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domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

domingo, 22 de dezembro de 2019

"A Inocência do Padre Brown" G. K, Chesterton


Estreei-me no escritor inglês G. K. Chesterton com o livro de 12 contos policiais "A Inocência do Padre Brown", todos protagonizados por este sacerdote católico de Inglaterra frequentemente com a ajuda do experiente do ex-ladrão Flambeau que se torna num cidadão honesto por ação do clérigo.
O escritor escreve muito bem e os seus textos são mais cheios de figuras de estilo literário e maior cuidado de escrita que muitas obras do género literário policial. Na narrativa, o Pe. Brown usa intensamente aspetos intuitivos e de apreciação do carácter moral e de tensão religiosa das personagens, o que dá uma originalidade na forma que torna bem distinta esta série detetivesca dos mais habituais romances criminais ingleses do início do século XX. O herói, no seu ar algo simplório de cura católico desintegrado da vida-comum das pessoas, esconde uma grande inteligência e perspicácia psicológica, em parte explicada pelo facto de na sua profissão estar habituado a ouvir o mal humano e se basear em parte na experiência do seu amigo e antigo ladrão.
Todos os contos tem aproximadamente a mesma extensão, cerca de 30 páginas, e a maioria está cheia de humor, são fáceis de ler e por vezes há pormenores implícitos de elogio da virtude ou do reconhecimento da superioridade da crença religiosa face ao ateu, nalguns momentos designado de pagão, o que soa estranho. Há um conto que é exceção, pois é pura especulação em torno da morte de um general herói da história cuja dedução e conclusão não é comprovada e com uma narrativa para mim algo fastidiosa.
Os contos da inocência do padre são os primeiros da série desta personagem, mas estes estendem-se por mais quatro volumes com outras qualificações do cura, por isso aqui surgem ainda histórias de Flambeau como ladrão, onde se inclui uma divertidíssima em que Brown o atrai a uma armadilha, noutra em que o leva a abandonar a atividade e outras onde este já é detetive refugiado. Pelo meio temos histórias com vigários vigaristas das novas religiões de raiz americana, sacerdotes criminosos, velhos príncipes reféns das suas maldades de juventude, maçons em luta contra o catolicismo, inocentação de acusados perante suicidas, jóias roubadas e demonstração de homicídio em caso de suicídio.
Gostei do livro, embora os contos imponham um desenvolvimento rápido da situação logo colada à conclusão e com pouca investigação, além de ter estranhado a valorização da intuição e da crença no herói face à dedução, a normal peça central do género policial.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Antigas e Novas Andanças do Demónio" de Jorge de Sena


Acabei de ler "Antigas e Novas Andanças do Demónio" do português Jorge de Sena, naturalizado brasileiro por fuga à ditadura e depois autoexilado nos Estados Unidos pela mesma razão.
Considerado uma dos maiores escritores de ficção, ensaio e crítico de literatura português de meados do século passado, este livro é uma coletânea de contos publicados em dois editados ao longo da década de 1960 em Portugal: Andanças do Demónio e Novas Andanças do Demónio.
Os diferentes contos têm estilos diferentes, nota-se que Sena experimentou correntes literárias como o neorrealismo, o realismo mágico e o simbolismo, entre outras, e dissertou sobre temas variados: textos com personagens bíblicas e históricas, demência geriátrica e de ideologia ditatorial, solidão, erotismo e paganismo, por onde atravessam males da humanidade ou que a influenciam nesse sentido, ora com humor, ora em retrato negro, toca estilos infantis e também reservado a adultos.
Alguns contos divertem: "A Razão de o Pai Natal ter barbas brancas" onde o menino Jesus narra com inocência infantil e humor como escapou aos ardis do demónio, abre esta série e ouvi-o ainda adolescente. Foi a saudade deste texto que me fez comprar o livro e li-o no mês do centenário do nascimento de Jorge de Sena.
A velha solitária que da janela se excita a espreitar um par de jovens apaixonados com um final surpreendente; o oficial nazi que expõe a sua justificação da supremacia germânica para tolerar abusos sobre homens, mulheres e crianças de outros povos; os últimos dias difíceis, na miséria e doente, de Camões apoiado por sua mãe; e o diálogo do convertido Paulo de Tarso com um chefe da casa de imperadores como Tibério e Nero onde ocorrem atos sádicos por prazer no palácio; são contos que marcam o leitor, não pelo prazer mas pelo choque da crueza do conteúdo.
Os milagres do frade para vencer os salteadores e as embrulhadas genealógicas que o espírito da sua árvore acompanhou através de mortes e reencarnações das gentes da sua aldeia em diferentes animais típica das crenças animistas que além de lições de moral são contos atravessados por humor.
Esta edição têm ainda os prefácios originais dos dois livros originais e notas escritos pelo autor. 
Jorge de Sena escreve muito bem, embora com tendência para parágrafos muito extensos com uma sequência de muitos pormenores, ideias encadeadas e riqueza lexical que exige atenção e esforço para acompanhar a narrativa, por vezes fez-me lembrar Proust, mas sem dúvida é um mestre no domínio da língua portuguesa. Espero voltar a este distinto escritor.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

