sábado, 26 de dezembro de 2015

"Flores" de Afonso Cruz

Afonso Cruz caracteriza-se por uma escrita poética e metafórica original com intercalações subtis de referências a situações e factos reais presentes ou históricos, o romance "Flores", segue este estilo cheio de beleza e sentimento deste escritor Português e em ascensão no mundo literário atual.
O protagonista vê a sua vida familiar a desmoronar, em muitos aspetos por culpa própria, e apercebe-se da solidão do seu vizinho velho que perde a memória do seu passado, então numa forma de compensação pessoal tenta reconstituir a vida do idoso que se esqueceu do seu primeiro beijo, da sua paixão e até da sua maldade, assim lentamente vai-se reconstruindo uma vida vivida num presente cheio de incertezas e onde a filha serve de ponte entre a infância e a velhice e de referência do desnorte dos adultos.
Um livro cheio de ternura, onde se observa os desperdícios e erros da vida adulta, o momento onde se destroem oportunidades nascidas ainda em criança, que depois desaproveitadas parecem perdidas no ocaso da vida, mas onde o protagonista tenta ainda recuperar o importante que temperou uma vida e deste modo constrói-se uma obra cheia de sentimento, saudade e mensagens subliminares que serve de lição de vida. Gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL

Imagem daqui

Para todos os leitores, habituais ou ocasionais deste blogue Geocrusoe, quer sejam amantes de livros ou de outras formas de expressão cultural, geólogos ou com outras formações profissionais ou sem elas e diferentes preferências, apresento os meus sinceros votos de que tenham:

UM FELIZ NATAL DE 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

"O adeus às armas" de Ernest Hemingway


Em "O Adeus às armas" Ernest Hemingway, prémio Nobel de 1954, relata o nascimento e a sobrevivência do amor no tempo da I Grande Guerra, tendo como pano de fundo a derrota e posterior retirada italiana perante os austro-húngaros na batalha de Carporetto, a nordeste de Veneza, conflito onde o escritor participou como voluntário americano motorista de ambulâncias e viveu um caso de paixão, à semelhança do protagonista do livro, um oficial voluntário do mesmo País, sendo por isso, uma obra fortemente baseada na sua experiência pessoal.
Neste misto de descrição do conflito real, o seu caso e o poder da paixão ficcionado, Hemingway aproveita, não só para pôr questões sobre a guerra, mas também expor a crueldade desta e ainda fazer uma reflexão à sua renúncia face à superioridade do amor, onde tudo mais passa a secundário.
Escrito sem muitas figuras de estilo, Hemingway utiliza uma linguagem, por vezes quase jornalística, na descrição da paisagem e da guerra, outras vezes, com recurso a diálogos quase ridículos como o serão todas as conversas de apaixonados à semelhança das cartas de amor de Fernando Pessoa, criando assim uma narração ao mesmo tempo encantadora e dura, como só ele é capaz quando fala de conflitos bélicos e dos prazeres da vida, um belíssimo romance que recomendo a qualquer tipo de leitor.  

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

"Suite Francesa" de Irène Némirovsky





"Suite Francesa" de Irène Némirovsky é um relato escrito a quente, com dois tempos, o da fuga dos franceses durante conquista de Paris pelos alemães na II Grande Guerra e depois a vida diária num burgo de província durante o domínio alemão até à declaração guerra com a União Soviética.
O romance foi programado para cinco movimentos, mas é uma obra incompleta, pois a própria escritora durante este trabalho estava em fuga como judia, tendo sido depois capturada e morta num campo de concentração, quando lhe faltava ainda escrever os últimos três andamentos desta suite, embora pelas notas anexas no livro se saiba o essencial do que seria a terceira parte, enquanto os últimos dois, como ela própria dá a entender, estivessem ainda no segredo dos deuses, se é que estes já soubessem qual seria o fim da guerra então em curso.
Confesso que nunca lera nenhuma obra assim, não apenas por ser uma maravilha literária pelo ritmo do desenrolar a estória que decorre quase em simultâneo com os acontecimentos históricos narrados, como também pela qualidade da escrita e, sobretudo, pelo retrato que a autora faz do momento da ocupação, onde, em vez da via fácil de demonizar o invasor, mostra os fracos do povo invadido e mesmo assim tal não é feito como um julgamento da França, país que nunca lhe concedera a nacionalidade sendo ela já uma fugitiva da revolução russa.
Mais interessante ainda é que na segunda parte, com a escritora mesmo em fuga aos alemães por ser judia, embora católica, os militares germânicos são tratados como pessoas iguais: têm sentimentos, virtudes e defeitos humanos, sem merecerem nenhum ódio especial.
O livro tem ainda dois prefácios sobre como foi descoberto o manuscrito desta escritorajá no século XXI, que já era de reconhecida no início da guerra por editores europeus, bem como as notas da autora sobre a forma de construção da obra e a correspondência em torno da sua fuga e detenção.
Há obras-primas únicas de grande qualidade e esta é uma delas, o sucesso editorial que está a ocorrer em torno deste livro, mesmo na orgulhosa França assim desnudada, tem toda a razão de ser. Classificação máxima como obra de ficção que procura fazer um verdadeiro retrato da história e curiosamente feito a quente, sem o julgamento dos vencedores ou o complexo dos vencidos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

