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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

"Solaris" de Stanislaw Lem

Excertos
"Seria possível a existência de pensamento sem consciência?"

"-E como é que tu sabes quem és?"

Acabei de ler o romance de 1960 "Solaris" do género de ficção-científica e escrito pelo polaco Stanislaw Lem, que é em simultâneo uma obra de análise filosófica sobre a questão da individualidade, da identidade pessoal, da necessidade de comunicação humana, da inteligência e até da questão de Deus. Um livro considerado de culto neste campo literário, pela sua qualidade e profundidade de análise, complementada com um drama romântico que já deu origem a dois filmes, um em 1972 e outro em 2002.
Kelvin, um psiquiatra, é mandado da Terra à estação sobre o planeta Solaris que orbita em torno de dois sóis, devido a preocupações narradas por um cientista ali estabelecido e antigo professor do médico.
Chegado ao destino, Kelvin é recebido com frieza e medo por um tripulante, sabe da morte do professor e que o outro investigador se está a isolar. Algo de estranho ocorre ali e afeta a mente de todos. Kelvin relê os dados e recolhidos ao longo de décadas e respetivas teorias sobre Solaris. Este é um astro coberto por um extenso oceano rico em matéria orgânica que já foi classificado como um ser vivo e com o qual se tenta infrutiferamente comunicar, embora este até controle características do planeta: será dotado de consciência? Após dormir Kelvin vê-se confrontado pela visita da sua mulher que se suicidara 10 anos antes e em conversa com a restante tripulação percebe que o oceano lhes lê as mentes e as controla, recriando as pessoas que os assombram, mas estas não são iguais aos humanos em termos moleculares, nem são destruíveis pelos terrestres, a situação entra em confronto com a memória e consciência destes que são incapazes de comunicar com o torturador. Kelvin tenta corrigir a sua culpa na morte da ex-mulher perante esta réplica e a tensão entre sentimentos, consciência, identidade, memória, vontade e ciência irá num conflito que coloca em questão princípios da humanidade.
A escrita de Lem é cuidada e algumas das passagens são muito filosóficas e difíceis, havendo outras muito descritivas, embora a história seja alimentada com diálogos fáceis brilhantemente elaborados que põe a nu as questões levantadas. Assim, está-se perante uma obra complexa, densa e não numa mera aventura no espaço típica de muita ficção pseudocientífica comercial.
Raramente após a leitura de um romance vou procurar os filmes na internet, mas neste caso a riqueza dos pormenores no texto levaram-me a tal, embora os filmes sejam bons, seguem o mais fácil, sem aprofundar as descrições dos fenómenos oceanográficos e muita filosofia do livro. Este, apesar de partes difíceis, gostei muito.

Solaris pelo realizador Tarkovski em 1972



domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

domingo, 21 de julho de 2019

"Um, ninguém e cem mil" de Luigi Pirandello


Excerto
"Você acredita que se conhece, se não se construir de alguma maneira?... Só somos capazes de conhecer aquilo a que conseguimos dar forma."

Em "Um, ninguém e cem mil" o escritor italiano Luigi Pirandello, laureado com o Nobel da literatura, constrói uma dialética, cheia de humor e reflexão, em torno da busca de identidade que cada um tem de si e daquelas que e os outros fazem de nós próprios,não somos únicos mas uma miríade de personagens. Somos uma composição múltipla de todas essas individualidades criadas por nós e por quem socializamos.
A partir de um comentário da mulher enquanto Vitangelo Moscarda se olhava ao espelho, no qual ela lhe comunica a inclinação do seu nariz de que ele nunca se apercebera, começa um conjunto de reflexões de como sou eu? Que imagem têm os outros de mim? Questões que se tornam numa obsessão que vão mudar a sua vida de banqueiro a viver à sombra da sua riqueza herdada em alguém que não apenas se quer mudar mas deseja que os outros o modelem com uma personalidade diferente.
Escrito em estilo de autorreflexão, onde trespassa ao longo dos parágrafos humor, apreciação do problema e dedução, Pirandello monta a mudança de uma personalidade a partir de um ensaio de autoanálise do protagonista.
Originalíssmo e divertido, embora exaustivo pela miríade de variantes que se vão labirinticamente cruzando, não perde interesse por ser relativamente curto, o que alimenta a vontade de saber como ficará Vitangelo Moscarda no fim do romance.
Fiquei com curiosidade de descobrir outras obras deste escritor.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

"O Processo de Adão Pollo" J. M. G. Le Clézio

Excerto
"Se preferem, Deus tanto se compreende através do seu inverso, do seu Diabo, como dele próprio, na sua essência."

