domingo, 29 de junho de 2014

Férias - Holanda: Amesterdão

Imagem wikipedia

Em 2014 volto a uma cidade de canais, isto cerca de um ano depois de visitar Veneza que me fascinou no ano passado, desta vez viajo pelo norte da Europa: Amesterdão na Holanda, a terra que Rembrandt escolheu viver e onde fez grande parte das suas pinturas, a sede do Concertgebouw para dignificar a interpretação da música e onde muitos judeus portugueses se refugiaram dos "pogromes" lusitanos e daí ter nascido Espinosa, isto devido à tolerância cultural e religiosa dos seus habitantes.

Por agora é demasiado cedo para me pronunciar sobre a cidade, primeiro há que explorar os cheiros, as cores, a comida, a arquitetura, os museus, a música e as vivências, mais tarde por aqui penso expor as minhas impressões sobre Amesterdão e ainda circular por outras terras do reino da Holanda: um Estado que ao contrário de Portugal, ao perder o seu império de ultramar e ao ter uma escassa área de terra para os seus habitantes, soube encontrar soluções para manter um elevado nível económico e de bem-estar socioeconómico aos seu povo e até conquistar terras ao mar para alargar o seu território.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bichos de Miguel Torga


Uma série de vários pequenos contos, na sua maioria protagonizados por animais do meio rural português, tanto domésticos como selvagens e que segundo Torga formam uma espécie de arca de Noé... que até entra no último conto.
Com a escrita característica de Torga e os seus regionalismos trasmontanos, no seu conjunto mostram-se não só as vivências rurais das pessoas, como o quotidiano e o destino dos animais de quinta e dos que os cercam, predadores ou não, mas sempre humanizados com sentimentos de heroísmo, ironia, esperteza e por vezes com uma dose de fatalismo previsível.
Leem-se todos os contos facilmente, que formam um conjunto divertido, bucólico e deixam um retrato do que foi um mundo rural e da sua cultura popular já quase extinta.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"Um Homem: Klaus Klump" & "A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares


O livro "Um Homem: Klaus Klump A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares reúne dois romances publicados inicialmente em separado e que correspondem aos dois primeiros volumes da tetralogia "O Reino" passado num país onde as relações humanas são como que mecanizadas, frias e sem o tempero dos sentimentos, não se pode dizer que é um estado totalitário, mas não é um regime saudável.
Em "Um Homem: Klaus Klump" vemos o dia-a-dia deste cidadão quando o seu país entra em guerra, não se sabe se foi invadido ou foi tomado por uma fação, Klump adere à resistência e prossegue as suas relações com amantes, mas abandona uma e é traído pela outra que o entrega à máquina no poder, é preso e consegue fugir. À sua volta contacta com indivíduos que cooperam como máquinas de sobrevivência ou resistem como máquinas de espalhar a morte de onde se destaca uma das mulheres que friamente vive nesta ambiguidade e não só sobrevive como está num elevado patamar social quando a guerra termina.
O mundo e o tempo de Walser é concomitante com o da história de Klaus, existem inclusive algums referências e interligações às personagens do primeiro romance, mas estas nunca são intervenientes diretos no segundo. A complexidade e interligação entre o homem como máquina e a máquina com que o protagonista trabalha, a máquina que faz a guerra, a máquina que morre, a máquina que é amiga ou mata é o mote para a reflexão no mundo de Joseph. A guerra é como que um período de intensificação destas máquinas, mas também pode virar a uma habituação e a guerra então morre por cansaço e indiferença das máquinas humanas, mas será que a sobrevivente está preparada para os desafios dos ataques da máquina humana em tempo de paz?
Gonçalo M. Tavares é para mim um escritor contemporâneo de escrita ímpar, acima de qualquer onda publicitária, vale por si, pela sua criatividade, pela sua frieza de criar relações humanas e sociedades distópicas e deprimente onde cada pormenor é dissecado com uma crueza que dói e maravilha que o lê. Todos os livros que li dele são grandes obras, mesmo quando correspondem a pequenas histórias...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Rosa Brava" de José Manuel Saraiva