"Não se paga! Não se paga!" de Dario Fo


Há muito tempo que aqui não falava de teatro, ontem foi dia de ver o grupo amador Faialense "Teatro de Giz" que tem encenado nesta ilha autores de grande reconhecimento internacional, desta vez o laureado com o Nobel da literatura: Dario Fo, com a sua obra "Não se paga! Não se paga!".
Uma paródia sobre uma revolta popular contra os preços, que depois contagia todos, inclusive os mais conservadores e legalistas e até agentes de autoridade. Ocorrem momentos hilariantes, outros menos realistas mas que a brincar levam ao desabafo sobre muitas verdades amargas sentidas por quem tem de sobreviver no dia-a-dia e, em paralelo, há uma crítica à politica da Igreja Católica sobre o controlo da natalidade.
A representação e encenação está muito bem conseguida, envolvendo todo o espaço e vale a pena assistir se vive no Faial e ainda não foi ver, hoje é o último dia. Diverti-me imenso.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

"A Pérola" de John Steinbeck


Não sei se "A Pérola" é um conto ou uma novela, mas sei que é uma excelente fábula do laureado com o Nobel da literatura John Steinbeck, maravilhosamente escrita e procura mostrar que apesar das dificuldades da pobreza, o encontrar de um tesouro desejado pode não ser o fim de todos os problemas e até atrair muitos outros males que estão no coração das pessoas.
A forma de passar a música os sentimentos sentidos pelo pescador de pérolas perante a realidade que sente e vê à sua volta é genial e a escrita é tão bela que várias vezes repeti parágrafos para me deliciar. Um lindo conto ou novela, com uma lição de moral subjacente que recomendo a qualquer tipo de pessoa que goste de ler.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"A Troca" de David Lodge


O romance "A troca" de David Lodge é uma sátira passada no mundo académico que envolve a troca de dois docentes entre duas universidades - uma norteamericana e progressista, a outra inglesa e conservadora - precisamente no período da revolução sexual, da revolta estudantil e da contestação à guerra do Vietname, de onde resultam choques de morais e tradições, não só entre gerações, como também entre culturas e costumes diferentes num período altamente conturbado e de afirmação de liberdades e direitos individuais e de cidadania com reflexos na estabilidade de cada um dos estabelecimentos, nos professores em causa, na gestão da crise estudantil que vai atingir até os núcleos, os valores e os problemas de casamento dos protagonistas neste mundo em mudança e espaços trocados.
Uma escrita cheia de ironias, onde o desenrolar das ações vai levar a situações embaraçosas, hilariantes e incompreensões sobre o modo como cada professor envolvido na troca vê o modo de ser e de agir no País estrangeiro, mas que após a apreensão inicial, prosseguem para um papel interventivo e de novas experiências, não só profissionais, mas também no campo da desinibição dos constrangimentos sentimentais, sociais e de relacionamentos amorosos que toda esta instabilidade gerou que retrata um período da história do século XX onde a mudança radical de costumes foi precedida de exageros até que se estabeleceu um novo equilíbrio aparente. Uma obra que é a primeira de uma trilogia passada no mundo académico. Um romance divertido, satírico e pouco extenso, o que o torna muito fácil de ler.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"O Francoatirador paciente" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O francoatirador paciente", de Arturo Pérez-Reverte, é um thriller que ao longo do seu desenrolar passa de Madrid, para Lisboa, Verona, Roma e vai até Nápoles e leva a reflexões sobre a arte urbana e contemporânea através de um mergulho e exploração do mundo dos autores de graffiti, a sua forma de contestar os defeitos da sociedade atual e, inclusive, de denúncia da subjugação da cultura ao dinheiro e à regulamentação oficial.
Este foi o primeiro livro que li deste escritor espanhol que sei possuir uma obra que varia entre romances de maior profundidade em questões contemporâneas e outros mais ligeiros, penso que o presente se situa num campo intermédio.
Uma escrita contemporânea cheia de gírias do meio dos graffiti, mas agradável e correta. Um thriller cujo suspense não esmaga a força das mensagens que o autor vai semeando no texto. Uma obra fácil , mas sem ser ligeira e recheada de reflexões pertinentes sobre o mundo urbano atual. Uma protagonista homossexual mas nada tem de manifesto sobre o tema ou de preconceito. Uma viagem ao submundo de contestação juvenil, dos gangues e de seitas adolescentes, mas sem ser agressivo ou apoiante da delinquência. Uma crítica ao império do dinheiro sem ser uma oposição barata ao sistema e um final inesperado fazem deste romance uma agradável obra de lazer e aprendizagem de uma realidade pouco conhecida que cobre as paredes das nossas cidades ocidentais.
Sem ser uma obra pretensiosa, gostei e recomendo a qualquer leitor e fiquei interessado em continuar a descobrir mais obras de Arturo Pérez-Reverte. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Decameron ou Decamerão de Giovanni Boccaccio