Acabei a primeira leitura de uma obra do francês Le Clézio, precisamente com o romance da sua estreia como escritor: "O Processo de Adão Pollo" alguém que décadas depois foi laureado com com o Nobel da literatura.
Adão Pollo, não se lembra se é desertor das forças armadas ou de um manicómio, sabe que se acolheu numa vivenda abandonada sobre o mar, onde recebe uma amiga que lhe traz mantimentos e tem esboços de situações passadas, talvez uma violação. Desta moradia observa pessoas, animais e acontecimentos que o rodeiam, começa a identificar-se com os seres que vê, entra em delírio com essa comunhão existencial que interfere com a paranóia do medo de ser expulso pelos donos da habitação, mas quando impulsivamente comunica a sua filosofia ao povo dá-se o seu colapso. É interceptado pelas autoridades e levado para uma casa de alienados, onde estudantes de psiquiatria o interrogam. Percebemos então que é um jovem licenciado, muito inteligente que fugiu de casa face ao seu anseio de liberdade e de viver que narra várias situações da sua vida e levanta numerosas questões existenciais deixando os alunos perdidos no seu inquérito de diagnóstico.
A obra excelentemente escrita articula uma narrativa original com escrita criativa experimental e incorpora questões de filosofia existencialista, tentando também revelar a psique de uma mente perturbada que roça a genialidade entre alienação e o racional ao nível das suas interrogações e vontade de viver.
Como obra de ficção gostei de ler, como texto de análise psicológica e filosófica é interessante e a originalidade da estrutura narrativa tornam-no cativante, o que justifica ter sido um sucesso editorial, mesmo sem ser um livro acessível ou interessante para qualquer leitor.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

domingo, 10 de junho de 2018

"Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" de Philip K. Dick


Excertos
« ...os androides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 tinham, numa perspetiva grosseira, pragmática e eficiente, evoluído para além de um maior - mas inferior - segmento da humanidade. Para o melhor ou para o pior. O servo tinha-se, em alguns casos, tornado mais inteligente que o seu senhor

« Terás de fazer coisas erradas onde quer que vás... É a condição básica da vida, teres de violar a tua própria identidade. Em determinada altura, todas as criaturas que vivem devem fazê-lo. É a sombra final, a derrota da criação; esta é a maldição em funcionamento...»

Poucos parecem saber que o primeiro filme "Blade Runner" se baseia no livro "Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" escrito pelo americano, famoso pelas suas obras de reflexão e humor negro em ficção científica, Philip K. Dick, várias das quais adaptadas ao cinema.
Após uma guerra o planeta está contaminado, a maioria das espécies extintas e a humanidade vive só em certas cidades sob alertas de radioatividade e com certas máquinas de controlo psicológico que cria uma nova religião social, mas o desejo mais comum das pessoas é ter animais domésticos reais face à oferta de cópias elétricas. Há colónias no sistema solar onde foram fabricados androides servis, que com a evolução são cada vez mais indistintos dos humanos, até que alguns nos ultrapassam, querem viver em liberdade, desejam estabelecer-se na Terra, aonde estão interditos e para onde fogem. Surge assim a profissão liberal de caçadores de androides remunerada por prémios de captura. Os Nexus-6, topo de gama na inteligência, dão luta, surge a possibilidade sentimental entre pessoas e máquinas e assim se desenrola nesta sociedade distópica o trabalho policial de Rick em São Francisco com reflexões morais e éticas entre tecnologia e o seu controlo.
A obra original é mais abrangente que a adaptação cinematográfica, esta limita-se ao essencial da caça, embora várias das questões do livro tenham sido transpostas para o filme. O romance, além de bem escrito, é mais profundo nas reflexões e não se limita a mostrar a questão dos sentimentos nos androides, pois mostra o vazio nas pessoas no mundo contemporâneo. Tendo sido publicado em 1968 o futuro imaginado evoluiu diferentemente nalgumas situações do que o imaginado na obra, pelo que há um desfasamento na visão do futuro tecnológico, mesmo sendo claro que se estaria na última década do século XX,  pode-se sempre transpô-la para um futuro posterior ao nosso presente.
Gostei muito do livro que é de fácil leitura, mas já me encantara com Blade Runner, obras diferentes e ambas geniais no seu género de ficção-científica, distópica  e levantando questões de ética e moral.

quinta-feira, 1 de março de 2018

"O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa


Citações
"Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente"

"Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, que não admite lei senão a Natureza,... ...por que carga de água é que defende o altruísmo e o sacrifício pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais?"

