, louca e obsessiva de uma mulher com uma força, genialidade, vícios e ânsia de domínio gigantes mas que agiu como culpada e vítima  na infelicidade do seu amor devido aos conflitos ideológicos em jogo e da qual era peça ativa neste jogo.
Sendo um romance tipicamente da identidade catalã, não é nem nacionalista nem unionista, limita-se a tirar proveito de tudo o que tem entrado em jogo na história da Catalunha pirenaica na fronteira com a França, ora denunciando os interesses da igreja ou das várias partes ideologicamente mais conflituantes no terreno a esquerda e a direita, entrando como personagens secundárias pessoas reais como o Papa João Paulo II e Josemaria Escrivá que serão peças manipuladas num processo para a subida ao altar de um inimigo da igreja, mestre-de-escola, pintor, agente duplo, cobarde e herói, mas, sobretudo, muito amado por uma mulher capaz de tudo.
Para mostrar a baixeza e os vícios privados de poderosos cheios de virtudes públicas, Jaume Cabré recorre por vezes ao calão e à linguagem brejeira da luxúria, todavia a forma natural como é integrado num texto magnificamente trabalhado e numa obra que é em simultâneo um thriller, uma investigação histórica, a descrição dos viveres durante a ditadura e um romance de amor extremo o vocabulário por vezes chocante é plenamente aceitável numa escrita narrativa brilhante e cheia de vida. Um romance magnífico que vale a pena ler apesar de ter mais de 600 páginas.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O Livro de Areia" de Jorge Luis Borges



"O Livro de Areia" do argentino Jorge Luis Borges é composto de 13 contos no estilo fantástico típico do escritor. Os enredos cruzam tempos diferentes dos personagens, narram factos históricos ora reais ora baseados em livros antigos inexistentes, misturam personagens míticas com mundos reais das mais diversas partes do planeta mas privilegiando Argentina, o Uruguais e o norte da Europa, e onde por vezes o livro se torna o centro e é homenageado em bibliotecas representativas do saber mundial.
Este livro é a segunda coletânea de contos de J L Borges que leio, depois de O Aleph, o estilo fantástico, oculto e mágico sobre saberes reais e fictícios e tramas como livros é igual, embora agora já não me tenha surpreendido esta forma muito própria de escrita.
No fim o autor tem um posfácio onde enquadra as diferentes narrativas com base em objetivos pretendidos e esboços tentados entre outros aspetos. Gostei, um livro pequeno que se lê rapidamente, mas que pode surpreender positivamente uns ou desagradar a quem não gostar deste estilo único de narrar histórias de Jorge Luis Borges.

domingo, 8 de maio de 2016

"Mendigos e Altivos" de Albert Cossery


"Mendigos e Altivos" do escritor egípcio Albert Cossery, de expressão francófona e galardoado com o grande prémio da francofonia em 1990, desenrola-se no meio que o autor usa na generalidade das suas obras; os bairros pobres e árabes do Cairo, e, como norma, utiliza a ironia e o sarcasmo, para não só criticar o mundo, como ainda evidenciar a dignidade dos miseráveis, mas cultivando um estilo de permanente humor, mesmo na descrição das situações mais sórdidas em que os seus personagens vivem nas margens do setor europeizado da cidade.
Gohar, um professor universitário e de grande sabedoria cultural, abandonou o seu meio para viver miseravelmente como mendigo e fumador de haxixe no seio do bairro árabe pobre, onde encontra a sua paz no seio de gente excluída, mas que não se deixa enganar pelo sistema, surgem ainda os discípulos das suas ideias e exerce a contabilidade de um bordel. Por impulsão torna-se assassino de uma prostituta e começa então a investigação por um chefe de polícia inquieto, infeliz e pederasta, mas culto, vindo do mundo institucional, desfila então um conjunto de personagens cheias de sabedoria e sobreviventes da injustiça, mais ou menos felizes, mas em paz consigo mesmo que são os amigos e conhecidos do professor que mostram ao chefe do inquérito os valores e as razões do orgulho das suas vidas.
Um excelente romance magnificamente escrito e cheio de bom humor, que mais do que denunciar as injustiças e a desigualdade, mostra o amor próprio e a felicidade que pode alastrar nos excluídos em contraste com um mundo moderno hipócrita, opressivo e infeliz dos integrados na sociedade. Tal como o primeiro livro deste escritor que aqui falei, novamente gostei muito e recomendo a qualquer leitor e Albert Cossery é sem dúvida um autor que merece ser conhecido de todos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