"Contos Escolhidos" de Maupassant

Há uns anos atrás pediram-me para cooperar num quiosque de venda de livros antigos numa feira para recolha de fundos de uma instituição de proteção de animais. Enquanto exercia a função de voluntário vendedor fui explorando o espólio e entre as obras descobri este "Contos Escolhidos" do francês do século XIX Guy Maupassant, editado em 1966, com folhas já muito amarelas e várias delas ainda por abrir, desconhecendo o autor decidi comprar para um dia o descobrir, e apesar do tempo decorrido posso agora dizer que valeu a pena, tal como os outros usados que então adquiri.
Um conjunto de 26 contos ao estilo realista, na sua maioria pequenos, passados frequentemente no meio rural da Normandia, onde se narra uma ocorrência com gente comum ou onde alguém conta uma memória de algo que com ela se passou ou assistiu e muitas vezes com um final inesperado ou com uma crítica de costumes ou a vícios pessoais.
Escrita fácil acessível e deliciosa de se ler. Gostei muito e um bom indício para mais leituras de contos de Maupasant.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

"As sete mulheres de Barba Azul" de Anatole France

Excerto
"A minha avó dizia que a experiência não serve, na vida, para nada e que permanecemos, no que somos, sempre os mesmos."

O pequeno livro com o conto "As sete mulheres de Barba Azul" do francês Anatole France vencedor do prémio Nobel de 1921. Razão porque despertou curiosidade passar por mais um autor com este galardão.
Neste conto Anatole France inverte o sentido da estória tradicional e em vez de um Barba Azul  mau, sanguinário e assassino em série das suas seis anteriores mulheres, mas descoberto pela curiosidade da sétima, temos aqui um bom e ingénuo nobre que não aprendeu nada com as mulheres que foi tendo e o enganaram sucessivamente e que as foi perdendo por diversas causas inocentemente até à última que lhe prepara a cilada final.
Bem escrito e a narrativa talvez pretenda dizer que a própria humanidade ininterruptamente não se corrige com os seus erros do passado, repetindo-os sem aprender com a história.
O conto pode ferir alguma sensibilidade feminista pelo facto de na trama todas as mulheres serem más, mas penso que não é essa a intenção do escritor e sim a recomendar para as pessoas não cairem sempre nos mesmos erros e não deixa de ser um pequeno e barato livro divertido.

domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Contos de Clarice Lispector