"O Banqueiro Anarquista" é um dos textos famosos de Fernando, aliás penso que tudo dele é famoso e bom. Assim, após me cruzar com uma divulgação deste texto num blogue, que sigo recentemente, lembrei-me que o folheara poucos dias atrás e decidi conhecer o meu poeta de eleição como contista.
Num jantar de dois amigos, o narrador decide questionar o banqueiro rico sobre dizerem que ele fora anarquista, ao contrário do que a sua profissão e estatuto indicaria. O banqueiro não só confirma o passado, como confessa ainda o ser e de levar esse espírito à prática mais do que os defensores típicos da causa. A partir daqui, o banqueiro irá fundamentar as suas razões, a coerência da sua situação e todo o historial que o levou ao seu sucessos no respeito da ideia que defende.
Fernando Pessoa desenvolve assim, ao longo de várias dezenas de páginas, um conto com uma evolução dialética de forma socrática liderada pelo banqueiro, mas onde ele próprio aponta o que parece incoerente, em seguida refuta e evidencia a lógica do seu raciocínio, que depois o amigo narra.
Um texto filosófico, inteligente que se torna divertido com as ironias e críticas subliminares aos defeitos e vícios da sociedade que então se confrontava entre a mentalidade burguesa, o marxismo e a terceira via do anarquismo.
Bem escrito, argumentado e uma pérola que recomendo a todos os leitores que gostem de debates inteligentes e de bom humor. Adorei.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Focos de Tensão" de George Friedman


"Focos de Tensão" de George Friedman, filho de uma família judaica do leste da Europa refugiada nos Estados Unidos, é um ensaio onde o autor, académico, procura evidenciar que a paz na Europa não é um facto definitivo, existindo muitos aspetos em que este continente possui tensões que podem fugir ao controlo dos seus dirigentes, nomeadamente: nacionalismos (o caso da Catalunha nem é lembrado), interesses económicos, receios, crenças e particularidades que são explosivas e cujo um incidente pode levar a guerras.
Assim, após se compreender os caminhos que levaram a Europa a dominar o mundo cultural, política, económica e militarmente, Portugal não é esquecido, este continente, pela sua filosofia e tensões internas, em 3 décadas no século XX tornou-se marginal e desinteressante para as várias potências do século XXI, um mero rico fraco, incapaz de se defender de ameaças de guerra ou de se impor para salvaguardar os seus interesses: um cadinho cujos equilíbrios em que assenta a sua paz, inclusive na União europeia, a qualquer momento pode entrar em rotura. Um ensaio que é uma lição de história e um aviso aos europeus. Li-o em formato ebook, mas existe também a versão em livro de papel.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lincoln no Bardo de George Saunders