"A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende


"A Casa dos Espíritos" é o romance mais famoso da escritora chilena Isabel Allende, nesta obra, através da história de três gerações da família Trueba, contada a partir da primeira grande guerra mundial, a autora, com recurso ao realismo mágico e a mulheres fortes da família, narra o conflito ideológico esquerda-direita e os principais acontecimentos e a realidade socioeconómica do Chile por mais de 60 anos, culminando no golpe de estado que derrubou Salvador Allende, tio da escritora, e com a descrição dos horrores dos primeiros anos da ditadura de Pinochet.
Isabel Allende escreve agradavelmente bem e o recurso estilístico a acontecimentos sobrenaturais que envolvem a vida da família introduzem uma nota de humor que atravessa toda a obra, enquanto as paixõesn fortes do agregado suavizam os momentos duros relatados no romance devido à luta de classes, temperamentos irascíveis do patriarca Esteban Trueba, em oposição com o original da matriarca Clara dotada de dons especiais de clarividência, contactos com o além e efeitos telecinéticos, tudo isto complementado pelos comportamentos rebeldes ou contrastantes dos filhos e neta que trazem para o lar as principais questões nacionais e as diferentes visões sobre eles.
Apesar da personagem que se estende do início ao fim do romance ser Esteban, são as mulheres as figuras mais fortes da história, sobretudo Clara, esta continuará a influenciar a conduta da família mesmo após decidir abandonar a vida, mulher que dá ternura a todo o romance e permite estabelecer pontes entre ideias que se opõem e inclusive a rendição de Trueba face à sua visão de direita conservadora radical e o extremismo da ditadura militar que se abateu sobre o Chile sem qualquer ideal ideológico e mesmo neste período negro em que o romance termina a esperança não morre. A publicação da obra é anterior ao fim da ditadura no País.
Sem dúvida um grande romance cheio de carácter e apesar das questões políticas subjacentes não deixa de ser uma obra, cheia de ternura e humor, sobre a sobrevivência do amor que resiste seio das contrariedades da vida de uma família e de um povo e de fácil leitura. Recomendo a sua leitura a qualquer leitor.

sábado, 23 de abril de 2016

Dia Mundial do Livro - As leituras preferidas do último ano

Ao longo dos últimos anos este blog tem comemorado o Dia Mundial do Livro com a apresentação de uma seleção das obras que mais me marcaram desde a anterior celebração deste dia comemorativo, considerando várias categorias classificativas, nem sempre precisamente iguais. Estes últimos 12 meses foram férteis no número de obras lidas: 53, só no domínio da ficção que são as abordadas em Geocrusoé, pois outras temáticas são tratadas noutros espaços.
A escolha não foi fácil, até porque nalgumas categorias apetecia-me colocar duas obras ex-aequo, mas no fim resisti e optei sempre por uma e aí vão e sem dúvida que alguns frequentadores de Geocrusoé poderão ser de facto surpreendidos.

Romance Nacional
"A Ilustre Casa de Ramires" de Eça de Queirós


Gostei de vários livros de ficção portuguesa, mas, em termos de envergadura de conteúdo e qualidade literária, para mim dois livros se destacaram, "A alma dos ricos" e "A ilustre casa de Ramires" de Eça de Queirós, como no ano passado já destacara um obra densa de Agustina Bessa-Luís, a escolha recaiu desta vez no outro autor de renome internacional de Portugal.