Rosa Brava de José Manuel Saraiva é uma biografia romanceada de Leonor Teles, talvez a rainha mais odiada da história de Portugal, com início na sua juventude e prolongando-se até ao seu exílio no final da vida.
O romance ficcionado por um jornalista não deixa de refletir a escrita jornalística, simples mas sem um fulgor de estilo literário de um escritor de ficção, embora se leia bem, sente-se esta singeleza e pobreza ao contar-se a vida de uma das personagens mais polémicas que esteve na base da queda da dinastia de Borgonha, das  guerras fernandinas e da crise do reino que colocou levou ao início da dinastia de Avis.
A obra vale sobretudo pelo relato de uma época turbulenta e dos principais acontecimentos de então e está feita de uma forma fácil de ler, aquecida com o calor de diálogos simples do autor e apimentada, talvez com alguma criatividade, com as paixões despertadas pela beleza e intimidade de Leonor Teles que com ardis, vinganças e rotura de princípios chegou a rainha.
Gostei de recordar e compreender melhor o período e a pessoa em causa...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Orlando - Uma biografia" de Virginia Woolf


"Orlando - uma biografia" é uma das obra de Virginia Woolf mais conhecidas e de maior sucesso.
Conta a vida desta personagem fruto da pesquisa de um suposto biógrafo que chega a comentar os principais acontecimento de Orlando, um pessoa da alta nobreza e rica que nasceu homem no final do século XVI e se transformou de modo fantástico em mulher aos trinta e poucos anos e sobrevive até à data de publicação da obra em 1928.
Orlando anseia escrever a melhor poesia e ao longo da sua extensa vida aperfeiçoa o seu poema, contacta escritores famosos, que considera seres acima dos outros, e é ridicularizado por estes. Procura o amor ideal e ao encontrar a paixão descobre a traição. Entra na diplomacia e sente o vazio do protocolo. Vira a mulher sabendo o que é ser homem e sente as condicionantes sociais do género feminino. Mergulha na sociedade em busca de uma cultura superior e depara-se com a futilidade. Assistiu ao passar de reis e rainhas com quem se cruzou, observou o progresso tecnológico e industrial e alcançou o sucesso literário, de esposa e mãe numa sucessão de eus que são lembrados no fim da obra.
Não deixa de ser um livro estranho, onde o fantástico se cruza com a história da Inglaterra e as evoluções da sociedade. Ora irónico, ora crítico, ora divertido, ora denso e massudo, mas gostei.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Caligrafia dos sonhos" de Juan Marsé


"Caligrafia dos sonhos" do catalão Juan Marsé é uma série de episódios, distribuídos por capítulos, de um adolescente num bairro pobre de Barcelona no final da década de 1940 e contados com uma escrita magnífica que parecem mesmo memórias em forma de sonhos. Estes atravessam os amores, desamores e dificuldades de figuras da rua, passam pelas aventuras de infância à juventude do protagonista com a família e os amigos, o seu despertar para a sexualidade, a sua fértil imaginação e os seus gostos pessoais, entra nos riscos de quem enfrentava o início do franquismo e a marginalidade e vai até à passagem precoce de Ringo na vida adulta.
A forma brilhante que Marsé adota no texto valoriza fortemente a história, algumas personagens femininas são descritas com tal intensidade que fazem lembrar as mulheres dos filmes de Pedro Almodovar, transformando acontecimentos banais de bairro em peças de arte literária. Gostei muito livro e recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"A Voz dos Deuses" de João Aguiar