"Decameron" ou Decamerão, de Giovanni Boccaccio, é uma obra que reúne 100 contos narrados ao longo de 10 dias úteis, por 10 jovens (7 raparigas e 3 rapazes) na sequência da decisão destes em se recolherem num espaço rural para gozar a sua juventude, ouvindo histórias e canções por puro prazer para esquecer a amargura dos tempos que a cidade de Florença vivia em virtude de estar assolada pela peste negra que martirizava a Europa.
Todos os dias um jovem diferente foi coroado rei ou rainha e assume o tema do seu reinado, vão-se então narrando estórias eróticas, de crítica social e à hierarquia da igreja, de infidelidade conjugal, de inteligência feminina ou masculina, de bondade, de amizade que na sua maioria abrigam uma lição de moral.
Tanto a linguagem como os temas abordados têm uma liberdade de expressão que surpreende, desde a ironia subtil, à ligeira brejeirice subentendida, aos ataques mordazes dos pecados do clero e da castidade, mas também se passa por momentos dramáticos de sentimentalismo exacerbado, outros racionais e outros de magia. Assim o livro constrói um ramalhete de lazer nada previsível numa obra da idade média, sendo por isso considerado um marco da literatura para a passagem desta da subserviência religiosa para a esfera profana.
Pela quantidade de contos e sua independência, é possível evitar a saturação intercalando as narrações com pausas para  a leitura de outros livros. Apesar da sua ligeireza e facilidade, poderá chocar algumas mentalidades mais conservadoras que não reconheçam que a brincar se pode fazer importantes denúncias morais, aspeto inclusive assumido por Boccaccio na sua nota final. 

sábado, 7 de novembro de 2015

"Thérèse Desqueyroux" de François Mauriac

"Thérèse Desqueyroux", do francês laureado com o Nobel da literatura em 1952 François Mauriac, baseia-se num caso real em França: uma tentativa de de envenenamento do marido e absolvição da esposa devido ao próprio testemunho da vítima por questões de interesse. Esta obra relata não só a relação no casal após o julgamento, a forma como o marido iniciou a sua vingança e as reflexões introspetivas da esposa sobre o seu passado que a levou ao crime.
O desenrolar da situação, ora com pequenos diálogos, ora contado na terceira pessoa pelo narrador que passa abruptamente por extensas reflexões e descrições feitas na primeira pessoa de Thérèse, por onde esta  se vai conhecendo, compreendendo as razões do seu casamento, pessoais e familiares, a sua visão  do marido e levanta um conjunto de interrogações a si mesmo, que vão desde a sua liberdade, às formas de como com a sua orgulhosa inteligência e cultura se deixou atar numa rede de interesses, aos sentimentos do amor, frustração, descoberta do mundo real e a questão de Deus.
Apesar de momentos tensos e de uma grande violência psicológica, na realidade a obra mostra como os interesses conjugados de ambas as partes foram capazes de chegar a uma solução e como esta gerou um desconforto na sociedade. Uma pequena obra de grande interesse. Gostei.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

