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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"A Lebre de Olhos de Âmbar" de Edmund de Waal


O arranque das leituras do ano 2020 coincidiu com uma excelente obra, uma das que mais gostei nos últimos anos. "A lebre de olhos de âmbar" do artista plástico inglês de ascendência holandesa e judaica Edmund Waal, mas não é um romance, nem ficção, é sim a história da família judia Ephrussi desde o início do século XIX de que o autor descende, com base na sua investigação e da sua relação com uma coleção de pequenos objetos japoneses que atravessou várias gerações e chegou até ele.
Edmund é um escultor oleiro que ganhou uma bolsa para Tóquio para desenvolver o intercâmbio cultural e linguístico entre a Inglaterra e o Japão. Na sua estada neste País, onde residia um seu tio-avô, entra em contacto com uma coleção de família de pequenos utensílios nipónicos antigos, feitos para prender objetos aos quimonos, artisticamente esculpidos e denominados netsuke, de que depois se torna herdeiro descrevendo vários deste conjunto de 264 peças. O fascínio dos netsuke leva-o a tentar saber como chegaram até aos seus antepassados, atravessarem gerações e sobreviverem a duas guerras mundiais e perseguições.
A história começa como o seu tetravô, um judeu polaco no interior da Ucrânia, criou uma empresa em Odessa, enriqueceu, colocou os seus filhos em Paris e Viena para ampliar os negócios e estes construíram um dos maiores impérios financeiros na Europa, grandes palácios, integraram-se na elite austríaca e francesa, tornaram-se mecenas, colecionaram obras de arte e conviveram com grandes artistas e pensadores deste Continente: Renoir, Monet, Pissaro, Moreau, Rilke, Proust, Mahler, etc. Membros serviram de modelo a grandes personagens da literatura e a quadros impressionistas, enfrentaram o preconceito a judeus, viram o seu esplendor e riqueza devassado pelos progroms, queda do império Austro-húngaro e ocupação de França pelos nazis. Os que sobreviveram até hoje são cidadãos comuns, dispersos por três continentes mas onde a cultura, a arte e o colecionismo está presente, partilham outros credos religiosos e continuam profissionalmente válidos e ativos.
Neste relato compreendemos o estilo de vida, os defeitos e o glamour da alta sociedade europeia por mais de 100 anos. Veremos como  Charles Ephrusi foi o modelo de Proust para Charles Swann e por quem os netsuke entraram na família em Paris e os enviou para Viena. Saberemos como estes escaparam à Gestapo, passaram por Tóquio e agora estão em Inglaterra em casa de Edmund. Veremos como caiu o império centrado em Vienta, como foi a entrada de Hitler na cidade e a ocupação inicial desta e dos americanos em Tóquio.
Os autor escreve muito bem e narra de uma forma que até os momentos difíceis e de horror estão trespassados por ternura, não faltam reflexões pessoais de Edmund, descrições do que o património da família foi e é hoje e de como era a vida nessas cidades das elites sociais. Como a guerra espoliou e como Estados atuais apagaram as suas culpas. Tudo isto sem nunca o texto se render ao amargo dos lesados devido ao amor de família que atravessa toda a narrativa até se virar para as atuais crianças futuras herdeiras dos netsukes.
Fácil de ler, com várias fotos e uma grande obra escrita já no século XXI que mostra o que foi e é a Europa ao longo dos últimos 200 anos. Uma maravilha que recomendo.
Um netsuke em forma de noz (imagem Wikipédia)