"A voz dos Deuses" romanceia a liderança de Viriato através das memórias de um filho fictício de uma relação entre um histórico príncipe bracarense exilado em Cineticum (Algarve) com uma nobre fenícia, o qual teria sido próximo deste herói real que está na memória dos Portugueses e na origem da nossa identificação como Lusitanos. 
No livro ficamos a conhecer não só as principais batalhas e feitos de Viriato, como a sua estratégia militar e as grandes dificuldades dos romanos para derrotarem este povo da Hispânia, o que maior resistência lhes ofereceu na península e só conquistado após a traição e morte deste líder guerrilheiro. 
João Aguiar introduz ainda no romance algumas viagens do autor das memórias para assim nos relatar os costumes, as crenças e a diversidade dos povos peninsulares e da guerrilha quando da romanização ibérica.
A escrita em "A voz dos Deuses" de João Aguiar, que foi jornalista e escritor, é simples e despretensiosa e este livro foi não só o seu primeiro romance, como deu início a uma trilogia, que em ficção, em parte baseada em factos reais, cobriu a história do território nacional no tempo da conquista, resistência, consolidação e declínio do poder do império romano na Ibéria. Esta obra deixa já abertura para o romance: "A hora de Sertório", sobre o romano que liderou a resistência lusitana num período em que mais do que a libertação do território este povo desejava sobretudo ser governado com justiça.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

"Nação Crioula" de José Eduardo Agualusa


Escrito em estilo epistolar, o romance baseia-se em alguns factos reais, como o navio negreiro Nação Crioula, intercalados com acontecimentos de ficção.
A obra está estruturada como um conjunto de cartas de Fradique Mendes (personagem fictícia mantida por vários escritores do século XIX em artigos de jornais na sua época em Lisboa) entregues a Eça de Queirós e nas quais se relata a paixão do protagonista por Ana Olímpia (destinatária de várias missivas) e sua vida social em Luanda, se descreve o tipo de relações comerciais entre esta colónia e o Pernambuco no Brasil, bem como as contendas entre escravocratas, abolicionistas, negreiros e tensões para o fim desta exploração de mão de obra por parte de várias nações europeias.
José Eduardo Agualusa aproveita assim para expor numa escrita muito linear e epistolar os dilemas do fim da escravatura, vários preconceitos e desumanidades que modelavam a vivência de Luanda, Brasil, Portugal e perspetivas filosóficas, religiosas e políticas em confronto no império português com as visões e ideias vindas do norte da Europa, bem como alguns aspetos do comportamento dos africanos. O livro lê-se muito bem, gostei muito, tem uma escrita acessível e recomendo a qualquer  tipo de leitor.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Claraboia" de José Saramago

Editorial Caminho

"Claraboia", o segundo romance escrito por José Saramago no início da década de 1950 sob o pseudónimo de Honorato e cuja editora em 1953 nem se dignou a responder nem a publicar, é o único livro do género saído postumamente por opção do autor face à desfeita de só ter sido contactado para a sua publicação quando começou a ter nome na década de 1980, deixou tal a decisão aos seus herdeiros para após a sua morte.
Neste livro a escrita característica de Saramago ainda não nascera: todos os sinais de pontuação estão presentes, não há parágrafos longos e o encadeado de diálogos tem a devida separação. O livro espreita, como por um claraboia para relatar a vivência de seis famílias residentes no mesmo prédio e não sai deste edifício.
Quem leu a obra madura do escritor reconhece na trama as preocupações frequentes do autor, mas sendo uma obra do período da ditadura certas insinuações surgem disfarçadas. Estão já presentes várias das temáticas a serem desenvolvidas mais tarde: a luta de classes aqui disfarçada de assédios amorosos, questões filosóficas a partir do saber da experiência da vida e pelo confronto causa monárquica versus republicana, bem como a questão da identidade e objetivo de vida. No estilo, Saramago já se recorre à ironia introspetiva para denúncia e fazer análise psicossocial muito presente nas suas obras principais.
Não sendo uma obra com a maturidade como outras posteriores, é um romance simples, linear e interessante que se lê bem que já aponta para o Saramago do período Nobel. Gostei.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

