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domingo, 23 de novembro de 2014

"A Selva" de Ferreira de Castro

Acabei de ler "A Selva" de Ferreira de Castro, talvez o romance com maior sucesso editorial internacional de um escritor português na primeira metade do século XX e compreendi agora a razão por que se tornou tão famoso esta obra de ficção mas parcialmente baseada nas memórias da vida do autor.
Um romance com um texto muito bem escrito, fácil e acessível a qualquer pessoa, uma história simples que apela aos valores humanos e denuncia a exploração do homem pelo homem sem defender nenhuma ideologia em concreto, uma descrição da floresta amazónica com uma densidade, qualidade e plasticidade visual difícil de igualar, sendo a selva a verdadeira protagonista da obra.
No romance a vida brota da Amazónia no seu potencial máximo e por isso a selva é também uma cooperante assassina na luta pela sobrevivência, os nativos surgem como o povo ameaçado no seu território que se defende perante os recém-chegados que não os sabem acolher sem os descaracterizar, o homem surge como o principal inimigo de si mesmo, independentemente da sua classe ou etnia e a personagem principal é o sonhador que vê as suas crenças desmoronarem e renasce diferente com projetos de futuro.
Ferreira de Castro, para muitos o iniciador do neorrealismo, escreve uma obra fácil e ao mesmo tempo densa, que desperta prazer e curiosidade de leitura, mas cheia de imagens fortes que divulgam a Amazónia, a história da exploração desta terra pelos europeus, a vida difícil dos seringueiros na obtenção do latex no pós-primeira grande guerra mundial, o choque de mentalidades, o aproveitamento dos mais fracos e a sua desunião e um apelo pelo valores para que o homem não seja o algoz do outro homem. Um grande romance que recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

"O mistério da estrada de Sintra" de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Por norma, não leio obras de ficção em formato digital, o denominado ebook ou livro eletrónico, ao contrário do que acontece com ensaios sobre socioeconomia e política atual. Todavia tenho descarregado romances antigos, sobretudo de autores nacionais, que em princípio não compraria numa livraria em concorrência com nova literatura que surjindo ou já são difíceis de encontrar. Isto como salvaguarda de surgir a oportunidade de os poder ler um dia e tal como já referira neste blogue.
Assim, recentemernte a a partir da sítio do Projeto Adamastor, acedi, descarreguei e li "O Mistério da estrada de Sintra", uma obra conjunta de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão publicada pela primeira vez em folhetins no jornal Diário de Notícias em 1870.
Um romance que começa como um "thriller" mistério em torno de um crime, narrado em formato epistolar e que com o tempo se vai transformando numa história romanesca de paixão, ciúme e questões de moral em pessoas da aristocracia lisboeta cruzadas com princípios de honra inglesa da época vitoriana e onde tudo fica no fim esclarecido e justificado.
Não sei exatamente quais as partes que são de Eça, mas suspeito pelo estilo de escrita, de qualquer forma é uma obra de juventude destes autores, ainda sem a ironia e a crítica social que desenvolveram genialmente, sujeita aos costumes e princípios morais então em voga e ainda não despojada dos floreados sentimentais e fáceis do período romântico. Assim, a obra vale sobretudo para compreendermos a evolução literária do autores e marcar uma época. Um romance acessível a qualquer público, novelesco, mas sem a densidade e pujança do que depois estes escritores foram capazes de criar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"A Capital" de Eça de Queiroz


O romance "A Capital" de Eça de Queiroz  apesar de escrito na primeira metade da vida de produção literária deste grande escritor português, só foi publicado 25 anos após a sua morte e segundo a editora Presença a versão corrente e agora lida sofreu retoques finais por seu filho José Maria, tendo esta editado recentemente um texto com algumas diferenças.
A obra é a história desde a infância até juventude de Artur Corvelo, que de rapazola quieto, triste e tímido vai estudar para Coimbra onde se fascina pelos sonhos de ser poeta e escritor famoso, mas que de repente se vê sem bens e retido na pacata província, até surgir uma herança e rumar a Lisboa para o sucesso idealizado, aqui é rejeitado e alvo de todos os oportunistas e vícios da capital que lhe sugam o dinheiro.
Eça recorre à sua brilhante escrita irónica e mordaz para fazer uma crítica forte a todos os estratos sociais, ideológicos e estilos de vida de Portugal do último quartel do século XIX, com destaque o lisboeta, embora lentamente o romance vá perdendo vigor por se tornarem previsíveis os vários tipos de enganos e desencantos que o protagonista sofrerá  com a sua estadia na capital.
O fim desta versão tem reminiscência de Hamlet. Gostei do romance, só que não tem a grandeza e o brilhantismo de obras geniais de Eça de Queiroz que já li, como "A cidade e as Serras", "O crime do Padre Amaro" e, sobretudo, "Os Maias", entre outras.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"Gaibéus" de Alves Redol