Sabia que o vencedor do Booker Prize 2017 seria um livro diferente de todos os que já lera e foi a curiosidade que me levou a arriscar a ler "Lincoln no Bardo" de George Saunders, norteamericano, e neste aspeto, após a leitura, assumo a originalidade da estória e da escrita do romance que em nada se assemelha a nenhum outro. Assim, não admira que no início tenha estranhado, mas ao contrário do que por vezes acontece ao continuar a ler, aqui não "entranhei".
A estória arranca com a morte de Willliam (personagem histórica) filho do Presidente Lincoln após este, perante a enfermidade da criança, manter o baile na casa branca por o considerar importante para animar a comunidade da cidade, tensa com a guerra civil que os Estados Unidos então atravessam. Segue-se o funeral e a receção da criança na comunidade dos que já abandonaram esta vida mas resistem em permanecer no cemitério, onde vamos conhecendo o que os mais marcou individualmente enquanto estiveram na terra. Atordoado, William não reconhece a situação em que está, é visitado pelo pai durante a noite, depois há uma luta dos anjos do mal para conquistar os resistentes e o recém-chegado, este não cede ancorado na promessa da volta do Presidente. Assiste-se assim a s estratégias de solidariedade das almas, enquanto vamos descobrindo todos os seus vícios e defeitos privados do passado de que ainda não se libertaram. Assim, durante uma noite, vê-se o esforço coletivo para fazer o bem a alguém recém-chegado por parte de gente que se sabe estar condenada pelo que antes fizera, nalguns casos condutas bastante chocantes, tentando inclusive agir sobre o visitante vivo de forma metafísica.
Passando agora à escrita, novamente se entra numa texto diferente de tudo o que já li, o período respeitante à vida dos Lincoln desde a doença, baile, morte de William e sentimentos do Pai são narradas como uma coletânea de testemunhos, por norma de um parágrafo, cujos autores são referenciados ou como excertos de notícias ou livros de memórias novamente com a origem identificada (mesmo que fictícia), enquanto no além temos como que um texto dramático onde os atores vão referindo as suas partes e construindo uma peça que se assemelha a uma representação macabra cujos intervenientes têm de se recolher ao seu sarcófago com o nascer do sol e  onde cada personagem ou testemunho tem características sintáticas, lexicais e níveis da pessoa em si, o que dá uma mistura de estilos e formas de expressão variada, desde o formal até ao brejeiro, afinal na sociedade tudo isso coexiste como no livro e apesar de mais de 300 páginas a leitura é rápida pelo espaço livre entre textos para teatro.  O livro intercala por vezes capítulos referentes ao período em casa dos Lincoln com outros passados no sobrenatural, montando-se assim o conjunto da obra.
Técnica e imaginação não faltam no romance, se gostei? A minha resposta é não!
Há pontos incoerentes, o autor quis mostrar a ligação de cada um aos seus vícios e hábitos que nem no além se conseguem libertar, não sei se quis condenar indiretamente alguns comportamentos que hoje são aceites ao contrário do passado, além de mostrar a dor íntima de um pai que luta com o dever público e a discrição privada, mas que a obra dá lugar a muitas questões, lá isso permite, como exercício de escrita é uma jóia e talvez seja isso que justifica tão importante prémio.

sábado, 25 de novembro de 2017

"Cândido ou o Optimismo" de Voltaire


Acabei de ler um dos mais famosos romances do pensador francês do tempo do Iluminismo no século XVIII: Voltaire e o seu "Cândido ou o Optimismo" numa edição da revista Visão que tem editado clássicos históricos da literatura mundial.
A obra é uma paródia, cheia de fantástico, ironias, sarcasmos e críticas às filosofias otimistas da época propagadas por Leibnitz. Goza com os conceitos do mal, moral e físico, e a razão suficiente para explicar a injustiça da sociedade europeia quando se dizia que o mundo estava a evoluir para o melhor pois criado por um Deus que nos quer bem. Em paralelo, lança farpas à tentativa da religião maniatar o pensamento das pessoas e a liberdade social, bem como ao absolutismo, escravatura, libertinagem, práticas abusivas dos cristãos, muçulmanos e outras questões polémicas de então.
Cândido, acolhido numa família nobre, assimila as filosofias otimistas do percetor do palácio, assiste a amores escondidos do pessoal, apaixona-se pela filha do anfitrião: Cunegundes, é apanhado e expulso para uma terra cheia de terror e injustiça, sem deixar de crer que está no melhor dos mundos e tudo se destina ao bem.
Segue-se então uma série acelerada de desaires, onde combate, é ferido, sobrevive, reencontra o percetor em desgraça e doente de luxúria que narra a morte de toda a família do palácio. Fogem para Lisboa apanham com o terramoto, são condenados pela inquisição para terminar o tremores, escapa sozinho e reencontra a sua amada morta que lhe conta a sobrevivência. Partem para Buenos Aires, perde de novo a sua amada para o governador. Chega a um Eldorado de indígenas perfeito, mas a paixão o faz querer sair e recuperar Cunegundes. Então riquíssimo sofre nova série de desventuras: reencontra gente que vira morrer, comerciantes ladrões, amigos oportunistas, padres lascivos, médicos charlatães, reis destronados, cai nas mãos de muçulmanos sem perder o otimismo e no fim percebe como alcançar o melhor dos mundos.
A obra está cheia de cenas mirabolantes, ridículas e divertidas, gente que morre mas depois sobreviveu, mitos fantásticos e pormenores históricos da realidade da época, cujas quase 200 notas em rodapé nos dão excelentes informações dos aspetos escondidos no simbolismo do texto.
Portugal é então o país mais rico da Europa, com um povo ignorante e dominado por um clero fanático e retrógado. Este País e as suas gentes têm um papel muito importante dada a sua magnificência na época. Gostei, mais ainda porque as notas complementam muito bem esta paródia fantástica e sem elas o livro perdia muito da sua atração e compreensão.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A Queda" de Albert Camus


