domingo, 27 de março de 2016

Feliz Páscoa para todos

Ressurreição de El greco

Aproveito esta mensagem para desejar a todos os que por aqui passam os meus votos de Feliz Páscoa.

sexta-feira, 25 de março de 2016

"Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins

O romance "Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins, vencedor do prémio romance/novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2009, decorre durante as operações de salvamento de um cego, o protagonista, e de uma criança, sugados por um esgoto antigo de Lisboa na sequência de uma inundação relâmpago da cidade.
Habitualmente não gosto da escrita de jornalistas que viram a escritores, mas este foi uma exceção, não deixa a sensação de se estar a ler uma reportagem ou um texto demasiado estilizado para disfarçar o tom de redação noticiosa. Gostei da forma como escreve.
Todavia a estória surpreendeu-me, tinha imaginado que esta se desenvolvesse segundo duas linhas possíveis: uma viagem pelo subsolo lisboeta ao estilo de guia subterrâneo de uma Lisboa menos conhecida ou uma narração com a forma diferente de um cego ver o mundo e de este o ver. Afinal no romance existem muitos relatos paralelos da vida das personagens mais importantes da obra, memórias anteriores ao momento em que a ação se desenrola: a operação de busca e resgate. Há dissertações sobre a religião, a vida de santos, os milagres ansiados para a cura da cegueira e até espetáculos de magia e os azares de vida do principal amigo do protagonista, um mágico pouco afortunado. Por vezes salta-se do mundo do ilusionista para o dos milagres, que talvez nem sejam tão distantes assim, mas o certo é que o final da história me surpreendeu e talvez daí resultar uma certa desilusão nas minhas expectativas.
Este é o segundo livro que leio onde a igreja de São Sebastião da Pedreira é o ponto de partida para uma Lisboa subterrânea e onde a ameaça de um terramoto se concretiza sobre a cidade, o outro: "Terramoto" de Vitorio Kali, li-o há mais de 20 anos, fico com alguma suspeita de não ser uma mera coincidência, mas as obras são bem diferentes.
Sobre o romance que agora li, houve passagens de que gostei, outras em que me diverti com a ironia que praticamente é transversal a toda a obra, mas tambén senti aproveitamentos fáceis de abordar crenças religiosas e que se podia ter ido mais além nas vias que esperava encontrar, todavia penso ser uma obra interessante de se ler e cada um depois tirar a sua opinião

segunda-feira, 21 de março de 2016

"Vida após Vida" de Kate Atkinson



"Vida após Vida" da inglesa Kate Atkinson e romance vencedor do prémio Costa 2013, é uma obra excelentemente estruturada, onde no início a protagonista morre no parto em 2010 e imediatamente a mesma cena é reescrita para sobreviver, passando a ser esta a marca da obra. Assim a narração da sua vida irá ora ser recomeçada, ora recuada e alterada sempre que o evoluir da via seguida desemboca num beco, várias vezes inclusive na escuridão final. É como se a narração, magnificamente escrita, seguisse um labirinto onde por vezes se tem de voltar atrás para se avançar por uma nova via diferente sem se ter a certeza se é o caminho definitivo que leva de facto à saída ou se se terá de regressar outra vez ao ao ponto de partida anterior.
Apesar de numerosos avanços, recuos e recomeços, a obra nunca perde interesse e torna-se aliciante ver as variações das mesmas situações que a protagonista cruza nas diferentes alternativas antes contadas, inclusive nas personagens secundárias. Não se está num mundo de universos paralelos, pois estes cruzam-se e deixam memórias que deliciam o leitor ao reconhecer aquilo que já foi referido noutra via ao descobrir as alterações depois introduzidas.
Deste modo contam-se cenas marcantes de metade da história da Europa no século XX, com um enfoque maior para o período da segunda grande guerra, onde nalgumas alternativas os relatos são de grande violência descritiva, outros irónicos ou sarcásticos, época na qual a protagonista não só vai viver na proximidade de Hitler, como nunca sairá da Inglaterra, será vítima do conflito ou até mesmo uma ativista social e sobrevivente até chegar a conhecer a guerra dos seis dias na década de 1960.
Uma obra genialmente escrita, extremamente original e sem dúvida uma obra-prima literária, gostei muito e recomendo a quem gosta de boa literatura como forma de arte de escrever, narrar e até refletir. Pena na realidade não podermos voltar atrás e recomeçar mudando de novo o anterior passado para experimentar um outro presente.

