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domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

sábado, 14 de dezembro de 2019

"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa-Luís


Excertos
"O que sabem as mulheres dá para arrasar montanhas."

"A experiência faz o cavalheiro, o treino faz a profissão."

" - Abandonas a política? ...
- Nunca. É como uma árvore que não dá fruto mas que dá sombra."

Acabei de ler o último romance escrito por Agustina Bessa-Luís (escritora portuguesa de culto, talvez aquela com a produção literária mais profícua do século XX de cerca de 50 livros, maior número de prémios e recentemente falecida): "A Ronda da Noite".
O romance roda em torno da vida de Maria Rosa: uma mulher bonita, casada no Porto na família burguesa Nabasco, que gosta de se vestir bem, ir às compras e de receber na sua casa amigos que comentam a sociedade portuguesa. A narrativa também se debruça sobre o neto Martinho que a protagonista criou e vive na mesma casa. Os Nabascos ricos vivem ociosamente do seu nome, das relações sociais com um passado próximo da realeza e do seu património constituído por moradias rurais e no Porto. O marido de Maria Rosa tem um quadro que não se sabe de onde veio, se é o original ou uma réplica de A Ronda da Noite de Rembrandt, esta obra vai impondo a sua presença na família e no desenvolvimento da personalidade de Martinho, que não tem uma profissão, se ocupa do restauro das casas da família e para o qual a avó até lhe criou e lhe entregou a mulher, órfã, acolhida e filha de uma mãe assassinada e de pai preso.
Como na generalidade dos romances de Agustina, as mulheres são as personagens fortes, neste Martinho ocupa um papel relevante, mas a sua fragilidade, inadaptação social e indecisão servem de contraponto à força de Maria Rosa. A narrativa é marcada pelo seu estilo habitual de divagações a partir de um tema que vão divergindo e entroncar-se noutro e retomado outra sequência, onde a estória vai sendo composta por sobreposição deste fluxos narrativos aparentemente caóticos.
Assim, como habitual nos livros que li de Agustina, a estória dá-me a sensação de se ir compondo lentamente como no pintar de um quadro a espátula que vai traçando diferentes manchas, ora num local da paleta, ora noutro e a imagem vai sobressaindo desta montagem.
Pelos ditos sábios de Maria Rosa que não carecem de demonstração, dos seus criados mais próximos, pelos hábitos do marido, pelas conversas oportunistas dos amigos onde uns vão desaparecem novos e outros a acompanham e envelhecem, pelos reparos do comportamento social do norte e dos portugueses, pelas denúncias dos vícios ocultos dos Nabascos ou da burguesia portuense, pelas mudanças de comportamento desde o tempo do Estado Novo, Revolução de Abril, democracia e integração Europeia, pelos interesses da sua filha como herdeira do património da família, casada em segundas núpcias com um oficial da armada em Lisboa e mãe dos outros netos distantes, "os cadetes" com um estilo mais contemporâneo e urbano; Agustina faz um retrato social do Portugal burguês, do norte do País e das pessoas que vivem em torno deste estrato social e do evoluir político.
Entretanto, a Ronda da Noite, que obrigou a obras em moradias para o seu acolhimento, que se suspeita do seu elevado valor, vai-se impondo cada vez mais pelas suas personagens e diferentes, posturas no quadro sobretudo a Martinho, até à solução final e degradação desta família.
As obras de Agustina, são assim: peças de culto, para muitos difíceis, que se vão abrindo ao leitor que se entregar passivamente a uma narrativa sem pressa e sem uma linha única do tempo ou espaço que no fim compõe um excelente quadro como o da mais famosa obra de Rembrandt e eu continuo fã desta escritora que de forma única mostra este Portugal cheio de defeitos mas de que se gosta.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Antigas e Novas Andanças do Demónio" de Jorge de Sena


Acabei de ler "Antigas e Novas Andanças do Demónio" do português Jorge de Sena, naturalizado brasileiro por fuga à ditadura e depois autoexilado nos Estados Unidos pela mesma razão.
Considerado uma dos maiores escritores de ficção, ensaio e crítico de literatura português de meados do século passado, este livro é uma coletânea de contos publicados em dois editados ao longo da década de 1960 em Portugal: Andanças do Demónio e Novas Andanças do Demónio.
Os diferentes contos têm estilos diferentes, nota-se que Sena experimentou correntes literárias como o neorrealismo, o realismo mágico e o simbolismo, entre outras, e dissertou sobre temas variados: textos com personagens bíblicas e históricas, demência geriátrica e de ideologia ditatorial, solidão, erotismo e paganismo, por onde atravessam males da humanidade ou que a influenciam nesse sentido, ora com humor, ora em retrato negro, toca estilos infantis e também reservado a adultos.
Alguns contos divertem: "A Razão de o Pai Natal ter barbas brancas" onde o menino Jesus narra com inocência infantil e humor como escapou aos ardis do demónio, abre esta série e ouvi-o ainda adolescente. Foi a saudade deste texto que me fez comprar o livro e li-o no mês do centenário do nascimento de Jorge de Sena.
A velha solitária que da janela se excita a espreitar um par de jovens apaixonados com um final surpreendente; o oficial nazi que expõe a sua justificação da supremacia germânica para tolerar abusos sobre homens, mulheres e crianças de outros povos; os últimos dias difíceis, na miséria e doente, de Camões apoiado por sua mãe; e o diálogo do convertido Paulo de Tarso com um chefe da casa de imperadores como Tibério e Nero onde ocorrem atos sádicos por prazer no palácio; são contos que marcam o leitor, não pelo prazer mas pelo choque da crueza do conteúdo.
Os milagres do frade para vencer os salteadores e as embrulhadas genealógicas que o espírito da sua árvore acompanhou através de mortes e reencarnações das gentes da sua aldeia em diferentes animais típica das crenças animistas que além de lições de moral são contos atravessados por humor.
Esta edição têm ainda os prefácios originais dos dois livros originais e notas escritos pelo autor. 
Jorge de Sena escreve muito bem, embora com tendência para parágrafos muito extensos com uma sequência de muitos pormenores, ideias encadeadas e riqueza lexical que exige atenção e esforço para acompanhar a narrativa, por vezes fez-me lembrar Proust, mas sem dúvida é um mestre no domínio da língua portuguesa. Espero voltar a este distinto escritor.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