Acabei de ler "A Queda" o último romance do francês Albert Camus, prémio Nobel da Literatura.
Num bar de Amesterdão um cliente habitual reconhece a entrada de um francês estranho ao local, um compatriota, e logo o interpela, apresenta-se, traduz-lhe o pedido de bebida e começa a narrar a sua vida desde o início da sua carreira de advogado brilhante em Paris, associada a um comportamento farisaico cheio de amor-próprio, sempre disposto a transmitir uma imagem de bondoso e altruísta, para ser admirado em sociedade, mas também com uma vida de conquista de mulheres, permitindo correr a sua fama, para se aproveitar do género feminino e ser plenamente admirado por todos, isto tudo até a sua vida dar uma grande volta e se tornar num juiz-penitente exilando na capital da Holanda, atividade que explica no fim do livro.
A obra é uma reflexão filosófica sobre a futilidade do estilo de vida em sociedade em torno da idealização da imagem pública de sucesso e a consciência do mal que praticamos enquanto se é pessoa de bem e se julga o outro.
O texto está brilhantemente escrito, cheio de força e ritmo. Todavia, a narrativa só não é um monólogo por sabermos pelos comentários do narrador o teor de algumas intervenções do outro ouvinte. Isto torna a linguagem típica de um falador que abafa qualquer outra voz. A técnica fez-me lembrar o romance "Cadernos do subterrâneo" de Dostoievsky, simplesmente agora é a tentativa de socializar e de se salientar em sociedade e não de ostracização e autoflagelação do protagonista no livro russo... pelo menos até à queda e conversão em juiz-penitente de Jean Baptiste Clemance.
Apesar de ser pequena esta obra e da força do texto, a partir de certo momento esta pode tornar-se cansativa, tal como quando ouvimos alguém que ininterruptamente não se cala, só que este fala-barato diz muito e desmonta a futilidade desta sociedade sem valor e corrompida farisaicamente pelo mal.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" de Robert Louis Stevenson


O livro "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" do escocês Robert Louis Stevenson que acabei de ler é uma edição com três contos, onde o que dá nome ao livro tem a dimensão quase de uma novela e é talvez a obra mais famosa do autor. A capa no post é diferente da que li, pois a publicação que tenho não está à venda, mas a capa mostras contém precisamente à mesma coletânea.
Todas as histórias entram no domínio do gótico ou temas que exploram a aproximação de mortos, situações de quase terror, embora nestes relatos pareçam envolvidas pelo saber científico numa Inglaterra vitoriana. A primeira: "O furta-defuntos", baseia-se no problema ocorrido no Reino Unido no século XIX da comercialização ilegal de cadáveres para investigação médica, neste caso, além de encobrimento dos crimes, especula-se uma situação arrepiante que os traficantes terão enfrentado.
No segundo, "Olalla", um soldado ferido é acolhido numa família de montanha para recuperação, onde os anfitriões com um passado nobre sofreram degenerescência ao longo de séculos pelo mal que terão feito e o amor do hóspede por uma jovem fica refém dessa maldição. Uma forma regressiva de trazer para a literatura a teoria de evolução de Darwin, então tentar vencer na opinião pública.
A última história: "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde", que dá o nome ao livro, é uma referência na literatura, clássico do género gótico. Dr. Jekyll, um homem exemplar e benemérito, surge associado a um Sr. Hyde que além de assustar pela sua falta de humanidade, pratica um crime hediondo e parece protegido do doutor, sem se saber que motivações obscuras dão ascendente do execrável personagem ao bondoso doutor. Após se pensar estar numa situação de chantagem, descobre-se a explicação final que envolve a luta permanente entre o bem e mal no ser humano, as cedências a este e a curiosidade do cientista quando despreza a ética. Um magnífico conto que vai muito além de uma história de ficção, entrando sim no campo das reflexões sobre o comportamento das pessoas perante os desafios e as escolhas morais e éticas.
Uma escrita com parágrafos extensos característica das narrativas daquele período, com magníficas metáforas e outras figuras de estilo que deliciam o leitor. Gostei sobretudo do último conto: magnífico.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"JUDAS" de Amos Oz