Este livro contém 61 contos daquela que é uma das principais artífices da escrita em língua portuguesa de todos os escritores de expressão lusa no século XX: a brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia. Este conjunto tem contos de extensão variada e só não reúne os que foram publicados pela primeira vez sob o título de obra "Laços de Família", pelo que poderíamos dizer que é uma coletânea de quase todos os contos desta autora.
Os contos não são uniformes em termos de extensão: vão de apenas uma única página até próximo da trintena; as temáticas são diversas, desde questões sociais, infância, problemas da degeneração pela velhice e indo até aos desejos corporais mais básicos; e o estilo de escrita é diversificado, até porque entre os mais antigos e os mais recentes há um espaço temporal de mais de três décadas, contudo todos estão excelentemente escritos, uns numa linguagem linear simples, como "Viagem a Petrópolis", outros com monólogos interiores e fluxo da consciência com técnicas modernistas que requerem um certo esforço para a compreensão da narrativa "Seco estudo de cavalos". Também não posso dizer que gostei de todos igualmente, uns deram-me grande prazer de ler, outros não tanto e alguns até foi com sacrifício que concluí a sua leitura.
Nesta coletânea, os contos estão arrumados e sequenciados de acordo com os livros em que foram inicialmente publicados, ao todo cinco, sendo evidente que a harmonia dentro destes conjuntos é maior que o todo, mas o que mais destaco é a mestria do domínio da escrita e da língua, alguns textos serão morais, outros amorais e até alguns por vezes a roçar o imoral ou a expor os íntimos desejos de uma mulher como os que foram publicados em "A via crucis do corpo", talvez os mais fáceis mas que gostei menos.
Antes apenas lera o romance/novela "A paixão segundo G. H." que adorara, alguns contos retomam o estilo e as obsessões: baratas, cabelos ruivos, náuseas animais e deambulações em torno de pormenores. Esta leitura serviu sobretudo para admirar a genialidade da escrita.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

"Obra Reunida" de Juan Rulfo


Excertos
"Esta aldeia está cheia de ecos. Parece que estão fechados no interior das paredes ou por baixo das pedras. Quando andas, sentes que vão pisando os teus passos. Ouves estalidos. Gargalhadas. Umas gargalhadas já muito velhas, como estivessem cansadas de rir. E vozes já gastas pelo uso."
in Pedro Páramo, novela.

"San Gabriel sai do nevoeiro húmido de orvalho. As nuvens da noite dormiram sobre o povoado procurando o calor das gentes. Agora está para sair o sol e a névoa levanta-se devagar, enrolando o seu lençol, deixando fios brancos em cima dos telhados. Um vapor cinzento, apenas visível, sobe das árvores e da terra molhada atraído pelas nuvens;..."
in "Na madrugada", conto.

"Quem exercia este ofício era Dionisio Pinzón, um dos homens mais pobres de San Miguel del Milagro. Vivia numa casinha do bairro do Arrabal, na companhia da sua mãe, enferma e velha, mais pela miséria do que pelos anos."
in O galo de ouro, novela.

O mexicano Juan Rulfo é considerado o pai do estilo realismo mágico da América Latina e o escritor que segundo Gabriel Garcia Marquez (GGM), mais o terá influenciado. Este livro, além um um preâmbulo de GGM, junta três obras deste escritor: as novelas "Pedro Páramo" e "O Galo de Outro", bem como o conjunto de contos publicados sob o título "A planície em chamas" ou "O Llano em Chamas". No fundo o conjunto da sua produção literária que abandonou a sua criação no auge do seu sucesso.
A primeira novela é de facto surpreendente, narra a vida de Pedro Páramo, o homem forte numa terra rural onde ele põe e dispõe de tudo e de todos, inclusive das mulheres e das vida e propriedade dos homens de forma incólume, entretanto na sua vida há uma paixão marcante que no seu domínio totalitário teve de esperar décadas para ser atendida. A história é contada como memórias e vozes de consciência dos colaboradores, das vítimas e até dos lamentos dos mortos, expostas de forma dispersa, sem uma sequência cronológica nem respeito pela continuidade da trama, misturando situações díspares, o real e o mágico para no fim se completar o quadro num estilo de escrita que é de facto ímpar e literariamente de uma riqueza difícil de explicar.
A seguir seguem-se vários contos pouco extensos e passados na planície semiárida do interior do México, com momentos da guerra dos cristeros, outros de vinganças, outros de amores que dão um ideia do que seria a vida no coração profundo do país e distante dos centros urbanos, normalmente pautado pela pobreza e desolação, só que todos eles são magnificamente escritos.
A última novela conta a vida de um indigente desprezado por todos que de pregoeiro toma conta de um galo de combate derrotado e ferido e o torna num vencedor, então começa a sua peregrinação onde encontra uma mulher cantadeira que lhe dará a sorte e o azar do futuro da sua vida. Novamente o realismo mágico impõe-se associado a uma escrita de um génio.
Gostei do livro e tal como Gabriel Garcia Marquez se deixou maravilhar por Juan Rulfo, vale a pena conhecer esta genialidade, cujas obras se limitam a poucas centenas de páginas brilhantes, felizmente aqui reunidas, embora também existam em separado. Soube-me a pouco o que de facto este mexicano legou à literatura latinoamericana, pena não haver mais obras.primas de Juan Rulfo.