"Eu creio que a Verdade Crua Cura" de Nuno Sobral


Acabei de ler a obra de ficção "Eu creio que a verdade crua cura" do português Nuno Sobral, residente em Aveiro que conhece este blogue e por ele tomou a iniciativa de me oferecer o seu segundo livro, recentemente publicado e sem qualquer contrapartida.
Estamos perante uma pequena obra dividida em três partes: 1ª. Prólogo, onde em primeira voz se ouve Maria Baptista a contar a sua vida de criança acolhida, abusada pelo trabalho e sexualidade, entregue para casar, viúva numa década que depois para sobreviver se tornou bruxa, mantendo as obrigações da sua religião. 2ª. Narrativa, dividida em capítulos, onde alguém conta uma ação de Maria feita a pedido de um padre na sequência do apelo de Briolanja, afilhada de Juliana e por esta acolhida e escravizada, que assistiu à morte desta a profetizar que encarnaria num gato enquanto o seu próprio desaparecia tal como a sua fortuna. 3ª. Epílogo, onde Juliana conta as sua desditas da vida, a importância do seu animal até ao esconderijo do seu tesouro. Deste modo, num jogo de espelhos e a três vozes se completa a estória cuja estrutura e dimensão estará entre um conto extenso e uma pequena novela.
A primeira e última parte do texto têm o tom das lendas rurais sobre mulheres infelizes cujo amor por elas passou rápido e se foi. A narrativa central parece um conto de Edgar Allan Poe com tom de mistério e junção do sobrenatural e análise pseudocientífica da crendice, aqui temperada por um humor sarcástico do terror típico da ignorância popular e dos aproveitamentos dos oportunistas.
Nuno Sobral escreve de forma escorreita numa prosa poética e com agilidade e criatividade capaz de dar às diferentes partes tons distintos sem a obra perder a sua homogeneidade interna, o que dá prazer descobrir e ler.
Gostei deste pequeno livro e recomendo a sua leitura a quem quer conhecer pérolas literárias que se publicam em Portugal fora do círculo imposto pelas grandes editoras nacionais onde abundam interesses comerciais que ofuscam estas preciosidades.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires

Citações
"Na Comarca dos Doutores onde se via pobreza devia ler-se modéstia"

Acabei de ler a pequena obra de José Cardoso Pires "Dinossauro Excelentíssimo" escrito entre 1969 e 71 como uma fábula satírica ao ditador Oliveira Salazar que desde o original tinha um conjunto de desenhos a representar o texto e curiosamente o livro passou pela censura e até serviu de argumento de que havia liberdade de imprensa no Portugal então.
A obra pretende ser um conto narrado a uma criança: Ritinha, nele se fala do nascimento de uma criança de família humilde em meio rural cujos senhores da terra discutiam o seu futuro, tendo os pais conduzido-a à Universidade na Cidade dos Doutores deste país onde o povo era mexilhão ignorante que sofria às mãos dos DêErre. Depois com o Estado caótico os Conselheiros DR vão buscá-lo para gerir o País e este cria uma revolução das palavras, fecha-se na sua torre onde doutrina com aplausos os mexilhões que dão graças à sua pobreza defronte da sua Estátua que mostra aquele poder estático, enquanto os Conselheiros aplicam as leis emanadas por este Dinossauro e asseguram a sua idolatria, um Mestre tão isolado em sofrimento pelos seus mexilhões... até que um acidente fará que haja um líder que  pensa governar quando na realidade os Conselheiros criaram um executivo paralelo e com a ideia que tão Excelentissíma pessoa ainda dirige estes mexilhões. 
O texto imensamente divertido está cheio de referências metafóricas e satíricas dos honrosos elogios ocos dados a Salazar e ao regime, muitas vezes com paráfrases e excertos de provérbios e ditos populares que insinuam a verdade oculta e denunciam a realidade do Portugal miserável e ignorante de então, através do recurso a uma escrita criativa que trabalha de uma forma magistral as palavras, a pontuação e a forma de impressão na obra decompondo e metamorfoseando estes aspetos de modo a insinuar problemas reais sem os dizer.
Lendo este livro não compreendo como esta fábula satírica ou paródia à ditadura passou o crivo da censura, a verdade é que José Cardoso Pires com os seus romances abriu horizontes literários em Portugal e foi através dele que me reconciliei com literatura que se fazia neste País nas décadas de 1960 e 70 e foi com ele que saltei dos simples livros de entretenimento policiais e fáceis para obras mais profundas e ricas. Dinossauro Excelentíssimo mostra bem o valor, a imaginação e a frescura deste escritor que me cativou que há anos não lia, um excelente e divertido livro melhor compreendido para quem sabe a história da ditadura do Estado Novo e sobretudo os seus anos finais.

domingo, 13 de outubro de 2019

"Autobiografia" de José Luís Peixoto

Excerto
"... os segredos sem alguém que os guarde são o desconhecido."
"Muitas vezes , os outros não nos deixam mudar porque não estão dispostos a mudar a forma como nos veem, fazê-lo  implicaria que eles próprios mudassem."