sábado, 12 de março de 2016

"Desmobilizados" de Phil Klay


O livro "Desmobilizados" de Phil Klay reúne 13 contos que num jogo de espelhos conseguem denunciar o absurdo da guerra em si, as questões psicológicas dos militares, a sua diversidade de ver a morte, o inimigo, a ética, a moral; questionar ainda a política, a sociedade americana e as razões desta invasão; também mostrar o medo e o vazio da religião perante a dureza do que se passa bem como os aproveitamentos no campo de batalha por muitos iraquianos e norteamericanos, o ridículo por vezes do estatuto do veterano e os traumas com que estes podem ficar para sempre.
Escritos de uma forma realística sem grandes artifícios estilísticos de nível literário, alguns contos possuem a linguagem dura de caserna com todos os tiques de calão e de mentalidade grosseira, machista e de heroicidade oca com que são doutrinados psicologicamente nos treinos, outros usam uma uma narrativa mais introspetiva e moral de quem questiona a ética nesta guerra ou desempenha papeis religiosas na frente de combate. Os contos completam-se e constroem uma visão global do que se pode ver do lado ocidental da segunda guerra no Iraque sem esconder o que foi a destruição da sociedade e cultura no país invadido. 
A obra não julga diretamente esta guerra, mas questiona tudo e de facto constitui um grande livro e um tratado sobre esta guerra que vale a pena ler, apesar de algumas páginas psicologicamente e outras fisicamente muito violentas.
Um livro cujo texto traduzido apresenta alguns falhas que deveriam ser revistas caso haja uma nova edição, mas que pela riqueza do retrato que faz de uma realidade atual justifica o facto do original ter sido uma obra premiada em 2014 e ainda por cima escrita por quem viveu esta guerra por dentro. Gostei muito e embora seja uma obra de guerra, penso que muitos a deviam ler pelas questões e situações com que nos faz confrontar sobre o que ainda se passa neste momento no médio oriente.

domingo, 6 de março de 2016

"Noites Brancas" de Fiódor Dostoiévski


"Noites Brancas" de Dostoievski é mais um conto do que uma novela, uma de muito menor extensão que os seus famosos romances e num estilo romântico muito diferente do realismo a que me habituara neste escritor. Todavia a luta psicológica típica do autor está presente no protagonista que é um sonhador extremo e que vive os os seus sonhos solitariamente.
Apesar das suas escassas 100 páginas, é uma obra tocante, passado no equinócio de verão de São Petersburgo, quando as noites são diminutas e a luz quase sempre presente, por isso denominadas brancas. Apenas quatro noites deste sonhador em que encontra uma mulher que se sente rejeitada da promessa de regresso do seu prometido e se apaixona por ela, mesmo assim  o altruísmo do seu amor o leva a ajudar de forma a ela ser feliz em prejuízo da sua paixão, assim se desenrola um diálogo de um lirismo e despojamento extremo com um final simbólico do amor que se dá plenamente em favor da pessoa amada.
Muito romântico e uma lição de amor, um pequeno livro com uma enorme mensagem sobre o que é amar. Fácil leitura e acessível a qualquer pessoa. Altamente recomendável e um pérola literária.

