impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
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sexta-feira, 22 de maio de 2026
"O Tango de Satanás" de László Krasznahorkai
terça-feira, 12 de maio de 2026
"Neuromancer" de William Gibson
Estreei-me no escritor canadiano por adoção e natural dos Estados Unidos, William Gibson, com a leitura do seu romance mais famoso "Neuromancer", que popularizou o termo ciberespaço. Obra publicada em 1984, marcou o estilo cyberpunk da literatura de ficção-científica e foi vencedor de dois galardões literários mais reconhecidos deste género de ficção: os prémios Nebula e Philip K. Dick, sendo que o autor também já ganhou um Hugo na trilogia iniciada por Neuromancer e serviu de inspiração ao argumento da tetralogia dos filmes de ficção-científica Matrix, embora com um enredo muito diferente.
Case vive na megacidade de Boston a Atlanta: Sprawl; nela abundam bares com tráfico de droga, álcool, violência de gangues e prostituição que ele frequenta. Case possui componentes informáticas incorporadas no seu organismo e é um hacker que interceta software do ciberespaço para patrões maiores, quando à revelia vende dados a outro bando, é castigado com injeção de uma toxina que lhe impede a sua profissão, entretanto a sua namorada é assassinada. Na sua fragilidade, surge-lhe Molly, uma mulher cyborg que lhe apresenta Armitage que lhe promete a cura em troca de participar no apoio a um assalto que pretende roubar a memória do seu antigo formador de pirata informático a uma base de dados. Só depois descobre que a aceitação tem uma condicionante que o torna refém de um projeto que envolve um guerra vasta entre gigantes informáticos, uma Inteligência Artificial (IA) e um impérío de luxo com uma estância espacial para gente rica, onde ele e Molly formam uma dupla que enfrentam numerosos perigos tanto no mundo real como virtual nos quais vivem.
O início da leitura foi um murro no estômago, não só pelo mundo decadente por onde Case andava, como pela gíria criada por Gibson e ainda a dificuldade em começar a distinguir o que era o real, virtual, personagens físicas e IA, tudo isto flui interligado no texto, cabendo ao leitor situar-se. Confesso que ao fim de umas dezenas de páginas comecei a perder-me e então entrei num aplicativo de IA e fiz duas ou três questões, voltei a reler alguns parágrafos e eis que se fez luz sobre a técnica narrativa, estilo de escrita. O livro tem também um glossário para a gíria utilizada.
Igualmente tem um prefácio de Gibson escrito em 2004, onde fica claro que este foi um futuro imaginado em 1984, quando muito do criado já era bem real: o ciberespaço, IA, realidade virtual, enquanto outras realidades, nem ele tinha imaginado: telemóveis (celulares), o fim dos modems e por isso temos momentos absurdos de busca de cabines telefónicas, os ruídos da ligação por modem, etc. Para tornou-se divertido na leitura ver estes avanços tecnológicos não considerados na obra com tantas outras invenções e a sobrevivência de outras tecnologias já hoje praticamente extintas.
Se gostei, sim, muito, a partir de certo momento já me sentia envolvido como num obra de espionagem e suspense, mas não é uma leitura simples e fácil, mas permite experimentar algo diferente, a partilha das minhas dúvidas com a IA gerou uma realidade nova, próxima da do livro, e espero voltar ao autor numa outra obra bem mais recente, fora da trilogia para ver como evoluiu.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
"A Mais Secreta Memória dos Homens" de Mohamed Mbougar Sarr
Acabei de ler o livro "A mais secreta memória dos homens" do escritor do Senegal Mohamed Mbougar Sarr, obra vencedora em 2021 do prémio literário mais prestigiante de língua francesa, Goncourt.
"O labirinto do inumano" é o título de uma obra publicada na década de 1930 em Paris que teria então impressionado os meios literários franceses. Primeiro, pela qualidade da sua originalidade, segundo, pela admiração de se estar perante um provável autor africano e este ser capaz de uma tal obra-prima que rivalizava com a genialidade apenas considerada possível a escritores brancos. Depois veio a sua aniquilação pelos ataques de que foi alvo ao ser considerada como uma manta de frases plagiadas de grandes autores e, ainda baseada numa história não original proveniente da mitologia africana. Diégane, um estudante senegalês em Paris já no século XXI deambula pelo meio académico de origem africana e tenta descobrir o livro e informações sobre o seu autor: T C Elimane, mas parece que tudo foi apagado em torno deste fenómeno, é então que cruza num bar com uma escritora compatriota e reconhecida na Europa que mostra o livro e começa então uma rede de narrativas sobre o autor, as especulações sobre a sua vida e a sorte de todos os que se cruzaram com ele ou com "o labirinto do inumano".
O romance, que é na base uma busca detectivesca em torno de um livro e do seu autor, torna-se num conjunto de narrativas entrecruzadas sobre a vida e as ideias do jovem e de vários outros autores e do próprio Elimane e sua família, que no conjunto disserta sobre o que é a literatura, o que é ser um escritor, os seus ideais e a realidade do mundo literário. Sensatamente fala do preconceito europeu sobre a superioridade da sua arte e criatividade, do sonho em muitos colonizados em se mostrarem iguais ou mais capazes que os seus colonizadores, da vida solitária do escritor e das suas desilusões e ambições, dos regimes africanos falhados, do ideal da literatura transversal a vários continentes na civilização ocidental e das paixões humanas que interferem com tudo isto.
Algumas personagens são escritores reais, como Sábato e Gombrowicz, outras puramente imaginárias, num texto rico, racionalmente sentimental de grande beleza e ternura que mostra as tensões e razões dos vários intervenientes e os problemas do colonialismo e da literatura e as feridas e cicatrizes que tudo isto deixa à sua volta. Um excelente romance pela qualidade do texto e conteúdo que vale a pena ler que pelo mérito justifica o prémio alcançado. Gostei muito