"Gaibéus", o nome que  chamavam aos trabalhadores à jorna que se dirigiam em rancho para o Ribatejo na época ceifa do arroz, de Alves Redol é reconhecido como o romance pioneiro do estilo literário do neorrealismo em Portugal em 1939.
A obra retrata o sofrimento dos jornaleiros rurais e, mais de que expor uma luta de classes, mostra a submissão e as dores a que é capaz de se sujeitar quem não concebe outro modo de ganhar o seu pão. Não que no seio do grupo não haja consciência da exploração: há quem silenciosamente se sinta revoltado, há quem sonhe com alternativas de emigração, há mulheres que se rendem ao assédio dos patrões e se sentem manchadas sem possibilidade de fuga e há doentes que recusam o facto a troco de uma moeda e até há os que se sentem um pouco superiores por se situarem mais acima na hierarquia dos explorados, sem verem que apenas são instrumentos da perpetuação dessa servidão.
O romance, que utiliza intensamente o vocabulário popular e típico desta atividade, não tem protagonistas que se destaquem na história. Tem várias personagens cujos  problemas e sonhos se vão desenrolando nos dias da ceifa e mostram as várias faces desta exploração sem direitos, mas onde é evidenciado que são seres humanos, que pensam na sua sorte e sofrem, mas sem perspetivas de futuro ou organização coletiva para enfrentar o problema. e como tal vítimas de um sistema social injusto.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"No céu não há limões" de Sandro William Junqueira


Acabei de ler "No céu não há limões" de Sandro William Junqueira, um escritor português na nova geração que começa agora a tornar-se conhecido e comentado. Pessoalmente penso que é daqueles livros que será o tempo a dizer se foi um grande obra revolucionária com uma escrita e estrutura original ou fruto de um estilo de sucesso e de elogios de moda e passageiros.
Comecei por gostar muito da escrita com figuras de estilo geradoras de imagens bem diferentes do tradicional, depois pareceu-me que era um desenrolar de frases fortes que se queriam originais, construíam uma história, cujo enredo era secundário e se desenrolava ao ritmo da inspiração do momento.
O romance em estilo distópico passa-se num país imaginário em guerra civil na frente (terra do meio) por a solidariedade dos mais afortunados (norte) ter sido cortada pelo "cansaço" com a parte do estado vítima de uma série infortúnios (sul), pelo meio um conjunto de personagens trabalhadas, mais ou menos invulgares, entre as quais se desenvolvem vários laços de subserviência, de domínio psicológico ou físico e por vezes com passado e futuro em aberto, tal como o romance e onde o combate entre o bem e o mal em termos religiosos está sempre presente. 
Um livro que seguramente desperta paixões em quem gosta de novidades de forma, se sente atraído pelo estilo ou anda em busca daquela obra que marque a diferença das outras. Noutros, como eu, despertará algumas dúvidas de consistência do romance e da sujeição da trama aos interesses da escrita, talvez também surjam quem simplesmente desgoste. Existem alguns aspetos no estilo e na forma que fazem lembrar Gonçalo M. Tavares e penso que vale a pena ler e cada um ajuizar individualmente. Apesar de algumas dúvidas, confesso que mantive o meu interesse em vir a ler outros trabalhos do escritor.
Ouvi o editor dizer esta semana na televisão sobre o livro algo do género: "Um romance tipicamente do século XXI." Será por aqui que seguirá a literatura?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bichos de Miguel Torga