sábado, 5 de março de 2016

"Murther & Walking Spririts" de Robertson Davies


Um atraso no envio de uma compra de livros levou-me a regressar à minha estante de obras em inglês de autores Canadianos e a optar por um dos escritores mais importantes do Canada da segunda metade do século XX, Robertson Davies, que está entre os que mais admiro e gosto ao nível global, pena estar tão pouco traduzido em Portugal, tendo em conta a sua importância literária reconhecida internacionalmente.
"Murther & Walking Spririts" foge ao estilo mais frequente das obras de Robertson Davies que na generalidade correspondem a romances em ambientes reais que descrevem problemas e tensões concretas de determinados grupos com uma escrita límpida, elegante e fácil, frequentemente cheia de humor e ironia subtil.
O presente romance começa com o assassínio do protagonista por um colega de trabalho, com caráter medíocre, do departamento de cultura de um meio de comunicação social de Toronto, quando este foi surpreendido em flagrante no quarto com a esposa do primeiro. A partir daqui Gilmartin assassinado acompanha com um certo prazer irónico e bom humor a forma como agem os culpados da sua morte e às cenas do seu próprio funeral, sendo depois levado a assistir a um festival de cinema da sua iniciativa, agora sob a orientação do assassino, só que em vez de ver os filmes clássicos históricos exibidos na tela, esta mostra-lhe filmes homónimos onde os protagonistas são seus antepassados desde a independência dos Estados Unidos que se refugiaram no Canada, tanto ingleses fieis ao governo das suas raízes, como descendentes dos holandeses que criaram a colónia que hoje é Nova Iorque, como ainda galeses que mais tarde por dificuldades na sua terra se veem forçados a emigrar para a mesma região do Novo Mundo fiel a Inglaterra.
Assim, este romance desenrola-se numa sequência de histórias independentes de vidas com luta pela sobrevivência numa sociedade difícil que no fim se cruzam em Gilmartin, que apreende não só "lições de vida" a usar na continuação da sua nova "vida", como ainda desemboca no fardo que castigará o seu assassino de uma forma igualmente original.
Robertson Davies, um homem de alta craveira inteletual e cultural, dá-nos nesta obra não só importantes informações sobre as raízes de formação do Canada e de alguns dos povos que estão na origem desta nação multicultural e multirreligiosa, com recurso ao mundo metafísico, sem perder o seu humor habitual e o seu estilo de fácil leitura, um universo literário que infelizmente está vedado a quem apenas lê obras traduzidas em português. Mesmo sem este estar entre os romances meus preferidos deste escritor, gostei e recomendo a quem leia literatura em inglês.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"A Alma dos Ricos" de Agustina Bessa-Luís


"A Alma dos Ricos" de Agustina Bessa-Luís é o segundo livro da trilogia "O Princípio da Incerteza", apesar de ser a primeira obra desta série que eu leio, esta constitui por si só um romance completo e por isso não carece da leitura do anterior para o degustar com prazer.
O romance narra a vida de Alfreda através de várias personagens que viveram próximas dela. A protagonista, filha de uma família rica e tradicional do norte de Portugal, mistura a importância da herança aristocrática com a riqueza burguesa. Uma mulher original que não se comporta como as outras de igual estatuto social, alguém que se descobre estéril, que faz um casamento de conveniência que assume o seu papel de esposa, para quem o sexo não é uma força que a move, mas tem a ambição de ser visitada pela Virgem Maria, pois sente-se mais habilitada para a receber condignamente do que os habituais videntes a quem lhe quer fazer uma perguntas...
Alfreda discute com um mestre de história hebraica e um padre o estatuto social da família de Maria, - cujos indícios a partir de apócrifos e de líderes históricos cabalistas contemporâneos Dela apontariam ter um estatuto social, económico e cultural elevado no tempo de Herodes e haver os sinais que tal origem se refletiria no modo de agir de Jesus. Apesar de se questionarem assuntos da vida das personagens centrais do catolicismo e de por vezes estes serem abordados de uma forma totalmente humana e parecerem roçar heresias na doutrina religiosa, não é uma obra que fira a moral ou o catecismo dos crentes.
Estas dissertações ensaístas no romance não impedem que Agustina faça também uma caracterização da vida social das famílias dominantes de entre Doutro e Minho e as mudanças nestas ao longo do século XX, sobretudo após a revolução de Abril, com uma denúncia dos vícios públicos e privados dos diferentes estratos que coabitam esta região do País. É uma obra que mostra de facto a "alma do norte".
Gostei muito, embora o texto seja de fácil leitura, a densidade de informação, o lento desenrolar da história, o tom introspetivo e a profundidade de alguns temas tornam o romance mais destinado a apreciadores de ensaios e ficção profunda do que a apreciadores de literatura ligeira como um mero passatempo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