sábado, 18 de novembro de 2017

"Não digam que não temos Nada" de Madeleine Thien


"Não digam que não temos nada" de Madeleine Thien, é um livro que se arrisca a ser para mim o melhor romance contemporâneo que li ao longo do ano, dada a trama, o retrato histórico, a interligação com outras formas de arte como a poesia, a música e a caligrafia chinesa, e ainda pela elegante e bela escrita.
Este romance foi vencedor dos prémios literários: Governor General Prize 2016 (o mais reconhecido no Canada), Giller Prize 2016 e Edward Stanford Travel Writing 2017, e esteve na lista final do Man Booker Prize 2016, o que evidencia a excelência da obra desta escritora chino-canadiana.
O romance começa com as memórias de Marie do tempo da fuga do pai, em 1989, de casa em Vancouver, um importante pianista chinês e seu posterior suicídio. Prossegue com o pedido de acolhimento da uma refugiada Ai-ming após a revolta da praça Tianamen em Pequim. Então com as desconfianças entre a criança e a jovem, começa a descoberta do passado que as une, pela leitura do capítulo 17 do Livro dos Registos: obra do tio sonhador desta que narra de forma livre, romanceada e em volumes soltos, a história do seu amor e das dificuldades e aventuras da família desde a segunda guerra mundial até ao presente passando pelas várias revoltas na China. Assim, descobrimos que o pianista foi aluno e admirador do famoso compositor pai de Ai-ming e colega da violinista Zhulli filha do sonhador; um grupo unido pelo amor à música, à literatura e de livre pensamento com os riscos que daí decorrem no regime chinês.
Recorrendo à intercalações de momentos no presente e em vários do passado, assiste-se à saga de três gerações de músicos e amantes de livros e seus amigos face às perseguições injustificáveis na implantação do comunismo, depois nos loucos abusos da revolução cultural e, por fim, na revolta do sonho estudantil em Tianamen, sempre a abrir feridas com as mudanças do mesmo tema: simbolizado pelas Variações de Goldberg de Bach e onde depois de rearranjos a ária inicial volta como um fadado regresso ao passado.
O romance está cheio de citações de poetas chineses, de referências a obras musicais do ocidente com destaque para Bach, Chostakovitch, Prokofiev, Tchaikovsky e Ravel, entre outros e a atmosfera de ternura e da importância da arte, incluindo a caligrafia do chinesa, atravessa toda a obra mesmo nos períodos mais duros desta história. Magnífico romance, com um relato de 70 anos da história da China embora possa ser um pouco difícil para quem não conheça as características das peças musicais tão abundantemente citadas, como esta do vídeo e com a referência precisa desta gravação.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Ao arrepio" de Joris-Karl Huysmans


O romance "Ao arrepio", por vezes traduzido por "Às avessas", é considerado a obra-prima literária de Joris-Karl Huysmans e a mais importante do estilo decandentista surgido em França no final do século XIX e terá influenciado Wilde para Dorian Gray. Apesar de revolucionário no estilo, é uma obra algo difícil pelo grande número de géneros culturais tratados e referências a autores e seus trabalhos.
Des Esseintes é o herdeiro de uma família nobre e heróis de França, mas de uma fragilidade oposta à dos antepassados Após o colégio religioso de classe entra numa vida de prazeres à sombra da riqueza, desfrutando tudo o que a sociedade lhe pode oferecer, até sentir o declínio do mundo que o cerca. Decide então afastar-se e criar numa casa o seu mundo-museu, cerca-se de tudo o que admira para fugir à realidade e entrar no ideal que lhe traga as recordações que valoriza e admira. Assim, desde o estudo das cores dos aposentos, complementada com gemas numa tartaruga para efeitos de luz; passando pela dissertação da biblioteca de clássicos da Roma decadente; continua pela descrição de quadros e de artistas contidos nas divisões; analisa a adequação das flores do jardim para criar cenários idealizados; ensaia  aromas que geram atmosferas e lembranças; disserta sobre músicas de excelência da história e critica os escritores seus contemporâneos. Tudo isto sempre com profundidade, algum sarcasmo e indolência final. Existem momentos de uma riqueza descritiva geniais e outros surpreendentes que se arrastam até um final não menos imprevisto.
Após o romance um prefácio do autor escrito 20 anos depois, onde disserta sobre o conteúdo do romance, o seu impacte no meio cultural de Paris, até o conflito que gerou com Zola, e aponta as sementes que o levaram em seguida não só à sua conversão ao catolicismo, como os pontos desenvolvidos nos seus posteriores romances, como a personagem Durtal de "Além" que aqui falei.
Apesar de por vezes ser fastidioso nas descrições e da letargia com que Des Esseintes se reveste, gostei muito da obra, contudo a bagagem informativa e os aspetos culturais focados não a tornam fácil a um leitor ávido de desenrolares rápidos e narrativas simples dos momentos, um livro diferente entre tudo o que já li.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante


Há livros que são uma biblioteca e o romance "Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante é de facto uma louca adição de estórias, textos de géneros distintos, miscelânea de línguas, charadas de palavras, experiências de escrita e dissecação de vocábulos e pronúncias, mecanismos de destravamento ou travamento linguístico e tal como explicado inicialmente, o bom seria ler em voz alta para melhor entender toda a riqueza fonética ali contida. Tudo isto tem como pano de fundo a vida noctívaga de Havana no tempo de Batista pouco antes da revolução cubana sem qualquer preocupação ou censura moral.
A obra é narrada essencialmente a partir de três personagens maiores: um fotógrafo, um ator radiofónico e um escritor, com a ensombração de um poeta prestidigitador das palavras e de uma cantora cuja a voz e o corpo formariam um monumento gigante, devidamente secundado por toda a panóplia de personalidades que animam a noite boémia: músicos, coristas, prostitutas, homossexuais pessoal de bares, cabarés e restaurantes numa promiscuidade cujas combinações são impossíveis de quantificar, a que se associa de forma intercalada uma voz singular perante o seu psiquiátrica.
Os Três Tristes Tigres são uma enciclopédia da cultura ocidental: tanto musical erudita e popular latinoamericana; literária com citações e deformações e reescritas dos mais diversos escritores e provérbios universais e do saber dos filósofos, havendo uma parte onde se destacam autores cubanos e ainda ao nível do cinema norteamericano sobretudo das décadas 1930/40 e 50, todavia a obra não tem uma linha continuada da estória.
Após uma apresentação dos debutantes que serão reexpostos depois no livro que poderemos redescobrir a quem correspondem, acompanharemos a vertiginosa vida de um fotógrafo encantado com uma cantora, assistiremos períodos de engates entre o ator radiofónico na companhia dos seus amigos escritores e músicos, como veremos em imitações de escritores cubanos várias versões em torno da morte de Trotsky, para passar por um período louco de palíndromes, jogos numéricos, dissecações e transformações de um poeta cuja "deficiência" do cérebro descoberta em necropsia justifica a causa da genialidade de deformação das palavras e da linguagem, para se avançar para um dia louco de reflexões existenciais que se prolonga por numerosas páginas até um epílogo que mais não é que outro trabalho de escrita.
Um livro único do mesmo ano de "Cem anos de solidão", que por vezes com tanto exercícios de escrita pode cansar, noutros divertir o leitor, mas sobretudo é um trabalho que prova que já tudo parece ter sido inventado antes de Saramago, Llosa e outros revolucionários da escrita e da loucura narrativa terem transformado a literatura contemporânea.
Apesar de tudo, para quem não se deixa entusiasmar por estes ensaios de escrita, Três Tristes Tigres pode ser uma obra fastidiosa, ininteligível e desesperante, mas é uma obra-prima para quem gosta mesmo de literatura como arte de saber trabalhar as línguas, as letras, a sintaxe e os sons que a escrita tentam transpor para o papel e sendo um castelhano, suponho que grande parte da dinâmica linguística pode ser bem aproveitada pelo tradutor que seguramente se viu perante um trabalho hercúleo para colocar tal monumento em Português.

sábado, 26 de agosto de 2017

"O Ruído do Tempo" de Julian Barnes


Acabei de ler o "O Ruído do Tempo" do escritor inglês Julian Barnes. Um romance que tenta expor os prováveis receios e complexos de consciência da vida da personagem histórica Shostakovitch (Chostakovitch), o compositor erudito mais famoso que viveu e compôs sempre sob o regime soviético sem nunca tentar fugir do País e alvo de enormes pressões para que as suas obras obedecessem às diretrizes do PCUS.
O livro dá destaque às atitudes de Shostakovitch no período de terror de Estaline e depois nas reviravoltas da época de Kushchev e como terá sido usado como exemplo da supremacia artística da União Soviética pelos dois líderes.
A obra é escrita numa sucessão de textos, como bilhetes postais, onde Julian Barnes vai mostrando a biografia de Shostakovitch em peças soltas que se colam e montam a vida deste, as suas relações com mulheres, os casamentos e as suas ideias musicais e sociais avançadas cercada pela cobardia de as pôr em prática. Exibe ainda as suas eventuais reflexões e exames de consciência. Um momento chave é quando ainda jovem vê a sua grande ópera após um sucesso estrondoso na União Soviética e Mundo ser ostracizada pela crítica, que pode ter sido escrita por Estaline, e o leva a optar por não dormir e a esperar a sua prisão e morte à porta do elevador para a família não assistir.
"Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só é preciso ser bravo por um momento... ...mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar."
A partir de então toda a sua vida foi sobreviver com a sua cobardia e continuar a compor pretendendo agradar ao sistema para ser ouvido e com medo de pôr as suas ideias na música, em paralelo renega artistas que admirava ou heróis de resistência. Chega a assumir discursos discursos que não escreveu e opiniões que nem concordava no País e no Estrangeiro e quando da abertura do regime uma nova humilhação que não previra.
Há escritores que produzem obras-primas de literatura sendo originais e bons em estilos e géneros diferentes, depois de "O sentido do Fim", que li este ano, agora outra obra-prima nada semelhante à anterior. Um texto com uma dose contínua de ironia, por vez sarcástica, bem redigido e num estilo brilhante, Julian Barnes é um escritor que quero continuar a ler e descobrir o que já publicou ou venha a publicar.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"A mixture of Frailties" de Robertson Davies