Uma série de vários pequenos contos, na sua maioria protagonizados por animais do meio rural português, tanto domésticos como selvagens e que segundo Torga formam uma espécie de arca de Noé... que até entra no último conto.
Com a escrita característica de Torga e os seus regionalismos trasmontanos, no seu conjunto mostram-se não só as vivências rurais das pessoas, como o quotidiano e o destino dos animais de quinta e dos que os cercam, predadores ou não, mas sempre humanizados com sentimentos de heroísmo, ironia, esperteza e por vezes com uma dose de fatalismo previsível.
Leem-se todos os contos facilmente, que formam um conjunto divertido, bucólico e deixam um retrato do que foi um mundo rural e da sua cultura popular já quase extinta.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"Um Homem: Klaus Klump" & "A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares


O livro "Um Homem: Klaus Klump A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares reúne dois romances publicados inicialmente em separado e que correspondem aos dois primeiros volumes da tetralogia "O Reino" passado num país onde as relações humanas são como que mecanizadas, frias e sem o tempero dos sentimentos, não se pode dizer que é um estado totalitário, mas não é um regime saudável.
Em "Um Homem: Klaus Klump" vemos o dia-a-dia deste cidadão quando o seu país entra em guerra, não se sabe se foi invadido ou foi tomado por uma fação, Klump adere à resistência e prossegue as suas relações com amantes, mas abandona uma e é traído pela outra que o entrega à máquina no poder, é preso e consegue fugir. À sua volta contacta com indivíduos que cooperam como máquinas de sobrevivência ou resistem como máquinas de espalhar a morte de onde se destaca uma das mulheres que friamente vive nesta ambiguidade e não só sobrevive como está num elevado patamar social quando a guerra termina.
O mundo e o tempo de Walser é concomitante com o da história de Klaus, existem inclusive algums referências e interligações às personagens do primeiro romance, mas estas nunca são intervenientes diretos no segundo. A complexidade e interligação entre o homem como máquina e a máquina com que o protagonista trabalha, a máquina que faz a guerra, a máquina que morre, a máquina que é amiga ou mata é o mote para a reflexão no mundo de Joseph. A guerra é como que um período de intensificação destas máquinas, mas também pode virar a uma habituação e a guerra então morre por cansaço e indiferença das máquinas humanas, mas será que a sobrevivente está preparada para os desafios dos ataques da máquina humana em tempo de paz?
Gonçalo M. Tavares é para mim um escritor contemporâneo de escrita ímpar, acima de qualquer onda publicitária, vale por si, pela sua criatividade, pela sua frieza de criar relações humanas e sociedades distópicas e deprimente onde cada pormenor é dissecado com uma crueza que dói e maravilha que o lê. Todos os livros que li dele são grandes obras, mesmo quando correspondem a pequenas histórias...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Rosa Brava" de José Manuel Saraiva


Rosa Brava de José Manuel Saraiva é uma biografia romanceada de Leonor Teles, talvez a rainha mais odiada da história de Portugal, com início na sua juventude e prolongando-se até ao seu exílio no final da vida.
O romance ficcionado por um jornalista não deixa de refletir a escrita jornalística, simples mas sem um fulgor de estilo literário de um escritor de ficção, embora se leia bem, sente-se esta singeleza e pobreza ao contar-se a vida de uma das personagens mais polémicas que esteve na base da queda da dinastia de Borgonha, das  guerras fernandinas e da crise do reino que colocou levou ao início da dinastia de Avis.
A obra vale sobretudo pelo relato de uma época turbulenta e dos principais acontecimentos de então e está feita de uma forma fácil de ler, aquecida com o calor de diálogos simples do autor e apimentada, talvez com alguma criatividade, com as paixões despertadas pela beleza e intimidade de Leonor Teles que com ardis, vinganças e rotura de princípios chegou a rainha.
Gostei de recordar e compreender melhor o período e a pessoa em causa...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"A Voz dos Deuses" de João Aguiar