"O Dia dos prodígios" de Lídia Jorge


"O Dia dos Prodígios" é o primeiro romance da grande série de obras escritas por Lídia Jorge, uma das autoras contemporâneas nacionais que maior número e diversidade de prémios literários de Portugal e do estrangeiro tem recebido.
Um romance publicado em 1980 que deve ter sido então uma pedrada no charco pela forma de escrita. A narrativa é constituída sobretudo pelo encadear de frases orais, por vezes articuladas, outras como que interrompidas por uma pontuação livre ou ainda com intercalação de afirmações, quase tudo brotando dos diálogos das personagens que convivem numa pequena aldeia isolada do interior do Algarve e onde se descreve, fala e se relata não só factos maravilhosos que ocorrem na terra que parecem pressagiar um grande evento, bem como se comenta a vida alheia. Por vezes a autora divide o texto em colunas, uma menor destinada a comentários e a outra à continuação do texto. Assim, aos poucos e de uma forma nem sempre linear, vai-se montando ao ritmo da pasmaceira do dia a dia o viver de uma pequena comunidade rural vítima da emigração e do esquecimento no final do Estado Novo... até que mais tarde se dá a Revolução do 25 de Abril e o nascer da esperança.
Para muitos o livro retrata de uma forma alegre e livre a mentalidade, os hábitos e os defeitos que caracterizavam o cidadão rural médio de então, o que nem sempre é abonatório: álcool, violência gratuita sobre animais e doméstica e alguma grosseria cruzam-se na montagem de um texto irónico e divertido que já foi adaptado ao teatro, mas é evidente que pertence a um período onde a ameaça da desilusão com libertação alcançada com Abril ainda não ensombrava a sociedade.
Lídia Jorge talvez seja das escritoras mais versáteis na escrita e este livro é bem diferente no estilo de outras obras posteriores de que gostei mais, embora talvez menos originais que é a grande marca desta obra aberta positivamente para o futuro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"O Castelo" de Franz Kafka

Edições Livros do Brasil

É mais fácil ler o romance "O Castelo" de Franz Kafka  do que dissertar sobre ele. A trama está cheia de contrassensos absurdos como num sonho e as peças não se encaixam, nem seguem a ordem natural das coisas. Contudo cada momento é justificado profundamente na discussão das personagens com K, recorrendo a uma engenhosa e extensa argumentação plena de subtileza que desmonta as ideias contrárias em confronto sem dela brotar uma lógica consistente.
Um agrimensor estrangeiro vai ao encontro de uma vaga aberta no condado do castelo, chega à terra e sente uma desconfiança de toda a população e dos funcionários para com ele. É admitido, mas o lugar não abriu por necessidade, só que no sistema burocrático não mais é viável aquele ser cancelado, pois o seu funcionamento bloqueia a correção até por que a sua perfeição inexplicável é um facto e aceite por todos e a lógica dos decisores vem de entidades inacessíveis.
Para quem já leu "O Processo de Kafka verifica que os dois romances seguem rumos opostos para o personagem K. No Castelo este vai ao encontro do poder que não precisa dele mas aceita-o, para logo a seguir se lhe tornar inacessível, K pretende alcançar a remissão dos seus erros de que não foi acusado. Em "O Processo" é a máquina da justiça que vai ao encontro de K, este não sabe que mal cometeu, tenta e não consegue libertar-se da culpa de que o sistema o acusa. As duas obras completam-se na perfeição.
O livro da foto tem um posfácio de Max Brod, amigo de Kafka, a apreciar obra e expondo textos rasurados e não publicados nas versão inicial e póstuma deste romance. A sua apreciação sobre os 2 romances mencionados não se limita a uma visão terrena do conteúdo e crítica política, estende-se a uma perceção teológica e filosófica, análises que enriquecem em muito a interpretação, embora eu não consiga libertar-se da ideia mais terrena daquele absurdo Governo, até que alguns destes são mesmo  pecados da administração pública. Um excelente livro, que pode não ser acessível a todos, mas que serve como denúncia e reflexão ao sistema político em que vivemos.