Terminei a leitura do terceiro livro da trilogia de Salterton de Robertson Davies: "A mixture of frailties". O romance começa pouco após o casamento entre os jovens filhos de professores universitários rivais cujo falso anúncio permitira a trama do anterior livro exposto neste neste post. Um momento em que ocorre a morte da viúva mãe do noivo, uma mulher egoísta que emocionalmente escravizava o filho, que por retaliação à desfeita pela escolha da mulher filha do rival deixa em testamento cláusulas de gestão de todos seus bens incluindo sua fortuna enorme, cujo próprio descendente na sua submissão desconhecia existir, a um fundo de gestão por uma comissão cujos membros já eram conhecidos das anteriores histórias, destinado à educação na Europa de uma mulher da cidade no mundo da música a escolher pelos gestores segundo critérios rígidos, com possibilidade de repetição após a conclusão dos estudos até que haja um novo herdeiro masculino na família, enquanto o casal se limita ao usufruto da vivenda da mãe para residência, mas sem auferir rendimentos da fortuna e sem beneficiar da possibilidade de venda de propriedades pertencentes ao fundo.
A partir desta situação complexa e humilhante para o casal, Davies desenvolve o que de melhor sabe fazer nos seus romances: criar com elegância e humor uma trama em que explora o amadurecimento de uma forma de arte num potencial artista. Neste caso, como se transforma a voz de alguém dotado, mas sem cultura musical, numa artista e soprano de primeira grandeza no mundo da ópera, associado às peripécias que se geram em torno de uma jovem bela, imatura, vinda de uma cidade rural que vê de repente a possibilidade do seu sonho realizar-se, embora caída na teia de artistas e das suas rivalidades, com toda a astúcia possível desenvolvida no seio de Londres. Como sempre neste género literário, Robertson Davies cria uma delícia de obra culta com referências à história da música e uma argúcia de análise social divertida e muito anglo-saxónica.
Nas várias trilogias, uma característica a que se associam os romances deste escritor canadiano, este conseguiu cobrir e dar a conhecer através da literatura vários mundos da cultura e da arte, nomeadamente: festivais de cinema, a criatividade na pintura e na música (composição e ópera), a representação em teatro e a vida em circo, bem como as tensões que caracterizam os meios universitários, sempre com ironia e análise social que evidenciam um conhecimento dos meios culturais de uma forma difícil de se observar noutros escritores, além de que o facto de ter lecionado em várias Universidades lhe garantiu a bagagem para poder explorar repetidamente as tensões nos meios académicos. Gostei e muito e continuo a considerar no estilo mais clássico anglo-saxónico de romance o maior escritor do Canada da segunda metade do século XX

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Férias Toscânia - Florença: o berço do Renascimento