Romance original em língua estrangeira
"Sombras Queimadas" de Kamile Shamsie


Não foi fácil a escolha, mas por fim recaiu sobre "Sombras Queimadas", uma excelente obra, escrita por uma paquistanesa, um romance que se inicia em Nagasaki no dia da bomba nuclear e estende-se até o pós 11 de setembro de 2001, passando por vários países asiáticos e chega aos EUA, tornando-se num magnífico relato do que foram os maiores conflitos mundiais das últimas décadas e mostra de forma neutral o desentendimento entre o ocidente e o mundo islâmico. Tudo isto narrado de uma forma cheia de ternura e paz, falar pacificamente de guerra penso que só seria mesmo possível com uma protagonista japonesa e foi o que Kamila Shamsie fez. A melhor surpresa da literatura contemporânea deste 12 meses.

Clássicos da literatura ocidental
"Anna Karénina" de Lev Tolstoi



Aqui também houve algumas dúvidas, apesar de Dostoiévski me ter marcado fortemente com duas obras, nos clássicos aquela que considero mais completa, rica de conteúdo dramático, mensagem e qualidade literária foi mesmo "Ana Karénina" de Lev Tolstoi e já é a segunda vez, não consecutiva, que atribuo este lugar a este escritor russo, país com o qual nutro uma grande empatia literária ao nível de obras literárias do século XIX.

Literatura lusófona
"O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo (10/10) -


Confesso que hesitei muito com outra grande obra, mas "O tempo e o Vento" foi selecionado pela sua maior facilidade de leitura cheia de qualidade literária, a sua informação histórica sobre o Rio Grande do Sul e a divulgação da influência dos Açorianos no povoamento e cultura deste Estado do Brasil numa magnífica saga familiar. Sem dúvida que a alternativa em termos de riqueza literária é um monumento ímpar: "Grande Sertão Veredas", de Guimarães Rosa, mas parte do seu valor resulta da transposição do sertanejo para e literatura e esta traz dificuldades de leitura e em termos de divulgação este blogue teve em conta o leitor menos habituado a vencer um leitura difícil pela escrita, mas pela sua importância não podia deixar de o citar nesta alternativa.

Literatura Canadiana
"Murther & Walkings Spirits" de Robertson Davies



Robertson Davies é um dos escritores do Canadá mais importantes do século XX e do qual gostei  de tudo o que li, "Murther & Walking Spirits" talvez não seja a minha obra predileta dele, mas mesmo assim gostei e aprendi algo sobre a história da América do Norte e mostra as raízes imigratórias dos Canada, como foi a única que li nestes meses da ficção canadiana e é interessante foi por isso listada.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Cadernos do Subterrâneo" de Fiódor Dostoiévski


"Cadernos do Subterrâneo" de Fiódor Dostoiévski é uma ficção e reflexão que antecede imediatamente a fase criativa dos principais romances deste genial escritor russo e onde se apresentam várias das suas ideias de fundo tratadas nas obras seguintes: a liberdade de escolha ou livre arbítrio, a degradação humana e a complexidade das relações sociais.
"Cadernos do Subterrâneo" divide-se em duas partes: a primeira é praticamente uma confidência e reflexão filosófica do protagonista que se apresenta como uma pessoa vítima da sua inteligência, onde esta leva-o a isolar-se no seu "subterrâneo", a analisar as suas reações, impedindo-o de ações intempestivas irrefletidas e a justificar as suas opções, mesmo que lhe sejam prejudiciais e alvo de crítica, para assim garantir a sua liberdade de escolha em detrimento do bom-senso que prevalece nas relações sociais do cidadão mediano, inclusive, concluir do próprio prazer que pode tirar da sua situação dolorosa.
Na segunda parte, o mesmo protagonista relata dois acontecimentos exemplos da sua vida, onde o seu modo de agir o levou à humilhação, à degradação e ao isolamento da sociedade em que se encontra há décadas e a encerrar-se no seu "subterrâneo" cheio de ódio e amargura, mas vingado pela sua liberdade.
Toda a obra é densa, abre pistas para personagens que depois surgem noutros romances maiores de Dostoiévski e explica situações extremas narradas nestas, todavia a humilhação do protagonista confere a este grande conto ou pequeno romance uma dureza enorme, cujos limites roçam a loucura. Convém referir que foi escrito num momento em que a sua primeira mulher se sucumbia progressivamente a uma doença que a levou à morte ainda antes da conclusão destes "cadernos", o que, sem dúvida, também serviu de exorcismo da sua dor pessoal. Um livro que gostei, mas só recomendo a quem este ensaio filosófico existencialista na literatura seja assunto de interesse.

