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terça-feira, 4 de março de 2014

"Os irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski


Ao terminar a leitura de "Os irmãos Karamázov" de Dostoiévski compreendi por que este romance é um dos mais importantes da história da literatura: conflito de gerações - exemplo de pai e reflexo nos filhos; conflito de moral - livre arbítrio e opção pelo certo ou prazer; conflito religioso - crente e ateu; conflito de consciência culpa coletiva e castigo individual; conflito sentimental ciúme/ódio/vingança e compreensão/amor/perdão.
Escrito em forma de relato de um observador externo dos acontecimentos por que passaram os voluptuosos Karamazov, o pai e os seus três filhos abandonados à sua sorte que mesmo herdando os mesmos vícios conseguem ser tão diferentes entre si, o romance levanta numerosas questões: a que mais atravessa o livro é se sem Deus tudo será permitido ao homem e se a humanidade sobreviverá? Contudo não se fica por aqui: pode um indivíduo ser culpado pelos outros? pode-se condenar alguém que não tem uma recordação positiva do pai? Podemos construir o nosso próprio inferno e aceitá-lo pela paixão a que nos dedicámos? Como construir um mundo melhor?
Apesar da profundidade da obra, o romance muitas vezes tem a velocidade vertiginosa de um thriller, a tensão de um policial e o romantismo de uma história de paixões e amor fraternal, intercalados com momentos de maior reflexão, sem nunca deixar de ter um estilo de escrita genial, bela e quase sempre fácil que agarra o leitor.
Vários indícios apontam para que o romance devesse prosseguir com um terceiro volume que Dostoiévski já não escreveu, mesmo assim, não deixa de ser uma obra completa que todos devem ler.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Utopia" de Thomas More

Provavelmente se passasse por uma livraria e visse o livro "Utopia" de Thomas More, escrito em 1518 não o compraria, apesar de saber o impacto que o mesmo provocou nas mentalidades do século XVI, do seu autor ter sido chanceler mor no tempo de Henrique VIII, deste o ter mandado matar pela sua fidelidade ao papa e mais recentemente ter sido elevado à categoria de Santo pela igreja Católica e um padroeiro dos políticos.
Todavia ao ter-me cruzado com esta obra em ebook gratuito decidi baixá-la e lê-la. Um livro fascinante, onde Thomas More disserta sobre uma sociedade ideal quase perfeita na ilha imaginária de Utopia, País em que há uma partilha responsável do trabalho entre todos, ausência de ócio pernicioso e a segurança e o bem-estar é assumido pelo Estado a um povo tolerante e inimigo das guerras.
Não subscrevo tudo o que Thomas More propõe, talvez nem ele, é um ensaio sobre um modelo ideal de sociedade e sem dúvida que mesmo decorridos quase cinco séculos é ainda um livro revolucionário que vale a pena ler e refletir.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom

Editora: Saída de Emergência

Há livros que são difíceis de qualificar, "O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom, que também é um médico psiquiatra de profissão, é a obra que acabei de ler e está dentro dessa categoria.
É verdade que expõe duas biografias ficcionadas de duas pessoas históricas reais separadas por quase 250 anos e as suas relações com personagens inventadas e outras reais, como tal pode ser considerado um romance. O texto é pouco estilizado literariamente e é uma abordagem psicológica do escritor que introduz um psiquiatra nas personagens importantes do século XX na obra que faz de ponte entre o racionalismo absoluto do excomungado judeu Espinosa e a confusão irracional em Alfred Rosenberg, admirador dos admiradores de Espinosa que persiste na sua evolução antissemítica e considerado o ideólogo do nazismo e um dos próximos de Hitler que ele idolatrava.
O livro mostra duas solidões: uma que resulta da opção consciente da busca da perfeição pela razão em luta contra superstição das religiões com um Deus humanizado feita por Espinosa num período do século XVII onde a crença se sobrepunha à razão, uma decisão solitária que o libertava. Outra, já no século XX, provocada pela necessidade de reconhecimento público e de admiração no trabalho irracional e preconceituoso de Rosenberg, decisão solitária que o amarrava em crises depressivo-obssessivas já numa sociedade em grande parte laica.
Um Deus racional que se confunde com a Natureza em Espinosa e submetido às leis naturais contra um ídolo irracional que acredita na superioridade ariana e sem humanismo em Rosenberg que procura compreender o filósofo que ilogicamente era judeu, cujo mesmo tipo de sangue negava existir nos seus genes e onde até o psiquiatra de serviço desiste de tanta obsessão doentia e catastrófica.
Um livro forte que pelo contraste pode chocar o crente em dogmatismos religiosos ou o crente no humanismo das pessoas.