Acabei de ler o segundo livro do escritor israelita Amos Oz e o meu primeiro romance dele: "Judas".
O romance passa-se em Jerusalém no inverno de 1959, onde um jovem, tímido e sentimental, a fazer uma tese de doutoramento sobre Jesus visto pelos judeus ao longo dos tempos, por motivo de desalento com o fim do namoro e dificuldades financeiras, decide abandonar a investigação e encontra um emprego de companhia numa casa com um idoso tagarela e uma viúva por quem se sente atraído mas inacessível. Neste trabalho Samuel terá tempo para refletir sobre o que o seu povo disse do que teria sido Jesus, mas também questionar-se sobre Judas, talvez o primeiro cristão de fé cujo seu papel na crucifixão teria sido para a glória do seu mestre e da qual saiu desiludido tornando-se conhecido como um traidor e ainda um peso para os judeus.
A intercalar as reflexões históricas e religiosas está o fio condutor da narrativa com a vida naquele inverno do jovem e as suas descobertas sobre o passado recente: o comportamento desastrado dele na sua atração por Atália, o jogo desta, as descobertas das perspetivas distintas em torno da criação de Israel pelo velho, o defunto marido e o pai da viúva e as desconfianças e ameaças árabes vistas no contexto da época mas que ainda hoje são atuais. Estes dois tempos entrecruzados no romance são sempre contados de uma forma introspetiva e serena, por vezes com um humor requintado e abordagens naturais a situações de algum anormalidade e com uma excelente escrita. Gostei muito mas não é um livro que desperte vibrações e emoções fortes ou suspense, pois reina ao longo de toda a obra uma calma e uma interioridade na forma de expor os acontecimentos e as reflexões mas que dá prazer apreciar o texto. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

"A Brecha" de João Pedro Porto


Acabei de ler o romance "A Brecha" de João Pedro Porto, um jovem escritor Português e Açoriano, mas este livro não é uma obra de cariz regionalista.
O romance apresenta uma trama cuja forma de narrar é mais complexa do que a própria estória em si. Numa noite escura e a ameaçar tormenta, um Homem ascende das arribas do cabo na sutura dos mares (deduz-se São Vicente), surpreende os deuses do Tempo e do Amor em adultério à da História/Memória, foge e é acolhido num tasco de um casal parricida de onde conseguirá levar companheiros para a sua ventura de encontrar o Apocalipse no sul. Em paralelo, um Homem em tédio num quarto reflete sobre a banalidade do seu tempo quando uma brecha se abre e decide por ela percorrer os caminhos da memória. Assim arrancam aventuras que afinal são a mesma. Por sua vez, os donos da taberna decidem contactar os deuses e tramar o seu abate, permitindo apreciar os efeitos da sua existência ou morte no destino dos Homens.
O romance não só apresenta vários estilos de escrita, como várias formas de narrativa. Predomina, no primeiro caso, a redação floreada numa recriação barroca a lembrar Fernão Mendes Pinto e António Vieira, com um vocabulário muito rebuscado, com termos técnicos, arcaismos e raridades da língua que os dicionários nem sempre registam. O autor optou pela designação grega dos deuses, a que por norma somos mais estranhos e ainda com variantes menos comuns, e contém referências a várias histórias mitológicas que revelam um grande estudo da cultura clássica. 
A narrativa ora se desenrola em prosa, sobretudo na vertente das aventuras dos homens, onde surgem mitos da época das descobertas e sebastiânicos, misturados com factos históricos da época do declínio de Portugal; ora se desenvolve em teatro aquando da temática do abate dos deuses; e ainda poesia, soneto ou verso livre, que fazem contrapontos à narrativa ou o resumo da aventura humana no final, uma espécie de epopeia camoniana para os heróis corajosamente vencidos nas suas aventuras.
Esta é uma obra densa de mensagens soltas e pistas de reflexão, cuja repetição de leituras permitem conclusões por vezes distintas, apesar de estar subjacente a ideia central de que para se viver há que arriscar, mesmo que depois se seja derrotado e sujeitos ao remorso, mas quem não se aventura, como Dom Sebastião, dificilmente vive. Paralelamente há a discussão do papel do(s) deus(es) na nossa vida ser mínimo e que podemos bem viver sem ele(s), tendo em consideração a hipótese de ser(em) nossa criação, onde se deduz que o Homem é o dono das suas decisões e responsável por ela sozinho.
Estamos sem dúvida perante um grande livro, mas uma obra difícil. Um desafio para quem gosta de ler, mas aprecia a escrita, discute o conteúdo e a forma da trama e por isso, talvez, inacessível a quem procura romances como meros objetos passatempos para momentos de lazer. "A Brecha" é para muito mais do que isto. É literatura no que esta pertence ao mundo da Arte. Gostei e muito. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