"Sangue Sábio" de Flannery O'Connor



"Sangue Sábio" de Flannery O'Connor, que acabei de ler, é um pequeno romance diferente do habitual. Mostra o peso das religiões cristãs no sudeste dos Estados Unidos, tema também presente nos seus livros de contos, um deles li e falei aqui.
Com recurso à linguagem popular das pessoas humildes do Tennessee, situação que é difícil de transpor numa tradução e seguramente perde muito com esta, esta edição não é um bom exemplo de um tradutor, a obra, apesar de conter momentos irónicos e divertidos, não deixa de ser amarga, deprimente e com situações duras, fruto de pressão psicológica causada pelo fanatismo religioso instalado na sociedade, sobretudo evangélico, aspeto brilhantemente trabalhado através da criação do protagonista, um jovem pregador que vindo do serviço militar para se libertar deste peso cria e anuncia a sua "igreja sem Cristo".
Todas as personagens do romance tem uma componente desequilibrada e ou oportunista, tanto crente como descrente, criando situações bizarras e mesmo momentos de violência, apesar de tudo, gostei do retrato apresentado de uma sociedade onde a fé pode ser tão perversa como o racismo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

"Meursault, contra-investigação" de Kamel Daoud


O livro "Meursault, contra-investigação" que acabei de ler, do argelino Kamel Daoud, prémio Goncourt de 2014 é uma reação à famosa novela "O Estrangeiro" de Camus, prémio Nobel de 1957, que reli antes para melhor a compreender.
Para quem não se lembra, ou não sabe, Meursault é o estrangeiro membro da comunidade colonial em Argel e o assassino do árabe na obra de Camus, de cuja vítima nada soubemos na novela, exceto a existência de uma pretensa irmã, pois nem travou conhecimento com o seu criminoso.
Agora Daoud atribui um nome ao árabe: Moussa, uma comunidade de bairro e uma família, curiosamente não tem uma irmã mas sim um irmão: Haroun, situação explicada nesta ficção, e é este familiar mais novo que narra todo o impacte do crime e o seu contexto sociocultural.
Haroun serve-se da narração de "O Estrangeiro" para não só falar do absurdo na novela de Camus, mas também para contrapor o choque de culturas entre o colono e o povo local, a importância da língua francesa no contexto é interessante, e fala-se até da diferença do ocupante matar um anónimo autóctone e o desprezo votado à vítima em contraponto com os assassinatos na luta pela liberdade da Argélia ou na retaliação do irmão.
Harroun narra a sua vida e desenha situações paralelas e opostas sobre as quais reflete e compara com as de "O Estrangeiro". Em ambos os mundos o narrador está desadaptado dos costumes da sua sociedade, ambos matam, ambos são ateus que confrontam o clero, ambos têm uma relação de incompreensão com a mãe e ambos tiveram uma relação amorosa não comprometida. Todavia Camus conta o presente, Daoud faz uma restrospetiva desde as dificuldades dos argelinos ao tempo de Meursault, passa pela esperança da libertação do País e vai até à desilusão no presente, uma realidade quem também convive com o absurdo.
Um livro interessante, também de pequena dimensão, mas cuja qualidade sai diminuída pela comparação com a genialidade intrínseca a uma das obras maiores do século XX. Não obriga a ler "O Estrangeiro" previamente, mas que ajuda a leitura desta, ajuda, e a de Camus é a obra-prima.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"O Estrangeiro" de Albert Camus