"As vinhas da Ira" de John Steinbeck



O romance "As vinhas da Ira" é considerado o principal livro do laureado com o Nobel John Steinbeck e é efetivamente uma obra marcante para quem lê.
"As vinhas da ira" retrata, através da história de uma família despojada da sua propriedade rural no Oklahoma, a histórica desumanidade que foi a emigração forçada de centenas de milhares de agricultores dos estados do sudoeste dos Estados Unidos nas décadas de 1920 e 1930, vítimas da ocorrência em simultâneo de uma grande seca, tempestades de poeira, execução bancária das dívidas agrícolas e da substituição da mão de obra rural pelas máquinas agrícolas.
Steinbeck não se limita a denunciar a ditadura financeira da banca, como causa principal desta emigração de famílias de agricultores, sobretudo a caminho da Califórnia, depois de as fazer passar de pequenos a médios proprietários para indigentes sem nada, sem terrenos e sem condições de trabalho. O escritor aprofunda também a desumanidade que houve no destino da emigração, onde o grande latifundiário californiano levou ao extremo a exploração destas vítimas que, aliciadas por uma propaganda intencionalmente enganosa e interesseira vinda de oeste, ficou refém da ambição dos ricos produtores do vale de São Joaquim onde se criaram novas condições de exploração do homem pelo homem com a colaboração das forças políticas e policiais contra estas já vítimas da injustiça da ditadura financeira, novamente vítimas de um capitalismo económico desenfreado.
O romance alterna pequenos capítulos estilisticamente brilhantes com apresentação do enquadramento geral das várias situações ocorridas na época, com outros mais extensos e escrita mais realista com o dia a dia da família Joads, desde velhos a crianças, com início do despojamento dos seus terrenos no Oklahoma até à suprema exploração na Califórnia, com descrição das condições de vida duríssimas desta gente e da força de algumas personagem para enfrentar tamanha desumanidade e exploração. Uma grande, bela e marcante obra, que por si só é um prémio Nobel merecido. recomendo a todos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"A ilustre casa de Ramires" de Eça de Queirós


"A ilustre casa de Ramires", um livros de Eça de Queirós que comecei a ler com baixas perspetivas, mas que no fim surpreendeu-me pela positiva. O escritor, que sem deixar de ser o habitual e excelente crítico cheio de humor e de ironia  da caracterização nacional, denunciando as reviravoltas interesseiras dos políticos e a mesquinhez que abunda por este País provinciano e mexeriqueiro, consegue mesmo assim acabar por elogiar Portugal.
Um livro onde o protagonista: o herdeiro de uma família milenar, mais antiga que a nacionalidade, cujos antepassados intervieram nos momentos mais importantes da história do País; escreve um romance histórico dentro da obra, e onde Eça aproveita para falar das dificuldades da escrita, dos escritores de coisas banais e da bajulação que se faz à volta de uma obra sem valor.
No romance dentro da obra - que procura o estilo de Herculano, a linguagem e o vocabulário da primeira dinastia e cultivar o orgulho nacional, onde de facto Eça escreve com uma linguagem diferente - há uma cena de violência e vingança chocante, talvez para criticar o heroísmo fanático da idade média do tempo afonsino ou para denunciar os que se deixam impressionar por escritos fortes sobre causas de ética duvidosa e onde a gratuitidade do ato é garantia de sucesso de venda. A verdade é que desconhecia um Eça capaz de descrever tão pormenorizadamente uma cena tão negra, contudo, depois remata toda a obra num espírito luminoso e liberto dos defeitos que amarram este Portugal e de confiança nos valores do protagonista. Uma obra muito trabalhada que recomendo e gostei muito.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