sábado, 16 de abril de 2016

"Vieram como andorinhas" de William Maxwell


"Vieram como andorinhas" do escritor norteamericano William Maxwell narra a vida de uma família da classe média alta após o fim da I Grande Guerra Mundial durante a duração da epidemia da gripe espanhola numa pequena localidade do Illinois.
Um pequeno romance ou uma novela dividida em três capítulos, sendo que no primeiro vemos o mundo e as relações familiares pelos olhos de uma criança de oito anos, altamente ligada à mãe, para no segundo se assistir ao evoluir da situação com a entrada da epidemia em casa mas agora pelos olhos de primogénito com 11 anos e novamente com uma relação muito forte com a mãe e uma das tias maternas e uma relacionamento difícil com outros parentes num período de internamento dos pais. No terceiro dá-se o climax com uma mudança brusca dentro do agregado, sobretudo centrada na perspetiva do pai altamente dependente da esposa.
O livro apesar de atravessar um período difícil da humanidade, recordemos que esta epidemia provavelmente matou mais gente que a própria grande guerra que a antecedeu e atacou em todas as frentes, está cheio de ternura, confesso que por vezes recuei à infância tal a verosimilhança com que o escritor descreve o mundo visto pelos olhos dos filhos. No fim fica um elogio à força da mulher como mãe e esposa feito com grande amor. Gostei e recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Nove Histórias" de J. D. Salinger




"Nove Histórias" do escritor norte americano J. D. Salinger, autor do famoso romance aqui apresentado: "A espera no centeio".
"Nove Histórias" é uma coletânea de nove contos que mostram cenas de vida e memórias de pessoas comuns, geniais ou com problemas psicossociais e apesar de escrito há mais de 50 anos, com personagens em cenários desses tempos, tem uma linguagem que se entranha de tal modo no leitor que parece ter sido escrito hoje mesmo, tal a modernidade e contemporaneidade da escrita, esta última talvez por se usar a linguagem banal dos diálogos no texto, mas sem se perder a qualidade intrínseca do aspeto literário. Aliás, é a qualidade de narração o mais surpreendente em histórias e situações igualmente surpreendentes, só isso justifica como certas conversas que parecem ocas nos prendem e despertam motivação de continuar.
Cada história fornece um prazer de leitura servido com conta, peso e ritmo certos para se tornar perfeito.Não sendo um livro que transporta uma mensagem de conteúdo concreta, embora desperte reflexões sobre a vida, cada história leva-nos a olhar cenas de vida e a descobrir os sentimentos das personagens e os seus problemas de uma forma natural, mesmo perante pessoas por vezes bem diferentes do normal. Traumas pessoais, relações familiares difíceis, crianças precoces sobredotadas, carência de relações humanas, hipocrisia ou engano, tudo se mistura nestes contos em doses certas para compor um livro como obra de arte literária.
Algumas personagens curiosamente repetem-se em contos e novelas de outros livros do autor, pelo que o conhecimento mais profundo destas figuras apenas pode ser alcançado com outras leituras, mesmo assim cada história por si está completa, um sinal da mestria deste escritor no domínio do conto
Gostei muito do livro pelo prazer que dá apreciar uma obra assim, tal como dá prazer ver retratos que não são nada mais do isso apenas intrinsecamente muito bem feitos.