quinta-feira, 1 de março de 2018

"O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa


Citações
"Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente"

"Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, que não admite lei senão a Natureza,... ...por que carga de água é que defende o altruísmo e o sacrifício pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais?"

"O Banqueiro Anarquista" é um dos textos famosos de Fernando, aliás penso que tudo dele é famoso e bom. Assim, após me cruzar com uma divulgação deste texto num blogue, que sigo recentemente, lembrei-me que o folheara poucos dias atrás e decidi conhecer o meu poeta de eleição como contista.
Num jantar de dois amigos, o narrador decide questionar o banqueiro rico sobre dizerem que ele fora anarquista, ao contrário do que a sua profissão e estatuto indicaria. O banqueiro não só confirma o passado, como confessa ainda o ser e de levar esse espírito à prática mais do que os defensores típicos da causa. A partir daqui, o banqueiro irá fundamentar as suas razões, a coerência da sua situação e todo o historial que o levou ao seu sucessos no respeito da ideia que defende.
Fernando Pessoa desenvolve assim, ao longo de várias dezenas de páginas, um conto com uma evolução dialética de forma socrática liderada pelo banqueiro, mas onde ele próprio aponta o que parece incoerente, em seguida refuta e evidencia a lógica do seu raciocínio, que depois o amigo narra.
Um texto filosófico, inteligente que se torna divertido com as ironias e críticas subliminares aos defeitos e vícios da sociedade que então se confrontava entre a mentalidade burguesa, o marxismo e a terceira via do anarquismo.
Bem escrito, argumentado e uma pérola que recomendo a todos os leitores que gostem de debates inteligentes e de bom humor. Adorei.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

"Os Navios da Noite" de João de Melo

Citações
"O pior de todos os cegos  será sempre aquele que, podendo olhar a luz e a beleza encantada do dia, só quer ver a noite do mundo, o fundo escuro das águas, os abismos invisíveis do mar."

"Não existe nenhum tempo fora daquele que vivemos; nem um destino diferente do nosso."

Já há várias décadas que não regressava a João de Melo, talvez o escritor açoriano vivo de maior projeção literária. Antes, lera-o em magníficos romances de seu quase início de carreira e, agora, voltei a ele num outro género em que ele muito publicou: contos; com um livro recente já em estado adiantado do seu longo currículo literário "Os Navios da Noite".
O livro contém 18 contos, metade não muito curtos, onde a memória de acontecimentos sofridos pelos protagonistas das histórias deixaram memórias e marcas como navios.
Há muito que não lia João de Melo, notei, pelo menos em relação entre as obras lidas, uma evolução na escrita, agora parece-me mais simples e realista, antes sentia uma auréola barroca e rebuscada de que não desgostava, mas são ambas elegantes e poéticas.
João de Melo nalguns destes navios aparece desiludido com Portugal e os Portugueses, é quase um misantropo nacional, provavelmente fruto da crise que o País atravessava quando a escrita da obra escrita, embora o conto da prisão do Governo e Presidente por venda do País em prejuízo do Povo tenha ironia inteligente e bom humor.
Noutros contos há ternura ou amargura em tom de reflexão individual, nestes, por vezes, parece existir um desequilíbrio entre a dimensão da narrativa, o tempo para o seu desenvolvimento e o despertar do interesse para o seu conteúdo.
Assim, houve contos que gostei, como o do cego na minha ilha do Faial, o das reflexões sobre o Génio de Aladino, os de ternura familiar e o do regresso de Eça de Queirós a Lisboa, embora a mordacidade dele surja mais amarga em João de Melo do que no do século XIX, mas de outros contos que gostei menos e até houve alguns que até me desagradaram. Valeu pela visita ao autor por ter ficado a curiosidade de verificar como envelheceu nos romances mais recentes e compará-lo com um dos primeiros reeditado e reescrito que me falta ler.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Ficção Curta Completa de H. G. Wells - Volume I