"As confissões de Félix Krull" de Thomas Mann


A obra "As confissões de Félix Krull" corresponde ao livro que Thomas Mann, vencedor de um Nobel da literatura, estava ainda a escrever aos 80 anos quando morreu, embora tenha trabalhado o seu conteúdo desde novo, é contudo um romance incompleto, mesmo assim, já com três centenas de páginas, deixou potencial para vir a ser outra obra deste escritor da dimensão de "A montanha mágica", embora num estilo totalmente diferente.
O romance corresponde às memórias da vida do protagonista, que sempre se sentiu predestinado a alcançar um lugar importante na sociedade, embora nascido de uma família burguesa e pouco exemplar que caiu na ruína quando ainda ele era adolescente. Deste modo, movido pelo seu fascínio e convencimento, dotado de poucos escrúpulos, lá conseguiu passo a passo e sem se desviar dos seus objetivos ocupar o lugar de alguém da nobreza e conhecer o mundo, infelizmente esta viagem global teve apenas uma etapa na obra pela não conclusão desta, mas que curiosamente se passa em Lisboa e ocupa quase um terço do livro.
Mann descreve o povo português e a capital de Portugal de uma forma bem original e diferente do habitual servindo-se de uma personagem sábia residente nesta cidade e que faz lembrar outras figura de grande saber que o escritor criou para dar a conhecer ao leitor mundos da evolução da história e da filosofia noutros grandes romances dele, neste caso Kuckuck é paleontólogo e será por esta via que debitará fascinantes e empoladas informações de antropologia e da biologia, misturada com algum fantasia.
Escrito numa linguagem por vezes irónica, noutras divertida ou sarcástica, o romance está cheio de humor e é com interesse que se lê a geografia e a antropologia de Lisboa e dos portugueses, que se contacta com o rei D Carlos e uma certa crítica social desde a Alemanha, passando por Paris e terminando em Lisboa, infelizmente sem as restantes etapas anunciadas na obra por esse mundo fora e quando Félix ainda era um jovem de 20 anos que se percebe teria chegado à velhice por algumas pistas que vão sendo deixadas no relato feito. Um romance acessível, interessante e que vale a pena ler.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