sábado, 9 de abril de 2016

"O Sol dos Mortos" de Ivan Chmeliov


"O sol dos mortos" do escritor russo refugiado em França na sequência da revolução soviética Ivan Chmeliov, possui uma forma artisticamente trabalhada e bela de retratar a fealdade da fome após a tomada da Crimeia pelos bolcheviques em virtude de se terem retirado a todos os bens, com destaque os alimentares, inclusive as sementes e os animais, que serviam à manutenção da agricultura no meio rural desta península que penetra no Mar Negro.
Inicia-se no verão, onde os primeiros sinais da seca começam a impedir a alimentação dos animais domésticos e prossegue para o outono e inverno, onde tudo se vai degradando, inclusive os valores morais e as relações sociais de muitos com o crescer da fome, em resultado do facto de apenas aos quase adolescentes do exército vermelho estar assegurado o essencial com todos os seus abusos típicos de uma revolução, enquanto para a população definha pois tudo era classificado por excedente não partilhado e tomado pelos pretensos revolucionários.
Pela fome se pode dominar qualquer povo, como é referido no livro, mas será ainda possível acreditar num Deus e numa ressurreição perante tal deserto de valores? Dostoiévski é lembrado aqui através da dedução do seu romance "Demónios" onde se alerta que sem Deus tudo se torna permitido.
O quadro "Guernica" de Picasso retrata artisticamente pela pintura uma catástrofe desumana. Esta obra "O Sol dos mortos" faz o mesmo pela escrita para outra tragédia. O primeiro mostra uma situação momentânea, este uma calamidade que se anuncia, se instala e afeta culpados, inocentes, adultos e crianças, seres humanos e animais e estes últimos são sem dúvida genialmente utilizados para mostrar o horror que foi aquele período sem descrever diretamente muito do que foi passado pelas pessoas, uma forma de humanizar a descrição do horror.
Uma obra-prima, que sem ser um simples romance de ficção, descreve romanceadamente um acontecimento duríssimo e trágico e as obras de arte não têm de ser suaves para serem belas. Guernica foi por isso aqui colocada como contraponto de um exemplo do género sob outra forma de expressão artística, onde o horror se transformou em arte. Uma obra que deve ser lida não por passatempo, mas como um testemunho histórico de um acontecimento que ensombrou a humanidade.

sábado, 2 de abril de 2016

"O Deus das Pequenas Coisas" Arundhati Roy



O romance "O deus das pequenas coisas" é o único livro de ficção da escritora indiana Arundhati Roy, com uma vasta obra ambientalista, e ganhou logo o Booker Prize de 1997 e foi um grande sucesso editorial ao nível planetário.
A história que envolve o declínio em três gerações de uma família indiana de nível socioeconómico e cultural acima da média, com intervenção científica e industrial, de religião cristã síria e anglófila, no sudeste da Índia, que se vê enredada na sua teia de vícios individuais misturados com preconceitos locais e a tradição de castas, que assim se autodestrói por invejas, paixões, ódios entre si agravada por fatalidades acidentais enquanto procura assimilar a cultura inglesa como forma da identidade e de afirmação numa época de aceso confronto ideológico da guerra fria.
É uma obra intercultural, onde as influências inglesas e indianas se misturam constantemente na história num período de instabilidade no país devido ao confronto ideológico que marca a guerra fria. Na escrita a autora efetua ainda uma integração na linguagem do misticismo hindu, com o racionalismo ocidental, a força do ambiente meteorológico e da biodiversidade do sudoeste da Índia, sobretudo vistos e interpretados pelos olhos de duas crianças gémeas filhas desta aculturação num período onde uma paixão contra as regras estabelecidas faz soltar todos os demónios que estavam atados nesta teia complexa de encontro de civilizações, credos, mentalidades numa Índia pós independência e politicamente a balançar entre uma democracia de mercado livre e a perspetiva marxista. Todos estes mundos e interesses conflituam nesta obra ferindo e destruindo pessoas de uma forma dura, capazes de não perdoar um amor e aproveitar-se de um acidente perante os olhos de duas crianças gémeas alvo de todas estas tensões.
Por ser uma obra que integra várias culturas inclusive no estilo do texto, nomeadamente a indiana bem distante da europeia, no princípio pode-se estranhar, mas depois de se compreender a forma cheia de metáforas e simbolismos, torna-se num belíssimo romance multicultural e cheio de referências à ecologia da Índia que justifica o sucesso do livro.

domingo, 27 de março de 2016

Feliz Páscoa para todos

Ressurreição de El greco

Aproveito esta mensagem para desejar a todos os que por aqui passam os meus votos de Feliz Páscoa.