Já foram muitos os livros que li do atual escritor Português José Luís Peixoto (JLP). Aliás, foi com ele que despertei para a literatura que se ia fazendo neste País no início do século XXI pelas novas gerações, logo, sempre que leio quem já tanto me impressionou qualquer nova leitura arranca numa perspetiva elevada. "Autobiografia", tão divulgado e cheio de elogios críticos nos OCS, obriga-me a que a minha apreciação a este livro tenha de ser liberta de ambos efeitos.
"Autobiografia" recentemente publicado passa-se em 1997/98 quando José, um jovem com vontade de se tornar num bom escritor, com apenas o seu primeiro romance publicado, pretende escrever o segundo e se vê perante a encomenda de fazer uma biografia ficcionada do já reconhecido autor José Saramago e com este entra em contacto para levar a cabo esse trabalho. Paralelamente, Saramago não só lê em segredo o único livro de José como revê nele as suas angústias e potencialidades de iniciante na arte literária no começo da carreira. Decide então ajudá-lo sem José se aperceber, até porque este também está a lutar com vícios privados que o conduz a situações extremadas e uma relação amorosa  que perturbam a sua perceção da realidade.
A partir destes temas JLP constrói uma teia de textos que intercalam pura ficção, apresentação de aspetos reais da vida de Saramago até à atribuição do prémio Nobel e ainda reconstruções imaginadas do passado deste, a que mistura o dia-a-dia da personagem José e das pessoas à sua volta, família, amante e amigos, bem como excertos do seu trabalho biográfico e descrição dos contactos dele com o escritor. Deduz-se a integração e recriações das memórias do verdadeiro intercâmbio ocorrido entre Saramago e JLP, em parte associado à atribuição do prémio Saramago a este, então um jovem escritor e recebido pelo seu segundo romance.
Assim, este livro com influências pós-modernas de fusão da ficção com a realidade, a inclusão de notas de rodapé do protagonista sobre o texto que estaria a escrever, a menção de obras importantes de Saramago e uma escrita criativa que mistura estilos distintos para expor realidades diferentes e ainda com a própria forma de escrever de JLP, que no presente já não consegue me surpreender como nos seus primeiros livros. Tudo isto gera um jogo de espelhos da admiração de JLP a Saramago e o respeito deste àquele demonstrado quando da aproximação entre os dois, a que acresce as angústias de um escritor enquanto jovem versus a maturidade do idoso reconhecido já como mestre.
Nem sempre leitura é fácil, não só porque este jogo de espelhos nem sempre é evidente no início de cada parágrafo, como também os saltos no tempo e entre a realidade e a ficção levam a que o leitor se possa perder ou estranhar o teor da narrativa numa escrita que não perde a criatividade e poesia na diferentes formas. Gostei e para quem gosta dos dois escritores por trás desta obra ou queira conhecer as dificuldades desta carreira recomendo este romance, cheio de particularidade e originalidades.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

"Um Crime na Exposição" de Francisco José Viegas


Excerto
"A Expo  é esse desígnio e nada a pode prejudicar, nem um crime, nem dois, nem, muito menos, três crimes como parece ser o caso. Três crimes destes seria a glória de qualquer romancista, evidentemente, não se desse o caso de estarmos a falar de Expo."

"Um crime na Exposição" de Francisco José Viegas (FJV) é o segundo romance deste escritor que leio. Uma personalidade pública dos média portugueses e se a primeira obra me tinha interessado, a segunda fez-me render ao seu  estilo particular de literatura policial.
O inspetor Jaime Ramos foi remetido do Porto para Lisboa durante a Expo'98 como pena de uma exaltação excessiva com um criminoso. Na Exposição ocorre o crime de um biólogo marinho encontrado no aquário, um investigador de rocaz-dos-Açores e a quem lhe cortaram um dedo do pé. Dois dias a seguir uma colega do oceanário, mexicana e amante daquele, também estudiosa da mesma espécie, é morta com evidências do crime ter sido perpetrado pelo mesmo autor. Segue-se o assassínio de uma arquiteta paisagística desta feira. Tal série tem o risco de gerar um escândalo que estoire o desígnio de Portugal neste evento. Entretanto, líderes políticos aproveitam-se para atacar o governo, existem relações diplomáticas em perigo por as vítimas estarem ao serviço de diferentes países ou terem aparecido em pavilhões de Estados estrangeiros. O protagonista - desenraizado do seu Porto nesta capital que lhe é estranha, com o seu vício por cigarrilhas dos Açores, a sua paixão pelo seu clube e com o seu habitual ajudante Isaltino de Jesus - vê uma teia que envolve amor, traição e espionagem científica internacional, ausculta o subinspetor Filipe Castanheiro em Ponta Delgada sobre as atividades universitárias nos Açores das vítimas, onde um cadáver é descoberto aparentemente sem qualquer relação e um professor disserta sobre estes jovens.
A originalidade da narrativa de FJV está que a investigação policial não gera um suspense acelerado. A intriga é um acessório que se vai desenrolando aos poucos, com pistas e descobertas ao ritmo do dia-a-dia, sendo atravessada por divagações, comportamentos e palavras das personagens sobre a solidão e o envelhecimento masculino; as paixões e os vícios dos portugueses, e à descrição poética da beleza geral e dos recantos magníficos que existem nos locais da ação. Uma divulgação dos principais atrativos do País e Regiões citadas.
Na narrativa há ainda a interferência de personalidades e entidades públicas reais que agem de forma coerente com a imagem delas e, de uma forma saudável, expõem-se as rivalidades conhecidas entre as instituições as pessoas mencionadas, fazendo-se uma crítica com humor à sociedade portuguesa.
Não conheço nenhum açoriano que descreva de forma tão encantadora e solitária a ilha de São Miguel e a cidade do Porto como as personagens criadas nos livros de FJV, cuja força permite que as mesmas atravessem já um conjunto de romances de anti-heróis que marcam o leitor. Por tudo isto gostei muito desta obra que é também um livro de viagens por Portugal e pela Expo'98 com uma escrita bem cuidada e de qualidade, cujo cerne é um romance policial mas não um thriller.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas

Excerto
"Falta-te alguma experiência literária para seres um bom polícia. Todos nós devíamos, antes de entrar para isto, ler uma biblioteca."

