sábado, 12 de maio de 2018

"A Ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells


Excertos
"No entanto sabia que, se toda aquela dor estivesse a ser experimentada no aposento ao lado por alguém sem voz, acredito que poderia conviver com ela. É somente quando a dor alheia é dotada de voz e põe os nossos nervos à flor da pele que a piedade brota dentro de nós."

"Suponho que existe algo na forma humana que atrai a nossa mentalidade artística de modo mais poderoso do que uma forma animal qualquer. Mas não me restringi a produzir humanos."

"O tipo de inteligência que consigo em geral é de nível muito baixo."

Confesso que durante anos não li "A ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells por pensar que estaria perante uma obra juvenil, erro meu. Esta obra pode de facto ser lida de forma limitada como uma estória simples ou resultar numa adaptação ao cinema acéfalo dos efeitos especiais que despertam emoções sem regar a razão, mas o texto e a trama do livro inclui grandes reflexões ao nível de questões de ética na investigação científica e os riscos que a humanidade pode correr se a sua curiosidade não for temperada pelo bom-senso.
Como pessoa formada em ciências, este romance alerta que o querer saber e experimentar deve ter limites deontológicos. O primeiro excerto que acima publiquei aponta também para outro problema do comportamento do homem perante o sofrimento da humanidade e a sua consciência.
Após um naufrágio, o protagonista relata como foi salvo e despejado numa ilha onde um cientista obsessivo leva ao extremo a tentativa de transformar animais em humanos. Claro que esta aberração quando implementa só poderia levar à catástrofe e Wells é um escritor genial em contar histórias enquanto põe o leitor a refletir sobre a ética em ciências.
Tratando-se de uma obra anterior à descoberta da genética, a ferramenta encontrada para alcançar o fim pretendido parece-nos hoje arcaica, mas com manipulação de genes ou formas para o homem criar uma biodiversidade ao seu gosto de criador as questões de ética são as mesmas e são estas que saltam junto com a aventura do nosso náufrago.
Um livro muito fácil de se ler devido a uma narrativa límpida, elegante e descritiva sem recurso a grandes criatividades de escrita que perturbem o desenrolar dos acontecimentos e as reflexões são feitas de uma forma tão bem enquadra no evoluir da história que não dificultam a leitura. Gostei muito espero ainda ler mais obras deste escritor e um dos pais da ficção científica que vai além do entretenimento.

6 comentários:

Pedrita disse...

achei que não tinha lido mas fui verificar. realmente não li. só vi a adaptação no cinema. fiquei curiosa. me interesso por livros q falem da ciência, dos limites, até pq hj esse tema é muito atual. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

A obras é muito mais profunda que os filmes que são entretenimento.

NTayar disse...

Belo texto!

Carlos Faria disse...

Obrigado, gosto sempre de falar dos livros que leio não me limitando à narrativa, mas também às reflexões que ele provoca

Liliane de Paula disse...

Quero acompanhar seu blog.
Você mora numa "ilha vulcânica"?
E escreve em Português?
Muito legal!

Carlos Faria disse...

Obrigado por querer acompanhar este blogue. Sim moro numa ilha vulcânica cujo vulcão não está extinto, aliás estudei vulcanologia e já vi o Etna em erupção mesmo no topo deste vulcão.
Ultimamente falo mais de livros, mas por vezes de sismos, vulcões e cultura destas ilhas dos Açores, e claro escrevo em Português.