sexta-feira, 25 de março de 2016

"Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins

O romance "Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins, vencedor do prémio romance/novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2009, decorre durante as operações de salvamento de um cego, o protagonista, e de uma criança, sugados por um esgoto antigo de Lisboa na sequência de uma inundação relâmpago da cidade.
Habitualmente não gosto da escrita de jornalistas que viram a escritores, mas este foi uma exceção, não deixa a sensação de se estar a ler uma reportagem ou um texto demasiado estilizado para disfarçar o tom de redação noticiosa. Gostei da forma como escreve.
Todavia a estória surpreendeu-me, tinha imaginado que esta se desenvolvesse segundo duas linhas possíveis: uma viagem pelo subsolo lisboeta ao estilo de guia subterrâneo de uma Lisboa menos conhecida ou uma narração com a forma diferente de um cego ver o mundo e de este o ver. Afinal no romance existem muitos relatos paralelos da vida das personagens mais importantes da obra, memórias anteriores ao momento em que a ação se desenrola: a operação de busca e resgate. Há dissertações sobre a religião, a vida de santos, os milagres ansiados para a cura da cegueira e até espetáculos de magia e os azares de vida do principal amigo do protagonista, um mágico pouco afortunado. Por vezes salta-se do mundo do ilusionista para o dos milagres, que talvez nem sejam tão distantes assim, mas o certo é que o final da história me surpreendeu e talvez daí resultar uma certa desilusão nas minhas expectativas.
Este é o segundo livro que leio onde a igreja de São Sebastião da Pedreira é o ponto de partida para uma Lisboa subterrânea e onde a ameaça de um terramoto se concretiza sobre a cidade, o outro: "Terramoto" de Vitorio Kali, li-o há mais de 20 anos, fico com alguma suspeita de não ser uma mera coincidência, mas as obras são bem diferentes.
Sobre o romance que agora li, houve passagens de que gostei, outras em que me diverti com a ironia que praticamente é transversal a toda a obra, mas tambén senti aproveitamentos fáceis de abordar crenças religiosas e que se podia ter ido mais além nas vias que esperava encontrar, todavia penso ser uma obra interessante de se ler e cada um depois tirar a sua opinião

segunda-feira, 21 de março de 2016

"Vida após Vida" de Kate Atkinson



"Vida após Vida" da inglesa Kate Atkinson e romance vencedor do prémio Costa 2013, é uma obra excelentemente estruturada, onde no início a protagonista morre no parto em 2010 e imediatamente a mesma cena é reescrita para sobreviver, passando a ser esta a marca da obra. Assim a narração da sua vida irá ora ser recomeçada, ora recuada e alterada sempre que o evoluir da via seguida desemboca num beco, várias vezes inclusive na escuridão final. É como se a narração, magnificamente escrita, seguisse um labirinto onde por vezes se tem de voltar atrás para se avançar por uma nova via diferente sem se ter a certeza se é o caminho definitivo que leva de facto à saída ou se se terá de regressar outra vez ao ao ponto de partida anterior.
Apesar de numerosos avanços, recuos e recomeços, a obra nunca perde interesse e torna-se aliciante ver as variações das mesmas situações que a protagonista cruza nas diferentes alternativas antes contadas, inclusive nas personagens secundárias. Não se está num mundo de universos paralelos, pois estes cruzam-se e deixam memórias que deliciam o leitor ao reconhecer aquilo que já foi referido noutra via ao descobrir as alterações depois introduzidas.
Deste modo contam-se cenas marcantes de metade da história da Europa no século XX, com um enfoque maior para o período da segunda grande guerra, onde nalgumas alternativas os relatos são de grande violência descritiva, outros irónicos ou sarcásticos, época na qual a protagonista não só vai viver na proximidade de Hitler, como nunca sairá da Inglaterra, será vítima do conflito ou até mesmo uma ativista social e sobrevivente até chegar a conhecer a guerra dos seis dias na década de 1960.
Uma obra genialmente escrita, extremamente original e sem dúvida uma obra-prima literária, gostei muito e recomendo a quem gosta de boa literatura como forma de arte de escrever, narrar e até refletir. Pena na realidade não podermos voltar atrás e recomeçar mudando de novo o anterior passado para experimentar um outro presente.