"Um crime capital" foi o primeiro livro que li de Francisco José Viegas, homem dos meios da comunicação social e da cultura em Portugal e com vários livros publicados de poesia e policiais traduzidos e é nesta última categoria que o presente romance se insere.
Após a realização de um concerto de música erudita integrado na organização do "Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura" um casal de ouvintes é descoberto morto na bancada do anfiteatro, pouco depois um brasileiro do sistema informático do evento é baleado. São estes os pontos de partida para o velho polícia da judiciária Jaime Ramos investigar, então cruzar-se-á com uma antiga amante envenenada que lhe deixa recordações antigas, com uma rede de contrabando de quadros de pintura brasileira que tem como base a cidade do Porto e usa este evento europeu em proveito próprio, com a descoberta de adultério entre casais de sócios inimigos públicos mas cooperantes na clandestinidade e com um advogado de um clã do Brasil da alta-finança e comércio de arte que faz a ligação entre o interesses nestes dois países lusófonos.
Este romance é um exemplo de que uma obra do género policial pode também ser uma boa obra de escrita literária, fornecedora de informação cultural  que aproveita um acontecimento histórico, neste caso a Porto-2001, tendo mesmo sido publicado em folhetins num jornal da cidade durante aquele importante evento cultural, mantendo um vertente lúdica, de mistério e qualidade cultural.
Um romance que descreve com poesia e realismo a paisagem e o clima da cidade do Porto, que fala de prazeres particulares em forma de hábitos e tem a inteligência de apresentar pintores brasileiros e falar de livros, semeando interesses culturais sem maçar o leitor e assegurando o ritmo da narrativa. Jaime Ramos é um detetive à moda antiga, com gostos pessoais bem vincados, fugindo à disciplina burocrática e desencontrado com este presente informatizado e acelerado, ama o seu Porto belo, chuvoso e com passado e de onde é capaz de fugir à revelia das regras para pensar com cabeça fria e à distância, numa ilha dos Açores de onde descreve maravilhas que passam fora da rota do vulgar turista deste Arquipélago.
Gostei muito e lê-se com facilidade e com qualidade de escrita, informação e formação. Espero voltar ao escritor.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Contos de Clarice Lispector


Este livro contém 61 contos daquela que é uma das principais artífices da escrita em língua portuguesa de todos os escritores de expressão lusa no século XX: a brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia. Este conjunto tem contos de extensão variada e só não reúne os que foram publicados pela primeira vez sob o título de obra "Laços de Família", pelo que poderíamos dizer que é uma coletânea de quase todos os contos desta autora.
Os contos não são uniformes em termos de extensão: vão de apenas uma única página até próximo da trintena; as temáticas são diversas, desde questões sociais, infância, problemas da degeneração pela velhice e indo até aos desejos corporais mais básicos; e o estilo de escrita é diversificado, até porque entre os mais antigos e os mais recentes há um espaço temporal de mais de três décadas, contudo todos estão excelentemente escritos, uns numa linguagem linear simples, como "Viagem a Petrópolis", outros com monólogos interiores e fluxo da consciência com técnicas modernistas que requerem um certo esforço para a compreensão da narrativa "Seco estudo de cavalos". Também não posso dizer que gostei de todos igualmente, uns deram-me grande prazer de ler, outros não tanto e alguns até foi com sacrifício que concluí a sua leitura.
Nesta coletânea, os contos estão arrumados e sequenciados de acordo com os livros em que foram inicialmente publicados, ao todo cinco, sendo evidente que a harmonia dentro destes conjuntos é maior que o todo, mas o que mais destaco é a mestria do domínio da escrita e da língua, alguns textos serão morais, outros amorais e até alguns por vezes a roçar o imoral ou a expor os íntimos desejos de uma mulher como os que foram publicados em "A via crucis do corpo", talvez os mais fáceis mas que gostei menos.
Antes apenas lera o romance/novela "A paixão segundo G. H." que adorara, alguns contos retomam o estilo e as obsessões: baratas, cabelos ruivos, náuseas animais e deambulações em torno de pormenores. Esta leitura serviu sobretudo para admirar a genialidade da escrita.

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Os loucos da rua Mazur" de João Pinto Coelho


Acabei de ler "Os loucos da rua Mazur" do escritor português João Pinto Coelho, o romance que venceu o prémio Leya em 2017. É o segundo livro que leio deste autor em menos de um ano e ambos com memórias de sobreviventes ao período da II Grande Guerra na Polónia sob a ocupação estrangeira.
Um livreiro idoso em Paris em 2001 é contactado por um escritor famoso e sua mulher editora, pretendem escrever a história do que se passou na sua cidade durante a II Grande Guerra, logo se descobre que entre os três houve um passado longínquo juntos que deixou feridas muito fortes. A escrita desse passado dói a todos e assim vai sendo composto o que se passou naquela cidade no leste da Polónia, onde duas comunidades: uma cristã e outra judaica, coexistiam em bairros distintos onde a desconfiança mútua era fomentada pelos seus líderes, mas toleravam-se em tempo de paz. É neste burgo que eles adolescentes se tornaram amigos: um cego judeu, outro cristão e ela filha de uma proscrita suspeita de bruxaria. A amizade cresceu, mas a paixão alimentou o ciúme do preterido, então o País é invadido, a zona é primeiro ocupada por estalinista que querem moldar as pessoas, a pressão é então mais forte com os polacos, os outros temem mais os que invadirão depois, os nazis, mas a retaliação pior será a vinda dos polacos. Nesta guerrilha o ciume leva à traição de uma amizade que deveria ser superior aos diferendos da cidade.
Um livro, que intercala capítulos do passado com mágoas do presente, denuncia uma realidade passada na Polónia que hoje muitos pretendem reescrever para apagar a sua culpa, existem memórias muito negras neste romance, há culpados em todos os lados, mas neste terror nem sempre foi preciso os nazis agirem, muitos aproveitaram a guerra para sujar as mãos em nome da fé, do racismo e da intolerância à sombra de um País ocupado por ditadores estrangeiros.
A escrita é escorreita e simple serve de suporte ao relato de uma história pouco falada que envergonha muitos polacos. Fácil leitura.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

"Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" Gonçalo M. Tavares


Citações
"Se fizéssemos um cálculo do ritmo a que antes se caminhava pelas cidades e comparássemos com a velocidade actual concluiríamos que as pernas acompanham a evolução da técnica: está tudo mais rápido e as pernas não são excepção;"

"Não podemos observar enquanto fugimos"

"todos temos momentos em que olhamos para o lado errado e em que aquilo que é significativo acontece precisamente nas nossas costas."

Acabei de ler o pequeno mas magnífico romance "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" do escritor português contemporâneo Gonçalo M. Tavares.
Marius encontra na rua uma menina com trissomia 21 que diz chamar-se Hanna, estar perdida, procura o pai e faz-se acompanhar de uma caixa de fichas de ação de um curso educacional para crianças com desadaptação aos outros. A partir deste encontro começa uma caminhada de busca ao longo da qual Marius se cruza com personagens ímpares: um homem que cola cartazes em ruas secundárias para mudar a humanidade; um fotógrafo de animais que pretende também tirar fotos a Hanna; os judeus donos de um hotel que é o mapa dos campos de concentração nazi; o antiquário que dorme cercado de livros que quase o sufocam; os artista de miniaturas que a maioria não consegue ver e o homem de quarto Terezina obcecado com o equilíbrio do peso do que possui com o que tem, enquanto a menina consegue despertar sorrisos e simpatia à sua volta e requer permanente proteção daquele que a encontrou.
Gonçalo M. Tavares continua a ser o escritor português atual que mais me fascina, alguém com uma escrita única que denuncia a desumanidade da era da técnica na sociedade atual que sufoca sentimentos e cria personagens aberrantes. Os seus livros, na generalidade, desenvolvem-se num meio germanizado e este romance não é exceção, sem nunca dizer o país onde se situa, acaba em Berlim e os nomes e situações desenvolvem ambientes que se sente ser alemão, mas esta obra tem a ternura despertada por Hanna magistralmente narrada na passagem com a contabilidade de sorrisos despertados na rua.
As diferentes estórias que resultam do contacto com as personagens que vão desfilando no livro criam um romance que além de ser uma obra de arte literária, compatibiliza a frieza dos livros negros do autor com a ternura e simpatia de uma adolescente com trissomia 21 perdida no século onde a falta de calor nas relações humanas é uma característica transversal aos indivíduos que formam a sociedade contemporânea. Gostei muito e não consegui parar de ler esta fascinante obra.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Dois Irmãos" de Milton Hatoum


Estreei-me no escritor brasileiro Milton Hatoum com "Dois Irmãos" prémio Jabuti de 2001 e confesso que gostei muito da sua escrita, do seu modo de narrar, retratar Manaus e de expor conflitos psicológicos que moldam as suas personagens.
Dois Irmão narra a história de uma família de origem libanesa em Manaus vinda no início do século XX, a primeira geração de pai e filha, cristãos maronitas, o casamento desta com outro imigrante muçulmano, um pinga-amor apaixonado de um erotismo exacerbado pela sua mulher e depois dos seus três filhos, onde se destacam os gémeos Omar e Yaqub que desenvolvem um ódio figadal na adolescência ao amarem a mesma moça. A partir daqui, com base no que observou e lhe foi dito, Nael (filho de um dos gémeos com uma índia acolhida na família e a personagem mais equilibrada do conjunto) narra não só o desenvolvimento de Manaus ao longo de mais meio século, como a vida quotidiana típica num bairro do centro desta cidade e ainda o declínio desta família em virtude da rivalidade dos irmãos: Omar, um superprotegido da mãe com comportamento devasso e profissionalmente irresponsável, e Yaqub, votado a um maior desprezo que é o oposto do seu irmão tornando-se num engenheiro de sucesso, enquanto a irmã vive tentando equilibrar este conflito que se estende aos pais e tenta preservar o legado do passado.
A escrita com parágrafos extensos e grande recurso ao vocabulário local, faz magníficos retratos da região do Amazonas, da forma de vida do povo no centro de Manaus e explora o drama, com momentos de grande tensão, juntando com frequência um humor aos sentimentos hiperbólicos e por vezes sarcástico, o que suaviza as situações paroximais de expressão do ódio e dá um ambiente que chega a ser divertido no seio da dor que vai massacrando toda a família.
Se não gostei da devassidão destrutiva de Omar, adorei a qualidade da escrita e a força posta no conflito de sentimentos e a capacidade de retratar uma Manaus que penso ter desaparecido com a modernidade e  expor a sua gastronomia, são aspetos por que vale a pena conhecer este livro e este escritor.

terça-feira, 19 de junho de 2018

"Meridiano 28" de Joel Neto


Excertos
"A primeira impressão que José Filemom teve da Horta foi essa: a de uma cidade que entardece à sombra, como lhe houvessem amputado metade do dia...
...
Na manhã seguinte, porém, uma luz radiosa veio dos lados do Morro da Espalamaca, projectou-se no mar, incendiou as arestas do casario e as torres das igrejas, e o Pico explodiu em frente, imperial, como restos de uma civilização que uma tragédia tivesse devolvido à superfície."

"Na sua cidade, naquela pequeníssima cidade atirada para os altos encapelados do oceano, escondia-se, afinal, uma chave para entender o seu país."