"A voz dos Deuses" romanceia a liderança de Viriato através das memórias de um filho fictício de uma relação entre um histórico príncipe bracarense exilado em Cineticum (Algarve) com uma nobre fenícia, o qual teria sido próximo deste herói real que está na memória dos Portugueses e na origem da nossa identificação como Lusitanos. 
No livro ficamos a conhecer não só as principais batalhas e feitos de Viriato, como a sua estratégia militar e as grandes dificuldades dos romanos para derrotarem este povo da Hispânia, o que maior resistência lhes ofereceu na península e só conquistado após a traição e morte deste líder guerrilheiro. 
João Aguiar introduz ainda no romance algumas viagens do autor das memórias para assim nos relatar os costumes, as crenças e a diversidade dos povos peninsulares e da guerrilha quando da romanização ibérica.
A escrita em "A voz dos Deuses" de João Aguiar, que foi jornalista e escritor, é simples e despretensiosa e este livro foi não só o seu primeiro romance, como deu início a uma trilogia, que em ficção, em parte baseada em factos reais, cobriu a história do território nacional no tempo da conquista, resistência, consolidação e declínio do poder do império romano na Ibéria. Esta obra deixa já abertura para o romance: "A hora de Sertório", sobre o romano que liderou a resistência lusitana num período em que mais do que a libertação do território este povo desejava sobretudo ser governado com justiça.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Claraboia" de José Saramago

Editorial Caminho

"Claraboia", o segundo romance escrito por José Saramago no início da década de 1950 sob o pseudónimo de Honorato e cuja editora em 1953 nem se dignou a responder nem a publicar, é o único livro do género saído postumamente por opção do autor face à desfeita de só ter sido contactado para a sua publicação quando começou a ter nome na década de 1980, deixou tal a decisão aos seus herdeiros para após a sua morte.
Neste livro a escrita característica de Saramago ainda não nascera: todos os sinais de pontuação estão presentes, não há parágrafos longos e o encadeado de diálogos tem a devida separação. O livro espreita, como por um claraboia para relatar a vivência de seis famílias residentes no mesmo prédio e não sai deste edifício.
Quem leu a obra madura do escritor reconhece na trama as preocupações frequentes do autor, mas sendo uma obra do período da ditadura certas insinuações surgem disfarçadas. Estão já presentes várias das temáticas a serem desenvolvidas mais tarde: a luta de classes aqui disfarçada de assédios amorosos, questões filosóficas a partir do saber da experiência da vida e pelo confronto causa monárquica versus republicana, bem como a questão da identidade e objetivo de vida. No estilo, Saramago já se recorre à ironia introspetiva para denúncia e fazer análise psicossocial muito presente nas suas obras principais.
Não sendo uma obra com a maturidade como outras posteriores, é um romance simples, linear e interessante que se lê bem que já aponta para o Saramago do período Nobel. Gostei.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

"O Dia dos prodígios" de Lídia Jorge


"O Dia dos Prodígios" é o primeiro romance da grande série de obras escritas por Lídia Jorge, uma das autoras contemporâneas nacionais que maior número e diversidade de prémios literários de Portugal e do estrangeiro tem recebido.
Um romance publicado em 1980 que deve ter sido então uma pedrada no charco pela forma de escrita. A narrativa é constituída sobretudo pelo encadear de frases orais, por vezes articuladas, outras como que interrompidas por uma pontuação livre ou ainda com intercalação de afirmações, quase tudo brotando dos diálogos das personagens que convivem numa pequena aldeia isolada do interior do Algarve e onde se descreve, fala e se relata não só factos maravilhosos que ocorrem na terra que parecem pressagiar um grande evento, bem como se comenta a vida alheia. Por vezes a autora divide o texto em colunas, uma menor destinada a comentários e a outra à continuação do texto. Assim, aos poucos e de uma forma nem sempre linear, vai-se montando ao ritmo da pasmaceira do dia a dia o viver de uma pequena comunidade rural vítima da emigração e do esquecimento no final do Estado Novo... até que mais tarde se dá a Revolução do 25 de Abril e o nascer da esperança.
Para muitos o livro retrata de uma forma alegre e livre a mentalidade, os hábitos e os defeitos que caracterizavam o cidadão rural médio de então, o que nem sempre é abonatório: álcool, violência gratuita sobre animais e doméstica e alguma grosseria cruzam-se na montagem de um texto irónico e divertido que já foi adaptado ao teatro, mas é evidente que pertence a um período onde a ameaça da desilusão com libertação alcançada com Abril ainda não ensombrava a sociedade.
Lídia Jorge talvez seja das escritoras mais versáteis na escrita e este livro é bem diferente no estilo de outras obras posteriores de que gostei mais, embora talvez menos originais que é a grande marca desta obra aberta positivamente para o futuro.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