Citações
"Nas novas condições de conforto e segurança perfeitos, aquela energia inquieta, que em nós é força, tornar-se-ia fraqueza."
"Onde não há mudança, nem necessidade de mudar, não há inteligência."

Este livro, além de conter a famosa obra "A Máquina do Tempo", tem ainda uma coletânea de 34 contos de H. G. Wells um inglês e um dos pais da ficção científica do final do século XIX até meados do XX.
Sem dúvida que o texto mais marcante do livro é: "A Máquina do Tempo", um cientista destemido não só a cria, como viaja e depois vem relatar a sua experiência com uma civilização distante, sucessora da nossa e muito diferente. Apesar da estória ter como base a viagem temporal, podendo classificar-se de ficção científica, a obra é, essencialmente, uma reflexão sobre os males da estratificação social, a degradação das condições laborais dos mais fracos e a degeneração associada ao bem-estar de outros à custa dos desfavorecidos, o que pode levar a reversões e a degradações perigosas em todos. Tem subjacente ideias políticas e sociais, mesmo que expostas de forma inteligente e transportadas para um mundo distópico à distância de centenas de milhares de anos, aproxima-se mais do género de Thomas More em "A Utopia" uns séculos antes, do que uma ficção científica de entretenimento.
Os restantes contos são de vários géneros e virados ao lazer: há os de divulgação científica, com incidentes e especulações mais ou menos fantásticas que caracterizam muito bem as mentalidades e a evolução da investigação em ciência na Inglaterra no final do século XIX e lembram Jules Verne; há os do género gótico, mais livres na imaginação que jogam com medos como Allan Poe; e há ainda outros mais sociais e críticos que podem ter influência de Tchekov, ou ser originais no estilo e de mensagens várias.
A escrita é muito fácil, escorreita e elegante com figuras de estilo quanto baste e recorre ao saber científico transposto para a divulgação ficcional. Torna-se evidente que Wells não só estava a par dos avanços científicos, mas também refletia sobre a ciência, criando fundamentos que seguem a forma de investigação séria, ler o modo como ele fala do espaço e do tempo em "A máquina do tempo", sabendo que a obra é anterior à teoria da relatividade, leva a supor que até Einstein se influenciou por ele na sua investigação e isto mostra que teria uma inteligência, além de cultura, excecional.
Gostei muito e fico agora à espera da saída do segundo volume deste escritor mais conhecido pela Guerra dos Mundos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" de Robert Louis Stevenson