"Muitas vezes os crimes mais hediondos são cometidos a pretexto dos sentimentos mais elevados."

Não me é fácil falar do romance "Meridiano 28" lançado este mês pelo escritor Açoriano Joel Neto. Não só porque cruza várias estórias em diferentes tempos, locais e em estilos distintos (o que dificulta qualquer sinopse sem desvirtuar a ficção e sem revelar a trama); como também estas estórias retratam a cidade Horta e mostram o seu papel fulcral no mundo ocidental nos anos que antecederam à II Grande Guerra e durante esta  (o que moldou o seu carácter cosmopolita liberal e a transformou numa urbe muito maior e mais importante que as suas dimensões físicas); e ainda porque o autor não perde a oportunidade para expor a ilha durante o vulcão dos Capelinhos já em 1957/58 e até faz várias "selfies" dele com a Horta nos tempos atuais (mostrando o que esta é agora em 2018) e com tudo isto, além da estória, faz História.
Importa desde já deixar claro que este romance escrito por um Terceirense e cuja trama se centra na Horta, não é um livro regional, é uma peça literária de categoria nacional que ombreia com obras contemporâneas de referência no País e digna de traduções fora da lusofonia. É uma obra que pela sua profundidade e riqueza literária é universal e é literatura nascida nos Açores destinada ao mundo, tal como já fizeram outros escritores de renome em relação às suas terras: Victor Hugo com Paris, Érico Verríssimo com o Rio Grande do Sul e Eduardo Mendoza com Barcelona, só para citar alguns exemplos do passado ao presente.
Ao nível da trama, a Filemom, nascido no Faial, desenraizado da sua terra natal e gestor de um site de citações literárias, é encomendado a biografia de alguém que lhe é próximo e terá desmascarado um criminoso nazi refugiado na Horta. Na sua investigação, ele tem acesso a cadernos diários do pretenso herói, desloca-se à ilha e descobre a pujança social e cultural desta terra onde escalaram as rotas dos hidroviões entre Europa e os EUA, visitada por estrelas mundiais e onde residiam os locais e famílias inglesas, americanas, alemãs, entre outras nacionalidades, por aqui estarem sediados os nós de amarração dos cabos submarinos das empresas comunicação telegráfica entre o velho e o novo mundo, gerando um intercâmbio difícil de igualar noutro ponto do planeta numa cidade tão pequena. O investigador vai assim descobrindo este passado real, com estórias de amizades, tradições, paixões, amores polémicos que mexem com preconceitos, ciúmes e até ódios, concebendo uma grande estória, enquanto o narrador toma ainda contacto com a realidade desta terra hoje e algumas das suas referências atuais. Em paralelo, a vida pessoal deste entra num turbilhão complicado de relações pessoais, problemas de consciência e obrigações. No seu trabalho abrem-se ainda portas para memórias do seu passado em Porto Alegre (RS) e investigações na Alemanha, Praga e Nova Iorque.
Pode-se dizer que além das personagens da trama, há uma personagem principal no livro: a cidade da Horta, no que foi até meados do século XX e é presentemente. Uma cidade descrita paisagística e socialmente, que foi centro dos principais acontecimentos mundiais, que recebeu influências das mais diversas nações do ocidente e assistiu de "bancada" à II Grande Guerra e viu em direto confrontos reais da batalha do Atlântico, num espaço onde pessoas de povos inimigos mantinham o convívio, o respeito e a amizade junto com os locais. Joel Neto disseca tão bem estas personagens que mostra porque a Horta foi designada a mais pequena das grandes cidades do mundo.
Ao nível da escrita, Joel Neto é igual a si próprio, não embarca na moda da escrita criativa que embrulha estórias banais numa revolução de sintaxe e figuras de estilo. Tal como no seu anterior romance: Arquipélago, ele escreve de forma escorreita, sem exageros estilísticos, embora a forma se vá adaptando ao serviço da narrativa, muda se são transcrições do diário, reflexões do narrador, descrições sociais ou geográficas ou desenrolar de ações e assim constrói uma grande estória.
Um dos aspetos interessantes do livro é a inclusão no início de alguns capítulos de paráfrases de grandes obras da literatura mundial. Chega a ser desafiante determinar a fonte, pois recorda-nos outras obras lidas, embora em certos casos o autor dê pistas claras e noutros, não tivesse o biógrafo um site de citações, estas são bem referenciadas. É nesta intertextualidade que ao mostrar a vida social na Horta no auge de brilhantismo somos brindados com entradas de Tolstoi, o que enche de orgulho qualquer Faialense.
Sendo Geocrusoe um blogue que nasceu como de divulgação geológica, não poderia deixar passar as muitas menções ao enquadramento geotectónico dos Açores, mesmo que expostas com um saber presciente da personagem na sua juventude naturalista.
História e estória, onde se cria uma magnífica trama em torno de paixões, sonhos, ciúme e ideologias, narrado de modo emocionante, com trabalho detetivesco e surpresas até ao final. Cruza-se realidade histórica e extrapolam-se factos. Um romance que é um excelente e grande livro e uma magnífica homenagem à cidade da Horta que, sendo diferente, complementa a reconhecida obra "Mau Tempo no Canal" de Vitorino Nemésio. Como Faialense, não me limito a dizer que gostei muito, tenho, sobretudo, que agradecer ao escritor por esta grande obra sobre a Horta.

domingo, 18 de março de 2018

"Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina" de Mário de Carvalho

Excertos

"E a simpleza repugna aos portugueses. Deixar alguém na despreocupação? A fruir dos seus direitos? Isso é antilusitano."

«Ora aí está, aquela minha ideia do geólogo é que era. Isto não há nada como as ciências exactas,»

"Lá em baixo, na paisagem, incrustada na duríssima permanência das coisas, onde só mandam castelos, menires, cromeleques, destoa, azulínea, e sobressalta, com transparência, a piscina modernaça e tratada a poder de fluidos caros e especiosos."