Florença: imagem daqui

Florença foi uma das cidades que mais cedo desejei visitar, contudo, talvez tenha levado mais de uma década entre a decisão e a programação da visita, mas depois de ter passado rapidamente por Veneza, reconheci que não poderia passar mais tempo para comparar aquelas que artisticamente e arquitetonicamente devem ser as duas cidades mais marcantes da Itália.
Espero neste berço do renascimento e património mundial, não só conhecer a arquitetura como arte, como os grandes Giotto, Boticelli, da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Caravaggio e outros artistas que viram projetada a sua luz genial através da família Medici na terra do grande Dante cuja obra-prima, "A divina comédia" já li e também de Maquiavel.
Sendo esta a capital da Toscânia, à qual cheguei de comboio para conhecer a paisagem entre a Lombardia e esta cidade, e estando numa das províncias mais cosmopolitas deste país, penso ainda visitar, pelo menos duas das cidades com património conhecido mundialmente e ainda na minha rota operática ter mais um grande momento musical, agora com um obra suis generis e como vai sendo curiosamente hábito, na Itália não ouço óperas italianas.
Espero assim ao longo desta semana colher impressões suficientes sobre a vida atual, a gastronomia e o estado da arte da cidade de Florença e da província da Toscânia.


sábado, 4 de abril de 2015

"Os peixes também sabem cantar" de Halldór Laxness


Halldór Laxness corresponde ao escritor de ficção que nos últimos 3 anos descobri e mais me marcou neste espaço de tempo. "Os peixes também sabem cantar" talvez seja dos 3 romances que li o de mais fácil leitura ao grande público, mas continua a retratar e a tratar a sociedade e a cultura islandesa com o mesmo estilo poético que em "Gente Independente" ou no "O sino da Islândia", apesar da análise política ser agora mais suave e superficial.
Uma romance que se desenvolve como as memórias de infância até ao início da vida adulta do seu protagonista: Álfgrímur, abandonado pela mãe, filho de pai desconhecido e acolhido à nascença pelos seus avós adotivos, os donos de uma pensão que recebe os islandeses mais pobres das várias partes da ilha em Reiquiavique no início do século XX, quando a cidade se começa a potenciar como futura capital do País ainda sob o domínio dinamarquês.
O livro tem dois mundos: o da pensão dominado pelo sino de prata do relógio, com a fronteira no torniquete da cancela e onde se hospeda uma série de personagens ímpares que mostram a vida miserável do povo, as suas superstições, o orgulho das tradições, músicas, poesias em convívio com os valores éticos e morais dos avós, também pescadores e incapazes de se renderem às regras do mercado em benefício próprio para explorarem as pessoas.
O outro mundo que Álfgrímur vai descobrir situa-se além do portão, dominado pelo sino do relógio da igreja, possui homens de negócio sujeitos às regras da Dinamarca, sofre a transição socioeconómica associada ao desenvolvimento industrial e comercial, onde a hipocrisia convive com um conjunto de pessoas que deambulam sem se enraizarem neste meio, também orgulhosas das suas tradições e interessadas na notoriedade da Islândia mundial, onde se destaca uma vítima deste sistema: um cantor lírico de fama mundial que ninguém na cidade o ouviu cantar, nem sua mãe, que dizem ser parente próximo do protagonista, que o vai conhecer, estabelecer amizade e desvendar o seu segredo, que o marcará para o futuro na mudança da da seu destino de pescador de peixe-lapa para a vocação de encontrar e cantar a nota pura e mostrá-la ao Mundo. Gostei muito, embora seja um romance menos profundo que os outros dois acima referenciados.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nella Maissa - Parabéns pelos 100 anos de vida, das mulheres que mais deu pela música em Portugal


Nella Maissa, pianista, completa hoje 100 anos de vida. Ainda hoje a ouvi com uma lucidez incrível a falar de música e de músicos na rádio, sefardita, nascida em Turim, casa em Portugal para onde veio residir EM 1939 e desde então nunca abandonou o seu trabalho de divulgar os compositores portugueses e de os interpretar, algo que talvez ninguém nascido em terras lusitanas o tenham feito mais intensamente do que ela, vencedora de vários prémios musicais foi agraciada com a medalha de mérito cultural por todo o seu trabalho.

Pelos 100 Anos de Vida e o seu trabalho em prol da música: 
Parabéns Nella Maissa


terça-feira, 1 de outubro de 2013

DIA MUNDIAL DA MÚSICA - a minha recordação musical mais antiga

Praticamente todos nós temos uma música que nos marcou em criança, que nos ficou na memória e a qual nunca mais nos esquecemos...
Sei que entrava no genérico de um programa de rádio no Canada... talvez para emigrantes. Não sei do que falavam a seguir, mas sei que a recordação musical mais antiga que tenho não é de uma balada de infância, não é de uma canção de cinema na televisão ou de um concerto num arraial de rua... é simplesmente deste tema tão marcante que se desenvolve em forma de sonata neste andamento:
Não é presunção, apenas aconteceu. Teria eu 2, 3 anos... também não sei, precisar. Só que nunca mais deixei de gostar desta música que saía daquele rádio sobre um frigorífico numa cada de emigrantes Portugueses e que me deixava parado, extasiado, enquanto soava e me marcava para sempre...