O livro "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" do escocês Robert Louis Stevenson que acabei de ler é uma edição com três contos, onde o que dá nome ao livro tem a dimensão quase de uma novela e é talvez a obra mais famosa do autor. A capa no post é diferente da que li, pois a publicação que tenho não está à venda, mas a capa mostras contém precisamente à mesma coletânea.
Todas as histórias entram no domínio do gótico ou temas que exploram a aproximação de mortos, situações de quase terror, embora nestes relatos pareçam envolvidas pelo saber científico numa Inglaterra vitoriana. A primeira: "O furta-defuntos", baseia-se no problema ocorrido no Reino Unido no século XIX da comercialização ilegal de cadáveres para investigação médica, neste caso, além de encobrimento dos crimes, especula-se uma situação arrepiante que os traficantes terão enfrentado.
No segundo, "Olalla", um soldado ferido é acolhido numa família de montanha para recuperação, onde os anfitriões com um passado nobre sofreram degenerescência ao longo de séculos pelo mal que terão feito e o amor do hóspede por uma jovem fica refém dessa maldição. Uma forma regressiva de trazer para a literatura a teoria de evolução de Darwin, então tentar vencer na opinião pública.
A última história: "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde", que dá o nome ao livro, é uma referência na literatura, clássico do género gótico. Dr. Jekyll, um homem exemplar e benemérito, surge associado a um Sr. Hyde que além de assustar pela sua falta de humanidade, pratica um crime hediondo e parece protegido do doutor, sem se saber que motivações obscuras dão ascendente do execrável personagem ao bondoso doutor. Após se pensar estar numa situação de chantagem, descobre-se a explicação final que envolve a luta permanente entre o bem e mal no ser humano, as cedências a este e a curiosidade do cientista quando despreza a ética. Um magnífico conto que vai muito além de uma história de ficção, entrando sim no campo das reflexões sobre o comportamento das pessoas perante os desafios e as escolhas morais e éticas.
Uma escrita com parágrafos extensos característica das narrativas daquele período, com magníficas metáforas e outras figuras de estilo que deliciam o leitor. Gostei sobretudo do último conto: magnífico.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado de Stefan Zweig


Acabei de ler os dois contos O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado, publicados no mesmo livro, de Stefan Zweig, um escritor de origem austríaca, mas que passou os seus últimos dias no Brasil.
O primeiro conto de algumas dezenas de páginas é relativo à vida de um alfarrabista (sebo): Mendel, que era capaz de se isolar do mundo para viver apenas para os seus livros, que fazia a sua vida profissional centrada num café barulhento sem se aperceber do que se passava à sua volta, inclusive este alheamento levou-o a cometer infantilidades em momento de guerra só compreensíveis a quem ama os seus alfarrábio mais que tudo. É uma estória lindíssima. Uma narrativa que vale não só pela forma de escrita, cheia de adjetivos, poesia e beleza , mas também por ser uma grande homenagem a este grupo de pessoas capaz de encontrar pérolas para os bibliófilos, mas vistos muitas vezes apenas como uns comerciantes de obras usadas, quando podem ser os maiores peritos no tema com que nos cruzamos.
O segundo conto, também de dezenas de páginas "A viagem ao passado", que praticamente termina com dois versos de Verlaine, é um puro Zweig, onde as paixões extremadas são exploradas como tema, as quais se confrontam com situações que levam a uma mudança brusca e à tomada de atitudes que no futuro levarão a um outro choque e possíveis remorsos sobre o passado. Neste caso um amor que a carreira e a guerra separou, mas depois dá-se o reencontro quando já tudo é diferente desse tempo anterior.
Gostei muito dos dois, mas o primeiro marca qualquer bibliófilo a que acresce a beleza da escrita e o valor da homenagem efetuada. Recomendo a todos que gostam de beleza literária em ficções curtas.

sábado, 10 de dezembro de 2016

AMOK de Stefan Zweig


Acabei de ler o livro "Amok" do austríaco Stefan Zweig, pela sua dimensão e estrutura, 74 páginas, poderá ser qualificado como um conto.
A história refere-se a uma confidência feita numa viagem de paquete entre a Índia e a Inglaterra por um passageiro amargurado e isolado que o narrador encontrou numa hora avançada da noite e relativa ao comportamento que ele tivera como médico perante uma mulher de sociedade que o procurara numa terra colonial onde exercia a sua profissão numa aldeia afastada para este lhe prestar um serviço que ele entende não ter sido solicitado de modo adequado face à força que emana da jovem, por isso decidiu-se por um estilo de conflito mútuo, a que se seguiu um arrependimento tardio e uma tempestade de sentimento incontrolável, denominada na língua nativa de estado "amok", que o leva a agir de forma descontrolada e a procurá-la, atitude que desemboca numa tragédia e num compromisso fatal.
Escrito com uma elegância e com um ritmo que nos faz mergulhar vertiginosamente no dilema médico, ético e inclusive moral, este conto mostra uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privada. Gostei.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Morte no Verão" de Yukio Mishima