Reli "O Estrangeiro" de Albert Camus, prémio Nobel de 1957, obra lida na década de 1980 e que me marcara em profundamente. A nova leitura foi para me relembrar do conteúdo desta novela, uma das mais famosas do século XX, dado que a obra que pretendia ler a seguir retomar um outro lado desta ficção.
O Estrangeiro, uma novela que nem chega a 100 páginas, é o relato na primeira pessoa da vida de um francês de Argel a seguir ao falecimento da sua mãe, onde agiu de acordo com as circunstâncias do momento e sem se preocupar que os seus atos pudessem chocar o senso-comum, ações que após um crime circunstancial vão ser usadas contra ele em julgamento e só então se apercebe da distância que existia entre ele e o mundo.
Albert Camus, que também foi filósofo, nesta obra mostra o seu modo de pensar: só o indivíduo entende bem os seus atos; muitos destes são irrefletidos e só coerentes com o seu sentir. Ao ouvir-se o mundo que nos cerca tomamos consciência como se pode viver desenquadrado com a sociedade e ser-se um estrangeiro na sua terra e exposto às interpretações mais díspares sobre o comportamento que se teve na vida diária.
Escrito numa linguagem muito concisa, simples e direta ao que se quer dizer, apesar de tudo profunda, aliciante e bela, Camus mostra um protagonista perdido na sua terra, cuja vida foi a das sensações do momento e como tal pode conduzir a um absurdo para o mundo. Absurdo que Kafka já explorara, mas aqui a personagem vem a perceber a sociedade, mas esta não vai entender o protagonista e este ao consciencializar-se do desencontro percebe o seu existir ou o seu modo de ser. Apesar de um fundo filosófico, é um livro de leitura muito fácil que maravilha a maioria dos seus leitores e daí o seu sucesso e recomendo a todos a sua leitura

sábado, 24 de outubro de 2015

"Volfrâmio" de Aquilino Ribeiro


Acabei de ler "Volfrâmio" de um dos escritores portugueses mais importantes do século XX, Aquilino Ribeiro, um romance que em simultâneo cumpre vários papeis.
Mostrar o que foi a corrida desenfreada da população ao minério de volfrâmio ou tungsténio durante a segunda guerra mundial no interior de Portugal para o exportar para a Inglaterra ou Alemanha para fabrico de armamento, tendo em conta que este elemento químico aumenta a resistência das ligas metálicas e melhora capacidade explosiva do equipamento bélico, situação que gerou uma loucura generalizada semelhante à da febre do ouro. Esta ânsia de encontrar volframite ou de adquirir terrenos potencialmente detentores deste mineral levou à riqueza de muitos, à desgraça e exploração de outros e a uma luta sem ética nas populações indiferente à mortandade que grassava na Europa.
Destruir o mito romântico de que as pessoas rurais são simples, honestas e honradas ao contrário das urbanas, no seio da província lavram todos os vícios que empestam as cidades: a argúcia maldosa, a mentira, a inveja, a mesquinhice, os grupos de malfeitorias, as traições, o domínio dos mais fortes que infernizam a vida de muitos e onde não falta a violência e o crime neste mundo tido por são e pacífico.
Por fim e não menos importante, Aquilino mostra a diversidade lexical do português das Beiras, da designação dos utensílios da economia rural e recorre ao vocabulário em vias de esquecimento, escrevendo um texto não só magnificamente elaborado e cheio de figuras de estilo com raízes nos falares e provérbios populares, como também com uma riqueza de termos e uma elegância linguística que delicia todos os que apreciam a escrita como forma de arte. Todavia nem sempre é fácil apreender o significado de todas as palavras usadas quer pela abundância, quer pela frequência e proximidade em determinados parágrafo.
Assim, por estes três aspetos estamos perante um romance histórico e uma colectânea da riqueza da língua numa história acessível, uma vezes irónica, outras divertida e com momentos densos e amargos do que foram as dificuldades vividas nas nossas aldeias devido à pobreza das pessoas e à luta entre as virtude e defeitos da população portuguesa, sendo que estes também não são poucos.

sábado, 17 de outubro de 2015

"O outro pé da sereia" de Mia Couto



"O Outro Pé da Sereia" de Mia Couto tem duas histórias ao longo do livro, intercaladas por capítulos que se cruzam no espaço mas estão distanciadas em 440 anos. A mais antiga em 1560 romanceia a vinda de Goa para Moçambique para a região do Zambeze do jesuíta Gonçalo da Silveira, personagem história tida como o primeiro mártir da evangelização portuguesa. A mais recente em 2002 numa aldeia da zona do martírio do missionário que se prepara e recebe um casal de afro-norte-americanos negros de uma ONG interessados em descobrir as feridas deixadas pela escravatura para compensar os descendentes de forma de aliviar a consciência de pertencerem a uma sociedade privilegiada mas onde são ainda alvo de preconceitos.
No relato histórico na linha condutora da narração denuncia-se o contrassenso na evangelização se aproveitar para implementar a exploração e escravatura dos africanos, mostrar a coexistência do cristianismo e das crenças animistas que levam a conversões em sentidos contrários de ambos os lados, pondo a nu o conflito de interesses e o choque de culturas.
A estória que decorre no século XXI, parodia os complexos de culpa e de indemnização dos descendentes africanos em estados ricos, como o aproveitamento de populações negras que exploram a situação e criam casos para justificar apoios e, em paralelo, são usadas memórias e uma imagem de Santa de 1560 e outros dados posteriores como meio de denuncia de injustiças históricas enraizadas em Moçambique e onde muitas vezes foram os seus habitantes os exploradores de si mesmo.
O romance tem duas escritas, a do relato histórico, em estilo de crónica romanceada com um português escorreito e a do romance neste século, onde Mia Couto utiliza a sua técnica de criação de palavras e parafrasear provérbios para construir a sua paródia e cultivar subtilezas irónicas que caracterizam o seu estilo. No conjunto é um romance divertido e triste, onde as feridas do colonialismo e da guerra fraticida brotam como pistas para reflexão e conhecimento dos problemas na sociedade moçambicana atual. Gostei.