domingo, 11 de maio de 2014

"Falconer" de John Cheever

Sextante Editora

Acabei de ler "Falconer" de John Cheever. O título corresponde ao nome da prisão aonde Farragut: toxicodependente desde a sua missão militar, pai, marido e professor; vai cumprir pena por fratricídio. A descrição do dia-a-dia no estabelecimento servirá ao protagonista para refletir na sua viva, angústias, família, infância, sexualidade e desenvolver o contacto social e também íntimo com os restantes reclusos bem como conhecer a traição e compreender como é o funcionamento subjacente ao sistema prisional.
Escrito numa linguagem realista e pouco vestida de artificialismos estilísticos, típica da literatura norte-americana, o livro não faz grandes juízos de valor, mas pela exposição expõe e aborda as causas das angústias, os receios do passado complementado com o desejo de liberdade e de remissão do cidadão norte-americano (um número, uma pessoa e uma consciência) na sociedade. Uma obra característica dos anos 1970, a geração onde a droga e o esforço da compreensão do eu numa sociedade em mudança do conservadorismo social para uma liberdade individual foi marcante.
Gostei, apesar do ambiente prisional não é deprimente, embora a vontade de remissão não seja um caminho alegre, contudo não tem a força de outros retratos dos Estados Unidos feitos mais recentemente como Submundo de Dom deLillo e de Liberdade de Franzen já aqui falados, até pela pequena dimensão deste romance não permite maiores aprofundamentos dos temas abordados.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

"Afirma Pereira" de António Tabucchi

Editora Leya

"Afirma Pereira" de António Tabucchi é um romance escrito sob a forma de um depoimento das declarações do jornalista lisboeta Pereira, no momento responsável pela página cultural da publicação para onde trabalha, que relatam a sucessão dos vários acontecimentos que antecederam o despertar da sua consciência, o levaram a sair do seu comodismo cobarde e a tomar uma ação de denúncia numa ditadura em Portugal dominada pela censura e a polícia política, isto num verão contemporâneo da guerra civil de Espanha e num Estado seguidor dos "bons costumes" da religião e subserviente  aos regimes então instalados na Alemanha e na Itália.
Numa linguagem linear, fácil de seguir e com capítulos curtos que descrevem as rotinas do dia-a-dia ou os eventos extraordinários ocorridos, bem como os diálogos e as ações que com Pereira interagiu nesse verão que estiveram na base da transformação da sua personalidade acomodada a um "eu hegemónico" para uma nova consciência ou alma que vai evidenciando o papel da literatura na formação da pessoa humana e no moldar da sociedade.
Uma pequena grande obra muito agradável de se ler que harmoniza o papel da ficção radicada na história com a capacidade da literatura despertar para a reflexão sobre a sociedade e questões de consciência sem se amarrar a campos ideológicos ou prejudicar o prazer associado ao lazer.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nella Maissa - Parabéns pelos 100 anos de vida, das mulheres que mais deu pela música em Portugal


Nella Maissa, pianista, completa hoje 100 anos de vida. Ainda hoje a ouvi com uma lucidez incrível a falar de música e de músicos na rádio, sefardita, nascida em Turim, casa em Portugal para onde veio residir EM 1939 e desde então nunca abandonou o seu trabalho de divulgar os compositores portugueses e de os interpretar, algo que talvez ninguém nascido em terras lusitanas o tenham feito mais intensamente do que ela, vencedora de vários prémios musicais foi agraciada com a medalha de mérito cultural por todo o seu trabalho.