"O Plano Infinito" de Isabel Allende


O romance "O Plano Infinito" de Isabel Allende, já tem 25 anos, não se integra bem no realismo mágico que então se associava a esta escritora do Chile, embora este esteja presente. Relata a vida difícil, conturbada e por vezes desorientada e amoral do protagonista: Gregory Reeves, filho de imigrantes nos Estados Unidos - um pregador inicialmente ambulante de uma religião por ele inventada (O plano infinito) vindo da Austrália que por doença se fixa num bairro de latinoamericanos pobres da periferia de Los Angeles onde morre deixando-o órfão e a família dependente da ação social e duma russa que o repele - complementado pelos principais episódios de vida daqueles que se cruzaram com ele e foram marcantes na sua viagem da miséria até um posicionamento social médio a alto e fizeram caminhadas diferentes de sobrevivência, uns explorando a superstição e magia, outros o exótico e ainda outros sem nada de destaque ou igualmente esmagados pelas pressões da sociedade.
Por vezes o texto é escrito na terceira pessoa no que se refere à vida do protagonista, da sua família, amigos e inimigos, como também Gregory e as suas experiências, medos, ansiedades, aventuras e desnorte, inclusive no seu relacionamento com as restantes personagens da obra é exposto na primeira pessoa.
Uma vida que começou perto do final da II Grande Guerra e penetra na década de 1980, permitindo assim posicionar Gregory no mundo do racismo contra os latinoamericanos e negros dos anos 50, assistir à revolução social e moral dos anos 60 em Berkeley com o movimento hippie, a contestação política e participação na guerra do Vietname, lugar onde se encontram algumas das páginas mais densas da obra, e entrar na euforia e ganância capitalista dos tempos de Reagan com os choques dos que entretanto se perdem pelo caminho devido à droga, ao sexo e  aos desastres financeiros, bem como os sobreviventes à margem de tudo isto, mostrando a diversidade de estilos de vida na história da América durante quase meio século.
Apenas perto do final é que se faz uma reflexão mais profundo sobre as opções, oportunidades e desperdícios da vida, como um exame de consciência daquilo que fomos e porque o fomos até se encontrar o nosso lugar neste mundo. Uma obra bem escrita e acessível com momentos divertidos, outros deprimentes, mas a vida é assim mesmo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

"Os jardins da memória" de Ohran Pamuk


A trama de "Os Jardins da Memória", do laureado com Nobel Ohran Pamuk (o título original traduzir-se-ia por "O livro negro"), é a investigação levada a cabo pelo protagonista para encontrar a sua mulher e prima, desaparecida voluntariamente, através de uma pesquisa que mergulha nas suas memórias familiares e nas pistas dos textos do cunhado/primo: um cronista famoso cujos escritos se centram na forma de sermos nós próprios, na busca da nossa verdadeira identidade baseado nos saberes esotéricos, místicos e histórias sobre a cidade de Istambul e do povo otomano.
O protagonista vai descobrindo que ele, como todos nós, frequentemente querermos incarnar o nosso ídolo, que somos parte de outros que nos influenciaram e cujas memórias - as flores do jardim do que somos nós próprios - mostram quanto mudamos e quanto o mundo muda nos nossos olhos com essa evolução. Tudo isto numa cidade cuja história sempre foi de transição entre a cultura oriental e ocidental, entre o islamismo e o cristianismo, entre a tradição e o modernismo e sem nunca saber qual a sua real identidade, tal como a Turquia, cuja história é narrada ao estilo de contos da sabedoria oriental.
O romance é interessante e o tema talvez não pudesse encontrar um melhor enquadramento geográfico e cultural que o da cidade de Istambul/Constantinopla/Bizâncio, todavia o livro não é de fácil leitura. Intercalando capítulos que são crónicas publicadas no jornal, enraizadas no saber esotérico e místico, que nos dão pistas para os outros que narram o drama que se vai desenrolando no interior do protagonista e na sua busca para encontrar a sua identidade, a sua esposa e o primo que se esconde, a obra origina um texto denso e cíclico como as ideias fixas sobre o tempo e as memórias em Proust, agravado pelas múltiplas referências culturais e históricas estranhas a um ocidental. Todavia fez-me ficar muito interessado em conhecer Istambul.
Um livro que é bom, mas cuja dificuldade leva a só o recomendar a quem gosta de ler obras que dão luta.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski


"Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski que acabei de ler é considerado uma das obras mais importantes da literatura mundial e de facto pela densidade psicológica, profundidade do tratamento das personagens, reflexões e conteúdo considero que é um dos romances mais marcantes que li até hoje.
A obra não começa com o crime, este só é feito após a exposição da situação de miséria económica do autor, da sua depressão psicológica e da reflexão sobre as condições que este estudante considera para justificar o assassinato. A partir de então começa uma espécie de thriller psicológico onde o próprio protagonista se tortura com a sua angústia da validade dos seus fundamentos, da necessidade de ajudar  outras personagens em dificuldades como compensação do seu ato e a sua discussão com os próprios elementos da justiça com uma argumentação para desviar a acusação, investigadores que lhe dão réplica contra-argumentando precisamente no campo da psicologia com que se debate o criminoso. Teremos então apenas um castigo psicológico autoinfligido que deixa pistas ou a descoberta e julgamento do criminoso?
Em paralelo há um desfilar de personagens, familiares, amigos, conhecidos e estranhos, com as mais diferentes  personalidades no campo da ética, moral e condições sociais, vítimas ou privilegiadas dos do sistema vigente que servem de contraponto no debate a todas as questões de princípio filosófico levantadas pelo estudante, nomeadamente se um crime pode ser um ato de justiça, de heroísmo e se todos estão sujeitos ao cumprimento da Lei.
Uma obra-prima interessantíssima, que pela sua profundidade pode não ser acessível a todos os leitores.Gostei muito.

sábado, 26 de dezembro de 2015

"Flores" de Afonso Cruz

Afonso Cruz caracteriza-se por uma escrita poética e metafórica original com intercalações subtis de referências a situações e factos reais presentes ou históricos, o romance "Flores", segue este estilo cheio de beleza e sentimento deste escritor Português e em ascensão no mundo literário atual.
O protagonista vê a sua vida familiar a desmoronar, em muitos aspetos por culpa própria, e apercebe-se da solidão do seu vizinho velho que perde a memória do seu passado, então numa forma de compensação pessoal tenta reconstituir a vida do idoso que se esqueceu do seu primeiro beijo, da sua paixão e até da sua maldade, assim lentamente vai-se reconstruindo uma vida vivida num presente cheio de incertezas e onde a filha serve de ponte entre a infância e a velhice e de referência do desnorte dos adultos.
Um livro cheio de ternura, onde se observa os desperdícios e erros da vida adulta, o momento onde se destroem oportunidades nascidas ainda em criança, que depois desaproveitadas parecem perdidas no ocaso da vida, mas onde o protagonista tenta ainda recuperar o importante que temperou uma vida e deste modo constrói-se uma obra cheia de sentimento, saudade e mensagens subliminares que serve de lição de vida. Gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL

Imagem daqui

Para todos os leitores, habituais ou ocasionais deste blogue Geocrusoe, quer sejam amantes de livros ou de outras formas de expressão cultural, geólogos ou com outras formações profissionais ou sem elas e diferentes preferências, apresento os meus sinceros votos de que tenham:

UM FELIZ NATAL DE 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

"O adeus às armas" de Ernest Hemingway


Em "O Adeus às armas" Ernest Hemingway, prémio Nobel de 1954, relata o nascimento e a sobrevivência do amor no tempo da I Grande Guerra, tendo como pano de fundo a derrota e posterior retirada italiana perante os austro-húngaros na batalha de Carporetto, a nordeste de Veneza, conflito onde o escritor participou como voluntário americano motorista de ambulâncias e viveu um caso de paixão, à semelhança do protagonista do livro, um oficial voluntário do mesmo País, sendo por isso, uma obra fortemente baseada na sua experiência pessoal.
Neste misto de descrição do conflito real, o seu caso e o poder da paixão ficcionado, Hemingway aproveita, não só para pôr questões sobre a guerra, mas também expor a crueldade desta e ainda fazer uma reflexão à sua renúncia face à superioridade do amor, onde tudo mais passa a secundário.
Escrito sem muitas figuras de estilo, Hemingway utiliza uma linguagem, por vezes quase jornalística, na descrição da paisagem e da guerra, outras vezes, com recurso a diálogos quase ridículos como o serão todas as conversas de apaixonados à semelhança das cartas de amor de Fernando Pessoa, criando assim uma narração ao mesmo tempo encantadora e dura, como só ele é capaz quando fala de conflitos bélicos e dos prazeres da vida, um belíssimo romance que recomendo a qualquer tipo de leitor.