"RESSURREIÇÃO" de Lev Tolstói


Acabei de ler "Ressurreição" do grande escritor russo Lev Tolstói, um romance onde o autor expõe a sua filosofia de vida, a sua moral e fé de forma clara, com um apelo de conversão ao bem e tendo como referência a denúncia da injustiça que domina a sociedade que cria vítimas permanentes, não reabilita, nem resgata as pessoas do mal, proclamando uma visão do cristianismo muito própria e livre das interpretações oficiais das religiões cristãs tradicionais.
Nekhliúdov é um príncipe e com um bom coração amolecido pelo bem-estar da sua classe e luta permanente entre o ideal que busca e os hábitos e vícios a que se afeiçoou que o seu estrato social apoia e tem como a norma. No seio disto apaixona-se e abusa de uma doméstica órfã que engravida, é ostracizada e levada para a prostituição, vendo-se anos mais tarde envolvida num crime e sujeita a um tribunal de júri onde, por coincidência, ele se senta como jurado.
O príncipe, acobardado entre a vergonha e o dever, além dos interesses pessoais das personagens judiciais, assiste à condenação da inocente ao desterro e trabalhos forçados. Começa então a luta do herói para resgatar e reabilitar a mulher de que se sente culpado da sua situação, enquanto abdica das suas terras por ideais de justiça e se dedica completamente à condenada, inclusive oferece-se em casamento. Todavia a burocracia judicial, os seus intervenientes e os preconceitos dificultam a reparação dos próprios erros da justiça, o que o leva a acompanhar a sua vítima para a Sibéria e a conhecer os horrores do sistema prisional e a quantidade de inocentes que a sociedade condena e se desfaz e não salva.
Tolstói faz uma crítica forte do sistema económico e social da Rússia de então, expõe com crueza o sofrimento intolerável do regime judicial e, à semelhança de Victor Hugo, denuncia a aplicação cega da Lei contra as pessoas que mantém o sistema. Propõe o modelo económico de Henry George, que tem uma perspetiva mais rural do que o proposto por Marx para o seu proletariado urbano, a que associa a necessidade de uma prática do Evangelho livre da estrutura eclesial, mas ligada a Cristo.
Ao contrário de "Guerra e Paz" e "Anna Karénina", aqui Tolstói tem uma única linha narrativa, não havendo histórias paralelas a atravessar toda obra e servem de comparação a opções de vida alternativas. Todavia Nekhliúdov conhece muitas prisioneiros, de crimes a razões políticas, cujas vidas são comunicadas para destacar os defeitos do sistema vigente. Sem dúvida um grande romance, menos consensual que os outros citados, pois em Ressurreição as ideias do escritor são ditas diretamente sem preocupação de ferir ou divergir do leitor. Tolstói quer mesmo agitar a consciência de quem lê e tirar os acomodados da sua situação de conforto. Gostei e recomendo.