Pelos 100 Anos de Vida e o seu trabalho em prol da música: 
Parabéns Nella Maissa


domingo, 4 de maio de 2014

"A Quinta Essência" de Agustina Bessa-Luís


Terminei a leitura de "A quinta essência", de Agustina Bessa-Luís relativa "a uma forma de criação do nada coisa efémeras que nunca acabam"... "a região do fogo e do amor" e o livro faz isso.
É uma escrita onde não há é espaço de tempo para tanta ideia, informação e pormenor do que Agustina quer introduzir na construção frásica. Cada parágrafo é como um painel de talha dourada de um altar barroco, onde facilmente nos podemos perder tal é a densidade de elementos é um pórtico de Gaudi e dificilmente se apreende tudo à primeira.
O mundo a partir dos olhos de José Carlos, vindo de uma família pretensamente burguesa da região do Porto, uma classe que se habituou às regalias que de repente se torna alvo dos ódios no 25 de Abril, que desestabilizam o status quo e onde cada um encontra artifícios para se adaptar.
Nasce assim um projeto de vingança do protagonista que o leva até Macau... dá-se então a fascinação do que foi a história e o choque do encontro de duas civilizações e duas formas de pensar. Uma pretensa cultura superior vê-se perante outra requintada, profunda, já milenar e avançada e dificilmente compreensível para uns ocidentais com mera vocação comercial e evangelizadora que se instalam na península de Ama Cao. Descobre-se então como uma China que na sua suprema inteligência deixa o território tornar-se num cadinho de trocas de todo os género e mentalidades que salvaguardou uma coexistência e criou teia de relações únicas entre dois mundos.
O livro é uma joia (as pérolas são muito comuns no sul da Ásia e logo desvalorizadas pelas elites orientais) onde se mergulha e se percebe o que foram estes quinhentos anos de Portugueses/Jesuítas por terras do império do meio e os jogos dos chineses, as sujas filosofias, mas onde há o risco de nos perdermos em tal densidade que faz numa obra do tamanho de um volume de "Em busca do tempo perdido", um retrato social e histórico bem maior. Gostei muito, mas o livro nem sempre é fácil.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Memória das minhas putas tristes" - Gabriel García Marquez


"Memória das minhas putas tristes" é o último romance que Gabriel García Marquez escreveu. Um exame de consciência na velhice feito na velhice com uma reflexão sobre se aproveitou a vida. O protagonista no dia dos seus 90 anos decide oferecer a si mais uma noite de sexo com uma mulher jovem, mesmo demasiado nova, e descobre que nunca é tarde para se apaixonar e amar, desde que  o seu corpo e mente o permitam.
Num tom ora com a nostalgia do tempo ido, ora com a amargura do tempo desperdiçado, ora com a ânsia de recuperar ainda o tempo perdido, mas sempre com uma ternura triste temperada com ironia e humor, é uma obra do ocaso da vida de Gabriel García Marquez, sem a pujança e o maravilhoso dos "Cem anos de solidão" ou a paixão do "Amor em tempo de cólera", mas sente-se que lhe sobreviveu o estilo e a vontade de continuar a escrita, contudo chegara a hora de concluir uma carreira brilhante.
Pequeno, agradável, agridoce, divertido, nostálgico e num estilo característico do escritor, é um beijo ou um abraço de despedida de Gabriel Garcia Marquez que sabe bem aos seus admiradores, mas deixa aquele amargo de fim de carreira e aquele prazer de que ainda teve o cuidado de nos dizer a tempo um Adeus.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

23 de abril - Dia Mundial do Livro

Nos últimos anos tornei norma identificar nesta data e neste blogue os livros que mais gostara de ler ao longo dos anteriores 12 meses, talvez seja pretensioso dizer que coincidem com os melhores lidos, pois nisto de qualidade há sempre uns critérios objetivos, mas também outros subjetivos e até alguns subversivos. 
Tenho de assumir que a quantidade de obras lidas foi numerosa neste período e incluiu alguns dos títulos globalmente considerados mais importantes da história da literatura, o que torna a escolha desta vez bem mais complexa, contudo vou fazer um esforço de expor algumas das obras que ficaram no topo das que mais gostei de ler e considerei melhores segundo categorias distintas.