"Afirma Pereira" de António Tabucchi

Editora Leya

"Afirma Pereira" de António Tabucchi é um romance escrito sob a forma de um depoimento das declarações do jornalista lisboeta Pereira, no momento responsável pela página cultural da publicação para onde trabalha, que relatam a sucessão dos vários acontecimentos que antecederam o despertar da sua consciência, o levaram a sair do seu comodismo cobarde e a tomar uma ação de denúncia numa ditadura em Portugal dominada pela censura e a polícia política, isto num verão contemporâneo da guerra civil de Espanha e num Estado seguidor dos "bons costumes" da religião e subserviente  aos regimes então instalados na Alemanha e na Itália.
Numa linguagem linear, fácil de seguir e com capítulos curtos que descrevem as rotinas do dia-a-dia ou os eventos extraordinários ocorridos, bem como os diálogos e as ações que com Pereira interagiu nesse verão que estiveram na base da transformação da sua personalidade acomodada a um "eu hegemónico" para uma nova consciência ou alma que vai evidenciando o papel da literatura na formação da pessoa humana e no moldar da sociedade.
Uma pequena grande obra muito agradável de se ler que harmoniza o papel da ficção radicada na história com a capacidade da literatura despertar para a reflexão sobre a sociedade e questões de consciência sem se amarrar a campos ideológicos ou prejudicar o prazer associado ao lazer.

domingo, 4 de maio de 2014

"A Quinta Essência" de Agustina Bessa-Luís


Terminei a leitura de "A quinta essência", de Agustina Bessa-Luís relativa "a uma forma de criação do nada coisa efémeras que nunca acabam"... "a região do fogo e do amor" e o livro faz isso.
É uma escrita onde não há é espaço de tempo para tanta ideia, informação e pormenor do que Agustina quer introduzir na construção frásica. Cada parágrafo é como um painel de talha dourada de um altar barroco, onde facilmente nos podemos perder tal é a densidade de elementos é um pórtico de Gaudi e dificilmente se apreende tudo à primeira.
O mundo a partir dos olhos de José Carlos, vindo de uma família pretensamente burguesa da região do Porto, uma classe que se habituou às regalias que de repente se torna alvo dos ódios no 25 de Abril, que desestabilizam o status quo e onde cada um encontra artifícios para se adaptar.
Nasce assim um projeto de vingança do protagonista que o leva até Macau... dá-se então a fascinação do que foi a história e o choque do encontro de duas civilizações e duas formas de pensar. Uma pretensa cultura superior vê-se perante outra requintada, profunda, já milenar e avançada e dificilmente compreensível para uns ocidentais com mera vocação comercial e evangelizadora que se instalam na península de Ama Cao. Descobre-se então como uma China que na sua suprema inteligência deixa o território tornar-se num cadinho de trocas de todo os género e mentalidades que salvaguardou uma coexistência e criou teia de relações únicas entre dois mundos.
O livro é uma joia (as pérolas são muito comuns no sul da Ásia e logo desvalorizadas pelas elites orientais) onde se mergulha e se percebe o que foram estes quinhentos anos de Portugueses/Jesuítas por terras do império do meio e os jogos dos chineses, as sujas filosofias, mas onde há o risco de nos perdermos em tal densidade que faz numa obra do tamanho de um volume de "Em busca do tempo perdido", um retrato social e histórico bem maior. Gostei muito, mas o livro nem sempre é fácil.