O título do livro "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina", prémio PEN clube de 2003, do escritor português, várias vezes premiado, Mário de Carvalho, já de si indicia que não se está perante uma obra de estilo tradicional, de facto, o autor classificou-a não de romance ou novela, mas de um cronovelema e, segundo ele, o termo é algo que "não rejeita nada e não se sujeita a imposições".
O texto é mesmo uma narrativa que flui naturalmente como um rio de humor agridoce que se encadeia na mudança de narrador, de tempo e de espaço, corre na terceira pessoa ou na primeira, por vezes é meramente descritivo, noutras são diálogos e onde a língua Portuguesa é explorada com uma riqueza vocabular enorme, ora num estrutura gramatical de excelência, mas vai da erudição ao calão, outras desce ao linguajar popular e no desrespeito pelas regras, a roçar o realismo mágico, e lá se vai construindo uma estória que mostra um Portugal sem disfarçar os seus defeitos e vícios comuns.
A trama do livro, numa paródia intercalada de reflexões críticas a Portugal e suas gentes, consiste na existência de dois coronéis reformados que recuperaram casas de campo no Alentejo, um decide ter uma piscina em torno do qual se reúnem e falam das aventuras dos seus tempos de guerra, para obtenção de água contratam um jovem vedor, mestre de xadrez, que nestas funções deambula pelo sul do País onde se depara com vários tipos de aventuras e peripécias no seu carro que chega a ser anfíbio, enquanto o seu tio lhe dá conselhos de macho apesar das suas relações complicadas com mulheres. Por sua vez, as esposas dos militares encontram-se ávidas de aventuras, uma invejando a outra nas suas conquistas, enquanto um filho leva uma vida a fazer graffiti numa caravana, sem dinheiro e no desprezo aos rigores castrenses, tudo isto vai-se cruzando e sendo observado por um mocho e um melro que a tudo assistem e comentam de uma oliveira e acrescentam ou cortam o seu ponto.
Como todas as paródias, o humor atravessa o texto, mas a sátira mordaz aos aspetos da vida do País deixa um sabor agridoce, que o fantástico, que por vezes entra, não apaga. Gostei, este cronovelema, num estilo tão distinto deste romance, mostra bem a versatilidade de Mário de Carvalho, um mestre genial da escrita e da língua Portuguesa e esta capacidade tornam este livro numa obra de arte e um desfile de possibilidades de explorar e tratar o idioma lusitano.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Resistência" de Julián Fuks


O pequeno romance "A Resistência" do escritor Brasileiro Julián Fuks, filho de refugiados políticos Argentinos, o mais recente vencedor do prémio literário José Saramago, é uma obra em estilo de coletânea de curtas memórias do narrador sobre a sua relação com o irmão mais velho, adotado quando recém-nascido pelos pais, e a gestão das questões em torno da integração do mesmo no agregado de acolhimento. Esta situação permite em simultâneo narrar a história de toda a família que, por coincidência, tem grande similitude com a do próprio escritor: também são pais refugiados da Argentina em São Paulo, servindo esta técnica para denunciar alguns dos horrores da ditadura de onde saíam e a curiosidade de se fixarem num país, ainda não democrático, mas onde a simpatia Brasileira permitiu adotarem a nova terra como sua.
A escrita toma a forma de uma sucessão de crónicas brilhantemente escritas, com ternura, elegância e poesia onde o narrador as inicia servindo-se de uma frase ou palavra como mote para reflexões em questões psicológicas, de consciência, de perseguição política, de nostalgia do refugiado e da integração num meio diferente, criando uma espiral de pensamentos e frases fortes que montam um rendilhado em torno da ideia central dessa memória, enquanto o conjunto dos textos forma um caleidoscópio que cria uma visão multicolorida de grande sensibilidade estética dos vários problemas expostos no romance.
Um pequeno livro onde Julian lapida a língua portuguesa e demonstra como ela pode brilhar tanto quanto um diamante e soar com a sonoridade de uma sonata maravilhosa. Uma narrativa temperada pelo amor humano que mostra como a ternura também pode ser uma ferramenta de denúncia das dificuldades da vida e da injustiça política. Gostei muito desta pérola literária e recomendo a sua leitura.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho


Apesar de "Perguntem a Sarah Gross" ser um romance escrito por um português contemporâneo, João Pinto Coelho, a obra nada tem relacionado com Portugal, nem sequer uma referência ao país.
A trama desenrola-se com duas estórias ocorridas em tempos diferentes que se vão alternando na sequência dos capítulos. A mais recente é contada na primeira pessoa pela narradora, esta expõe a sua entrada num colégio de elite no Connecticut fugida do Oregon, as lutas que tem de enfrentar entre o conservadorismo de alguns da instituição na década de 1960, a dificuldade de aceitação de negros no estabelecimento, um problema pessoal que esconde, mas tudo merece a genial proteção da diretora, a mulher exemplar Sarah Gross, da qual ela pouco sabe.
A outra estória percebe-se que tem um narrador distinto, começa no final da I Grande Guerra quando  Henrick Gross, um americano judeu de ascendência polaca, decide alistar-se e contribuir para a independência da Polónia, estabelecer-se na cidade de origem do pai, tornando-se numa importante figura e onde a sua filha Sarah cresce até que a terra é tomada pelos nazis, mudam-lhe o nome para Auschwitz e quase tudo se desmorona, mas a excecionalidade de Sarah floresce. Depois, os dois tramas fundem-se várias décadas depois com suspense, memórias, proteção, dor e se percebe quem contou e quem foi Sarah Gross.
O romance com uma escrita escorreita, e agradável, sem malabarismos de sintaxe ou a seguir as tendências criativas da modernidade, é de fácil leitura, mesmo nas páginas negras do preconceito então reinante nos Estados Unidos ou na descida aos infernos do genocídio judaico. Apesar de recheado de informações históricas, onde os polacos não surgem tão alheios ao antissemitismo, gera suspense na luta de sobrevivência contra a desumanidade enfrentada por Sarah ou nas ameaças sentidas pela narradora e tem um final que em vários aspetos surpreende o leitor. Gostei muito.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A queda de um Anjo" de Camilo Castelo Branco