Melhor Livro de ficção nacional
Penso que a literatura contemporânea portuguesa está pujante e com qualidade, embora sofra de elogios promocionais a mais sobre quase tudo o que vai saindo, tornando difícil distinguir o bom trigo do joio valorizado para fins comerciais em benefício das editoras. Todavia, tendo em conta a sua riqueza interna e os 40 anos de liberdade que esta semana comemoramos, a escolha recaiu numa obra que mostra muito dos males da ditadura no passado e muitos dos problemas da terceira idade de hoje e ainda possui um estilo de escrita que embora influenciado não deixa de ter uma dose de originalidade:



Melhor  Livro de ficção de expressão portuguesa
Face à categoria acima apresentada aqui excluo Portugal. O conjunto da literatura lusófona expõe as subtilezas que resultam da diversidade lexical, gramatical e sintática da nossa língua e até as influências geográficas e climáticas que se perdem em traduções (como tornar compreensível ao leitor noutra língua o pormenor da origem da obra em África, Brasil ou Portugal face à posição dos pronomes na frase ou a preferência por cacimba, sereno, rocio, orvalho ou relento ou mesmo a frequência do gerúndio da maioria dos lusofalantes face ao seu uso escasso no norte e centro de Portugal?). No uso da linguagem foi Ondjaki quem mais me surpreendeu com o linguajar de Luanda. Mia Couto cria palavras moçambicanas que chocam ao substituir termos usuais. No Brasil sobrevivem sinónimos arcaicos, alguns que ainda subsistem em nichos rurais e ilhas de Portugal e mostram-se outras regras de criar neologismos... tudo isto justifica a frase de Pessoa "A minha pátria é a língua Portuguesa"... mas a obra literariamente mais original e profunda que li ao longo deste ano, nem sempre fácil, mas que se destacou pela qualidade interna foi:



Melhor Livro de ficção de outra língua original
Procurei aqui não incluir romances já reconhecidos como grandes clássicos da literatura mundial, tendo em conta a última categoria deste artigo e por que tal tenderia a afastar outras grande obras menos famosas. A hesitação rondou "Nostromo" de J Conrad, "O Sino da Islândia" de Laxness, "O Carteiro de Pablo Neruda" de Skarmeta (sem dúvida o mais pequeno e ternurento), ou "A Guerra do Fim do Mundo" de Llosa em grande parte baseado em factos reais e o conjunto de "O Quarteto de Alexandria" de Durrell, mas a escolha foi para uma grande obra recente, por vezes incómoda e desagradável, que reflete muitos dos temores da sociedade atual, denuncia muitos dos seus vícios e está em parte relacionada com a minha vida profissional:
Melhor Livro de ficção canadiana
Esta é uma categoria que resulta do facto de ser cidadão e natural do Canada, confesso contudo que só li um livro deste País ao longo deste ano e pela primeira vez sem ser na língua original, só que também o mesmo corresponde a um título de contos da escritora que foi este ano galardoada com o prémio Nobel da Literatura e como tal não poderia deixar de fora esta oportunidade para mais uma vez homenagear a escritora de quem sou um grande admirador:
Melhor ficção  de clássicos da literatura mundial
Aqui foi talvez o domínio mais complicado de seleção. Só considerei obras com mais de cem anos que recentemente foram reeditadas por serem tidas pelos críticos como grandes obras e continuarem a ser sucessos persistentes no tempo: "O Idiota" e "Os Irmãos Karamzov "de Dostoievsky a baterem-se com Guerra e Paz de Tolstói, romances mais pequenos como "O Monte dos Vendavais" de E Brontë, "História de duas cidades" de Dickens e mesmo originalmente em português por que não mencionar as deliciosas sátiras de "O Conde de Abranhos" e "O Mandarim" de Eça de Queiroz ou o "Dom Casmurro" de Assis, mas no fim penso que globalmente o clássico mais completo deste ano foi mesmo:


Nota: Os títulos "vencedores" estão sempre ligados ao endereço do artigo em que falei sobre a obra.