sábado, 10 de outubro de 2015

"O tempo e o Vento" de Érico Veríssimo

"O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo, além de ser uma importante obra-prima da literatura brasileira, que estranhamente se encontra esgotada em Portugal, é um romance que nos últimos anos procurei ansiosamente adquirir com dois outros motivos: (1) por relatar a história do povoamento do Estado do Rio Grande do Sul que contou com um importantíssimo contributo de emigrantes dos Açores no século XVIII, Região onde vivo e estão todas as minhas raízes; (2) por Porto Alegre ter-se tornado cidade irmã da Horta e esta ter-se depois geminado com aquela capital do mesmo Estado através de uma votação unânime da Assembleia Municipal da Horta, em que eu participei, e não concebo ter contribuído para este ato sem conhecer a cultura daquela metrópole onde Érico Veríssimo é um dos seus expoentes máximos literários.
Assim após intensa pesquisa só consegui encontrar num alfarrabista da feira do livro de Lisboa um livro antigo, com ortografia anterior a 1973, com os dois primeiros volumes reunidos de "O Tempo e o Vento" que constituem a primeira das três partes desta extensa obra e designada por "O Continente".
"O Tempo e o Vento" é um romance em forma de saga que desenvolve a formação da família Cambará através da fusão de sangue índio, açoriano luso-flamengo, paulista e até de um salteador errante que se torna sedentário por amor. O narrar-se estas origens no século XVIII e o posterior evoluir das várias gerações Cambará serve de meio para dar a conhecer ao leitor as lutas entre Portugal, Espanha e oportunismos ingleses, bem como o papel das Missões jesuíticas, que levam à definição das fronteira meridionais do Brasil com o Uruguai e a Argentina e prosseguir pela criação da província do Continente do Rio Grande de São Pedro, as suas guerras internas e fronteiriças, o estabelecimento da sua população com migrações brasileiras e imigrações açorianas, lusitanas, alemães e italianas, passando pela independência do País e indo até ao início da república federal com a instituição do Estado do Rio Grande do Sul já no fim do século XIX com o seu carácter cultural único, com virtudes e defeitos bem evidenciados na obra, que mistura todas as proveniências do seus habitantes, aproveitamentos políticos, influências religiosas e onde as raízes açorianas merecem um destaque no romance, não só com a Cavalhadas típicas da Ribeira Grande em São Miguel, como a dança da chamarrita tão forte no Faial e Pico e a culinária misturada com os produtos locais.
Érico Veríssimo com uma escrita elaborada que mistura linguagem popular com a escorreita, não expõe de uma forma linear esta saga: a obra começa num momento em que a família Cambará está sitiada no seu ninho histórico quando das lutas entre republicanos e federalistas em 1897 e depois com recuos e avanços em capítulos diferentes constrói toda a história destas gentes com grandes personagens e perfis psicológicos fortíssimos como Pedro Missioneiro, Ana Terra, Rodrigo Cambará, Bibiana Terra Cambará, Licurgo Cambará e Ana Valéria Terra que sem dúvida estão ao nível de outras figuras da literatura mundial. Um magnífico romance que deve ser lido não só pelo povo do Rio Grande do Sul, mas por todos os Brasileiros e Portugueses, sobretudo Açorianos.
Espero ter oportunidade de ler as sequelas desta saga: "O Retrato", e "O Arquipélago" que completam "O Tempo e o Vento" e penetram pelo século XX e onde seguramente a influência Açoriana se deve ir autonomizando e tornando-se cada vez mais Brasileira.