Terminei a leitura de "A queda de um anjo" de Camilo Castelo Branco, a primeira obra que me lembro de ler deste profícuo escritor português da época de Eça, e apesar de ainda integrada no seu período romântico é essencialmente uma sátira com uma crítica mordaz cheia de humor a um Portugal conservador e oportunista e à classe política.
Calisto Elói, um transmontano de Miranda, casado com uma prima para gerir um património elevado, é um quarentão erudito, de educação conservadora e dedicado aos clássicos da antiguidade de onde extrai uma moral rígida. É então proposto para candidato a deputado em Lisboa em defesa da terra, pois o incumbente no cargo nada faz pela região. Calisto é eleito e aí vem o provinciano para a capital. Apesar do choque com realidades urbanas, a sua retórica permite um sucesso nos debates contra mentes progressistas defensoras da cultura e torna-se numa referência na defesa da moral e do recato, até ao dia em que se apaixona e entra em confronto com tudo o que defendeu, enfrenta a luta de sua mulher para o reconquistar e serve de gáudio aos seus adversários.
Ao princípio o vocabulário rebuscado da obra criou-me dificuldades em entrar, mas o humor e ironia atravessa toda a obra e torna-se tão doce como um papo de anjo. Há aspetos que mudaram muito em Portugal desde o século XIX, mas a mudança de comportamento em Camilo vê-se ainda hoje e infelizmente é muitas vezes para pior e para ações bem menos honestas e divertidas. Gostei e diverti-me muito.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

"A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares


Acabei de ler o pequeno romance de personagens e acontecimentos do domínio do fantástico e dos mitos "A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares. Uma obra que ao longo de cerca de 150 páginas que encadeia personagens e situações irrealistas descritas como normais, mesmo que absurdas, deixando-nos como se estivéssemos numa banda-desenhada ou num sonho e onde os heróis não são necessariamente benéficos nem a sobrevivência ao serviço do bem. a
Alguns relatos com um toque de terror puro mas de tal forma estranho que se torna cómico são expostos de forma fria sem sentimentos mas narrados com uma naturalidade como se vivêssemos numa sociedade apática incapaz de se chocar e onde se cruza o mundo da tecnologia, as revoltas sociais e mesmo factos históricos
Escrita é perfeita, cheia de ritmo e da frieza que caracteriza Gonçalo M. Tavares nos seus livros negros, o que me desperta um prazer de leitura que pouco escritores nacionais são capazes de conseguir, embora a obra tenha soltas pistas de reflexão não é uma obra com mensagem para além do papel lúdico e da capacidade de expor a fealdade de situações com uma beleza estilística inigualável. Gostei, mas será uma obra estranha aos olhos de muitos leitores e como se assistíssemos por dentro a uma luta de anti-heróis num pesadelo que não assusta.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"O Homem Domesticado" de Nuno Gomes Garcia


"O homem domesticado" do português Nuno Gomes Garcia mostra uma distopia que veio instalar na Europa, mais intensamente em França, após uma catástrofe "O Grande Flagelo" que matou a maioria dos homens e em menor escala as mulheres, só que as deixou na generalidade inférteis, e com chegada à Presidência de Marine (suspeito que este e outros nomes não são casuais na obra) onde se construiu uma sociedade com reprodução humana artificial, não uterina e com a geração de machos homogeneizados, submissos ao domínio absoluto da mulher. Após se compreender o modelo social, um acontecimento violento transforma transforma a narrativa quase num policial, onde deduções certas e erradas da estória e justificação política terão a explicação até ao final.
Ao contrário de outras distopias recentes, onde pelo exagero se denunciam tendência e riscos em que a sociedade pode cair, casos de "Submissão" de Houellebecq ou de "Oryx e Crake" de Atwood; Gomes Garcia cria uma realidade distinta da atual, embora sem ignorar ideias atuais, como considerar estereótipos de género não naturais certas características de feminilidade ou masculinidade, preconceitos de que a violência social com origem só no homem, optando assim por um estilo muito mais próximo de Huxley em O Admirável Mundo Novo ou "A Ilha". 
Contudo, ao contrário de muitas distopias que li, onde é evidente a mensagem subjacente, a ideia a passar em "O Homem Domesticado" é algo dúbia. Tanto pode chocar para levar à reflexão sobre certos preconceitos machistas através destes machos completamente submissos onde o papel na sociedade se limita ao estereótipo ultrapassado da mulher como mera serva do homem e até publicamente oculta através com a burka, aqui na versão cache-tout para os machos; como pode ser o de satirizar a ideia supremacista da superioridade da raça branca, loura e de olhos azuis aqui bem degenerada; ou de evidenciar que os atuais defeitos da sociedade não resultam da predominância do homem nos lugares de poder, pois a mulher é bem capaz de criar um sistema opressivo, violento e ditatorial onde a justiça é subjugada ao objetivo político ou até denunciar tiques másculos de extrema-direita em Marine Le Pen. Quem sabe se não será tudo isto em simultâneo?
A escrita é clara, com poucos floreados poéticos como em muitas distopias, sem excluir algum recurso a metáforas e comparações estilísticas para a embelezar literariamente. Um livro fácil de se ler, para alguns terá momentos chocantes, mas não me marcou com a intensidade dos romances do mesmo género e acima citados.