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Aparição" de Vergílio Ferreira


Acabei de ler "Aparição" aquele que, segundo muitos, é o romance mais emblemático do importante escritor português da segunda metade do século XX: Vergílio Ferreira, prémio Camões pelo conjunto da sua obra em 1992.
A estória relata a experiência de integração social e profissional do primeiro ano de professor do beirão e recém-licenciado Alberto, colocado em Évora, uma cidade que lhe é estranha, tendo como meio o relacionamento que ele desenvolve com uma família local amiga do pai e com o grupo social das filhas. Aqui as suas reflexões e declarações existencialistas encontram eco em duas das raparigas e num aluno com impactes psicológicos que afetam os contactos entre os membros desta tertúlia, dando lugar ao aparecimento de desconfianças, receios, ciumes entre os elementos de um grupo típico de uma pequena comunidade fechada e provinciana. A situação agrava-se ainda com a ocorrência de um acidente e dos problemas individuais que conduzem à hostilização e  ostracização do estranho e culpabilização destes pelos efeitos das suas ideias referentes à importância do autoconhecimento do eu.
À semelhança de outras obras literárias até ao terceiro quartel do século XX, o cuidado pela perfeição do estilo de português na sua forma gramatical e sintática tradicional é uma marca importante do texto, onde as roturas com as regras, típicas da escrita criativa das últimas décadas em Portugal, estão ausentes. Acresce a este perfecionismo escolástico, a qualidade e a elegância de escrever de Vergílio Ferreira. Mas este romance é em simultâneo uma narrativa e um tratado de filosofia existêncialista, onde, intercalado com a narrativa dos acontecimentos e dos diálogos contidos na memória de Alberto e referentes a um ano de um passado já longínquo existem textos de pura reflexão sobre o "eu", onde as formas reflexivas do pensamento para destacar a autoindentificação no conhecer-se e no sentir-se é uma marca para estes pensamentos filosóficos e ideias que afetam todas as personagens da história: ora também em busca deste eu como em Alberto, ora como rejeição desta perturbação gerada por este tipo de análise.
Assumo que gostei do romance como história, apesar de o existencialismo ser uma forma de pensamento filosófico com a qual nunca senti  empatia e entrosamento, pelo que em determinados parágrafos fiquei mais pela apreciação da forma bela de escrever do que pelo conteúdo das ideias e para alguns leitores pode mesmo parecer partes coladas ao enredo incómodas à leitura do livro.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev


O excelente romance"Pais e Filhos" do russo Ivan Turguéniev, escrito em meados do século XIX, além de ser um dos clássicos mais importantes da literatura deste país, é uma obra marcante na literatura mundial, pois é ele que define e cria o termo "niilismo" como forma de pensar e de ser de uma personagem que questiona e rejeita, à priori, qualquer autoridade, instituição ou  costume de modo a querer revolucionar a sociedade, tema que posteriormente será desenvolvido por Dostoievski e outros importantes escritores, com todas as suas forças e fraquezas, benefícios e perigos e ainda alvo de linhas filosóficas, nomeadamente Nietzche, aspetos que moldaram profundamente a literatura global no último século e meio.
Escrito de uma forma fácil, mas elegante, e com pormenores descritivos subtis, que não só embelezam o texto como também caracterizam situações e sentimentos; a história é essencialmente marcada pelo conflito das formas de pensar em duas gerações: a dos filhos no final da juventude, então com todo o vigor, espírito de contestação e vontade de mudar o mundo, insatisfeitos com a dos pais, onde estes com as lições da vida se tornaram já conservadores, acomodados e inseguros perante os seus descendentes, para quem vivem e a quem admiram, sem saber como gerir este desacordo geracional.
Centrado sobretudo em duas famílias diferentes mas de pais recatados e filhos de espírito revolucionários ou influenciados por estes ideais, junto com algumas personagens, incluindo femininas fortes que vão criar o choque não só entre as ideias geracionais como também com a natureza biológica da vida e dos sentimentos. A história coloca a nu o conflito geracional de séculos e as suas limitações da própria natureza e realidade que leva a que ora uns saiam vencidos pela crueza do acaso, embora com um futuro promissor e vítimas de aspetos menores do destino e outros se arrumem perante a força do mundo, tornando-se em pessoas com carreiras consideradas modelos para o comum dos mortais na sociedade em que se inserem.
Um livro não muito grande, fácil e muito rico não só em mensagens, como influente filosoficamente que marcou o futuro da literatura. Gostei muito e recomendo.