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A magia da Música passou novamente pelo Varadouro

A tradição do concerto de música erudita na quinta-feira da festa do Varadouro dentro da ermida de Nossa Senhora da Saúde regressou com o bom gosto, brilhante seleção musical e promoção de artistas ligados aos Açores e à direção artística a que Kurt Spanier nos habituou.
Este ano os instrumentos escolhidos foram a flauta, brilhantemente interpretada de novo neste sarau por Rodrigo Lima, a trompa, pelo estreante nesta tradição Buddy Robson e o órgão, pelo já conhecido e experiente professor Gustaaf van Manen, que tocaram obras de Rossini, Sweelinck, Valentine, Bach, Seixas, Mozart e Bach. 
O concerto começou com a originalidade para este tipo de sarau: um encontro para a caça de Rossini interpretado no exterior da ermida e fazendo lembrar o ambiente e o espírito da chamada para a floresta dos seguidores das dávidas de Diana, mas não foi menos belo o larghetto do concerto n.º 3 de Mozart para este instrumento.
Se o órgão foi rei várias vezes ao longo da noite, foi magnífico com obras de Carlos Seixas, este genial músico português num dos campos em que foi mestre e brilhantemente interpretado.

A flauta na sonata VII de Telemann foi encantadora, mas para mim a magia viveu-se com a sonata em sol menor BWV1020 de Bach... magnífico e mostrou bem as capacidades de Rodrigo Lima, o conhecimento do estilo musical do período barroco e o entendimento dele com o seu professor... foi mesmo muito bom!
No final fomos presenteados com os quatro músicos deste evento num rearranjo do Panis Angelicus de Cesar Franck, onde Kurt mostrou ainda a pujança da sua voz e de como é capaz de propor novas orquestrações para obras famosas, onde todos ficam a ganhar com a experiência... até os garajaus vieram juntar-se ao banquete deste Pão dos Anjos e juntaram os seus cantos noturnos tão típicos da natureza estival dos Açores.
Uma noite mágica e obrigado a todos.

domingo, 26 de maio de 2013

Milão - no coração da ópera

Imagem Wikipedia

Retomei o meu périplo pelas grandes óperas do ocidente que cobria nas minhas viagens de férias, desta vez coube aquela que será talvez o coração europeu desta forma de arte, o Teatro alla Scala de Milão.

Imagem Wikipedia

Hoje, na semana em que se comemorou os 200 anos de nascimento do compositor devo devo celebrar a efeméride com a grande récita Die Götterdämmerung (O crepúsculo dos deuses) de Wagner, que fecha o ciclo do Anel dos Nibelungos, uma extensa e magnífica ópera onde todos os temas musicais desta epopeia de deuses, humanos, monstros se reexpõem de uma forma magnífica.

Um vídeo com o final desta excelente ópera cantada por Iréne Theorin a Brünnhilde da representação de hoje e bem diferente do libreto de Wagner, mas ópera é algo dinâmico sempre em evolução... por coincidência Siegfried é um compatriota meu, o canadiano Lance Ryan. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Concerto da Páscoa - Um magnífico serão musical!

Após uma longa espera para se ouvir novamente no Faial um novo concerto da Horta-Camerata, orquestra que tem marcado positivamente pela qualidade musical ímpar o reportório erudito que se tem interpretado nesta ilha ao longo dos últimos anos, foi com elevada ansiedade que esperei pelo concerto Sinfónico de Páscoa 2013 e confesso que valeu a pena. 
A primeira parte foi inteiramente preenchida pelo Concerto para Piano e Orquestra n.º 8 de Mozart, sendo solista Alexander Kuklin, que atualmente desempenha atividade de professor convidado na ilha Graciosa.
Além da sempre agradável música de Mozart, Alexander Kuklin tocou esta obra clássica respeitando o estilo da época e resistindo a certas tentações frequentes nalguns intérpretes de expressarem com maior intensidade a emoções do período romântico e por vezes mascaram a fluidez do estilo clássico original. Assim, neste concerto foi bom ouvir-se Mozart a respeitar o estilo da época de Mozart na sua forma alegre e contida como este compositor brincava com as teclas e a música.