Uma coletânea de 10 contos do escritor japonês Yukio Mishima sendo "Morte no Verão" o de entrada da série contida neste livro, todos mostram dramas psicológicos mais ou menos intensos da vida dos seus protagonistas sobre a luta pela sobrevivência face à perda de entes amados, à obtenção de rendimentos, aos medos pessoais ou a forma de resolver as questões de honra tradicional, do amor e da amizade, brilhantemente escritos com numa rica linguagem onde muitas vezes fluem reflexões do interior das personagens resultantes dos efeitos da observação ou dos acontecimentos do mundo exterior dentro do pensamento e consciência das pessoas. Um deles é apresentado sob a forma de uma pequena peça de teatro.
Por vezes somos chocados pelo desenlace da narrativa, outras vivemos o drama interno das personagens, havendo mesmo alguns como que um jogo de espelhos das relações entre estas, que no conjunto mostram  a cultura japonesa ou  algumas das diferenças de mentalidade face ao ocidente, como o que narra um suicídio por honra ou as memórias e orações de gueixas num fundo muito distinto do que se teria no hemisfério judaicocristão.
Pessoalmente gostei de todas as histórias, umas mais do que de outras, mas todos elas me cativaram desde o início sem deixar de transparecer uma calma do desenrolar das histórias mesmo nos casos mais dramáticos, Gostei e recomendo a quem gosta do género contos e de conhecer outras culturas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"O Retrato" de Nicolai Gogol


"O Retrato" do escritor russo do século XIX Nicolai Gogol, será mais um conto do que romance, dividido em duas partes: na primeira um pintor com talento, mas em dificuldades financeiras, cruza-se com um retrato inacabado num antiquário e fica fascinado pela força com que os olhos da pintura o fixam e consegue comprá-lo, só que a força desse olhar e um acontecimento, que parece fortuito, virão mudar a sua vida, dando-lhe nome como profissional, mas mediocridade no aproveitamento dado ao seu dom. Na segunda, compreender-se-á a origem da pintura e a razão da maldição que transportam esses olhos.
Não sendo uma obra que navega no mundo do fantástico, este insinua-se, tanto pelos efeitos nefastos que o quadro provocou no pintor, como na suposta transposição para a pintura dos efeitos do mal do agiota retratado.
"O Retrato", mesmo sem ser considerado a obra-prima de Gogol, neste conto, ele aborda a ideia de que é fulcral a arte contribuir para a edificação do Homem, sendo que o uso dos talentos para outros fins menos nobres um desvio deste objetivo, o qual pode ter reflexos na propagação do mal. Em paralelo, está também patente o conceito de ligação da origem do mal às causas e agentes de injustiça social, provavelmente uma influência das ideias políticas veiculadas pela revolução francesa, onde o "pecado" contra os mais pobres e desfavorecidos passa a ter uma relevância na moral muito mais forte do que no passado.
Muito bem escrito, como é característico da escola russa daquele século, e de fácil leitura, este conto é, sobretudo, uma alegoria ou parábola sobre o contributo da arte para moralização do Homem e uma crítica contra a injustiça social, preocupações que se refletirão noutros escritores como Dostoievki, Tchekhov e Tolstoi e assim se compreende porque Gogol está entre os génios literários mais influentes da Rússia. Gostei e recomendo.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CONTOS - Volume I Tchékhov