quarta-feira, 26 de março de 2014

"Debaixo de Algum Céu" de Nuno Camarneiro

Edições Leya

Acabei de ler "Debaixo de algum Céu" um romance de Nuno Camarneiro que ganhou o prémio Leya em 2012.
Nesta obra que relata o dia-a-dia entre o Natal até ao primeiro dia do Ano Novo inclusive dos tão variados residentes de um edifício de apartamentos, o narrador, dividindo o texto em trechos independentes, vai montando os carácter de cada personagem enquanto constrói o mosaico das relações humanas, dos problemas individuais e das tensões e sentimentos que unem os habitantes daquele prédio.
Apesar do narrador por vezes dar a entender que a narração de uma história não tem de ser moral e de ao longo da obra parecer que se trata de um excelente exercício de escrita sem juízos de valor... ao completar o quadro no primeiro dia do ano a mensagem, as lições de vida e o significado que a esta podemos dar está lá toda, fornecendo à obra uma estrutura completa em termos de escrita, trama e mensagem.
Uma pequena obra com escrita arrojada, inovadora e fluída de que gostei em grande e recomendo.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Homem de Constantinopla - José Rodrigues dos Santos

Este livro que se completa com uma segunda obra pretende romancear a vida de Calouste Gulbenkian que enriqueceu à sombra da ascensão da indústria do petróleo e foi o maior mecenas cultural e científico de Portugal. Um homem de origem arménia que deixou em Lisboa uma das maiores fundações privadas do mundo de apoio às artes e ciências e o espólio de um magnífico museu sobretudo de arte do século XX.
Este volume conta a infância, juventude e ascensão de Calouste até ao início da I Guerra Mundial, mas mesmo tendo em consideração a necessidade de inventar pormenores para sustentar a trama de um romance em torno de uma pessoa real, pelo que sei, a estória de "O homem de Constantinopla" também não é bem fiel à vida original da personagem ficcionada e deduzo mesmo alguma especulação para dar intensidade ao texto sem um respeito pertinente ao retrato de carácter e de psicologia do verdadeiro homem. O que é pena.
José Rodrigues dos Santos escreve corretamente, mas exagera nas figuras de estilo e metáforas fáceis, o que torna o texto pretensioso, desvirtua o equilíbrio da forma e dá à obra um tom mais de agrado popular e lúdico do que valor literário. Apesar de tudo, o romance é agradável, fornece dados interessantes sobre Calouste Gulbenkian e a sua época.
Está-se perante uma obra acessível a qualquer leitor, mesmo não habituado a obras intelectualmente mais exigentes, para quem ler é sobretudo um passatempo de lazer e manteve-me o interesse em ler o segundo romance para onde agora vou mergulhar. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

História da ilha do Faial - das Origens a 1833 - Edição C. M. da Horta

Acabei de ler o Volume I da "História da Ilha do Faial - das origens a 1833", uma edição de luxo da Câmara Municipal da Horta .
O primeiro volume é uma excelente coletânea de excertos de crónicas das partes referentes ao Faial e escritas por portugueses (açorianos ou não) e estrangeiros, nomeadamente espanhóis, ingleses, flamengos e italianos, entre outros. Estas estão ordenadas cronologicamente desde o século XV até 1833, ano da elevação da Horta a cidade, e descrevem o povoamento, a geologia, a demografia, a divisão administrativa, batalhas, a conquista desta terra aquando do domínio de Portugal por Espanha, a agricultura, o comércio internacional, as tradições, a religião, o património desta ilha e os passos que levaram à instituição do ex-Distrito Autónomo da Horta.
Na última parte há uma análise crítica de historiadores contemporâneos sobre o conteúdo dos textos listados na obra e o seu contexto político.
A obra dá-nos um retrato da evolução desta ilha, a importância dos flamengos no povoamento do Faial, a resistência que os espanhóis encontraram por aqui, o peso desmesurado da religião, descrições do vulcão da Praia do Norte, a impossibilidade dos estrangeiros conquistarem a ilha a partir da Ribeirinha, as fragilidades desta terra e uma apreciação bastante crítica dos estrangeiros sobre o modo como os portugueses, faialenses e a religião desperdiçavam as potencialidades geoestratégicas, condições de abrigo da baía da Horta, climáticas e pedológicas para a economia do Faial.
Uma excelente volume, mesmo para quem não adquira a coleção constituída por mais dois que abordam aspetos diferentes da História do Faial. altamente recomendável a qualquer Faialense.