A segunda parte começou por recuar ao barroco no larguetto da ópera Berenice de Händel, uma linda composição musical, tocada com a sensibilidade adequada e que nos preparou para  o regresso ao período clássico com a sinfonia 43 de Haydn - Mercúrio mas agora anterior a Mozart.
Uma Sinfonia onde os temas são repetidos com subtilezas de modulação e variações que mostram a genialidade do Haydn e preparam o ouvinte ir descobrindo a evolução desta música e a reconhecer as suas principais frases de forma a ficar cativado pelos temas principais dos vários andamentos e sem dúvida que a qualidade posta na interpretação, mesmo com músicos amadores, soube tirar partido máximo das particularidades desta sinfonia. 

Por fim uma palavra para a direção musical de Kurt Spanier que mais uma vez mostrou que sabe descobrir, selecionar e potenciar ao máximo músicos dispersos por estas ilhas e não só, nas sua grande maioria ainda jovens mas com grande talento, e ainda consegue juntá-los e em poucos dias viabilizar concertos de grande qualidade de interpretação.
Uma palavra para os músicos que apesar de terem sido afetados por uma greve de transportes para chegar ao Faial, mesmo assim com o seu saber, talento e empenho foram capazes de chegar a um patamar de qualidade de interpretação e integração na orquestra de forma a conseguir um magnífico serão musical!
Parabéns!

sábado, 23 de março de 2013

Concerto Sinfónico da Páscoa 2013


Uma boa notícia nestes dias é a retoma dos tradicionais concertos da Páscoa executados pela Horta-Camerata sob a direção artística de Kurt Spanier.
Assim no domingo de Páscoa, pelas 21h30, as obras de Haendel, Haydn e Mozart vão ser ouvidas no Teatro Faialense.
Os bilhetes já se encontram à venda... aproveite!

sábado, 9 de março de 2013

Comparações: Arpegionne, Viola ou Violoncelo?

Tal como a música evolui ao longo dos tempos, também os instrumentos foram sendo alterados, não posso dizer que foi sempre para melhor, mas pelo menos foram-se adaptando aos gostos dos tempos e às tecnologias, alguns instrumentos deixaram mesmo de ser produzidos e daí por vezes se ver nas etiquetas das obras, a informação com instrumentos da época, para indicar que foi com aquela sonoridade que em princípio o compositor compôs a obra.
Um dos instrumentos que desapareceu foi o arpeggione, considerando que o piano-forte terá evoluído para o atual piano, o que não é assim também tão linear.
Abaixo três interpretações de uma obra originalmente composta para arpeggione e piano-forte e que atualmente tende a ser tocada com viola e piano ou violoncelo e piano.

Assim, nos instrumentos de época:



Agora com viola e piano:


Finalmente com violoncelo e piano


A preferência fica por conta de cada um, mas não há dúvida que soa diferente!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dia Internacional da Música um compositor açoriano

Ao longo de todo o ano ouço sobretudo música erudita não nacional... hoje, no dia internacional da música uma exceção: duas interpretações por sopranos portuguesas, numa canção composta pelo açoriano Francisco Lacerda.

A sua preferência fica ao critério de quem ouvir as duas variantes da mesma obra.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Recordando o Concerto do Varadouro de 2012

Embora um pouco atrasado, aqui ficam duas fotos do excelente concerto no Varadouro ocorrido este ano e aqui divulgado.
Além do prazer que foi ouvir um cravo magnífico no Faial, tocado por Gustaaf van Manen, importa elogiar Rodrigo Lima, que já ouvira ao vivo em 2010, conforme então divulguei neste artigo.

Presentemente, Rodrigo Lima está cada vez mais maduro e confiante, aspetos que se refletem na sua performance, tornando-o num magnífico flautista açoriano e capaz de conduzir o concerto como aconteceu neste trio. Uma excelente noite de música.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Segréis de Lisboa na Matriz da Horta


É já amanhã, dia 21 de abril, na Matriz da Horta, pelas 20h30, os Segréis de Lisboa com música ibérica do renascimento e integrado na Temporada de Música Açores 2012, promovida pela direção regional da Cultura.