Acabei de ler o primeiro volume de uma extensa série de livros de uma coleção que procura reunir os Contos de Tchékhov, tendo também sido esta a minha entrada neste escritor famoso pelas suas curtas narrativas.
Para já Tchékhov apresenta nesta tradução direta do russo uma escrita muito límpida, que apesar de simples, consegue exprimir e descrever com uma grande intensidade e pormenor sentimentos, personagens, paisagens, cenas e tensões sociais.
A generalidade dos contos não têm finais felizes, antes denunciam problemas de injustiça e condutas desviantes dos protagonistas que acabam mal que mostram os problemas da sociedade russa altamente estratificada do século XIX. Contudo, pela estética do texto, estas histórias curtas e tristes não deprimem o leitor, antes pelo contrário, o escritor soube temperar com a quantidade certa de ironia e sarcasmo para que se tire prazer da leitura enquanto o coração vai descobrindo o retrato amargo que está a ser exposto e a beleza do texto permite ainda desfrutar com gosto a leitura.
Tchékhov tinha uma grande sensibilidade para a métrica nas suas narrativas, por isso tem-se a sensação plena de contos com a extensão exata e necessária para se expor a história sem sentir que a mesma acaba demasiado depressa ou se estende por palavras a mais e isto mostra a genialidade literária do escritor neste género de escrita. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O Livro de Areia" de Jorge Luis Borges



"O Livro de Areia" do argentino Jorge Luis Borges é composto de 13 contos no estilo fantástico típico do escritor. Os enredos cruzam tempos diferentes dos personagens, narram factos históricos ora reais ora baseados em livros antigos inexistentes, misturam personagens míticas com mundos reais das mais diversas partes do planeta mas privilegiando Argentina, o Uruguais e o norte da Europa, e onde por vezes o livro se torna o centro e é homenageado em bibliotecas representativas do saber mundial.
Este livro é a segunda coletânea de contos de J L Borges que leio, depois de O Aleph, o estilo fantástico, oculto e mágico sobre saberes reais e fictícios e tramas como livros é igual, embora agora já não me tenha surpreendido esta forma muito própria de escrita.
No fim o autor tem um posfácio onde enquadra as diferentes narrativas com base em objetivos pretendidos e esboços tentados entre outros aspetos. Gostei, um livro pequeno que se lê rapidamente, mas que pode surpreender positivamente uns ou desagradar a quem não gostar deste estilo único de narrar histórias de Jorge Luis Borges.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Nove Histórias" de J. D. Salinger




"Nove Histórias" do escritor norte americano J. D. Salinger, autor do famoso romance aqui apresentado: "A espera no centeio".
"Nove Histórias" é uma coletânea de nove contos que mostram cenas de vida e memórias de pessoas comuns, geniais ou com problemas psicossociais e apesar de escrito há mais de 50 anos, com personagens em cenários desses tempos, tem uma linguagem que se entranha de tal modo no leitor que parece ter sido escrito hoje mesmo, tal a modernidade e contemporaneidade da escrita, esta última talvez por se usar a linguagem banal dos diálogos no texto, mas sem se perder a qualidade intrínseca do aspeto literário. Aliás, é a qualidade de narração o mais surpreendente em histórias e situações igualmente surpreendentes, só isso justifica como certas conversas que parecem ocas nos prendem e despertam motivação de continuar.
Cada história fornece um prazer de leitura servido com conta, peso e ritmo certos para se tornar perfeito.Não sendo um livro que transporta uma mensagem de conteúdo concreta, embora desperte reflexões sobre a vida, cada história leva-nos a olhar cenas de vida e a descobrir os sentimentos das personagens e os seus problemas de uma forma natural, mesmo perante pessoas por vezes bem diferentes do normal. Traumas pessoais, relações familiares difíceis, crianças precoces sobredotadas, carência de relações humanas, hipocrisia ou engano, tudo se mistura nestes contos em doses certas para compor um livro como obra de arte literária.
Algumas personagens curiosamente repetem-se em contos e novelas de outros livros do autor, pelo que o conhecimento mais profundo destas figuras apenas pode ser alcançado com outras leituras, mesmo assim cada história por si está completa, um sinal da mestria deste escritor no domínio do conto
Gostei muito do livro pelo prazer que dá apreciar uma obra assim, tal como dá prazer ver retratos que não são nada mais do isso apenas intrinsecamente muito bem feitos.