segunda-feira, 31 de março de 2014

"Quarteto de Alexandria" - Romance 1 - "Justine" de Lawrence Durrell




Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "O quarteto de Alexandria: Justine" de Lawrence Durrell passado na cidade do mesmo nome no período ante-guerra e com o Egito sob o domínio britânico, não um volume separado como na imagem deste artigo, mas num livro único apresentado na coluna da esquerda.
Alexandria era então um centro cosmopolita onde se cruzavam as culturas mediterrânicas: a local árabe e as estrangeiras grega, judia, síria, francesa e a da potência dominante que viviam num mundo onde acima da miséria dos autóctones partilhavam lutas de política, amor e ócio.
O protagonista, um professor inglês que viveu nesse mundo conta as suas memórias com as personagens com quem estava mais próximo e reflete sobre as mulheres por quem se apaixonou e os vícios em que estas relações imergiam: o ciume, as obsessões pelo objeto amado, as dissertações de como os segurar, as infidelidades consentidas e não, a prostituição, a homossexualidade e a diplomacia entre as partes. Tudo isto, embora num estilo de escrita diferente, fez-me lembrar Proust, mas menos profundo na análise dos temas e dos valores. Gostei da forma como Durrell se serve de Justine para através do seu carácter descrever a cidade de Alexandria.
Por agora a prosseguir para o segundo romance Balthazar, personagem já conhecida em Justine.

quarta-feira, 26 de março de 2014

"Debaixo de Algum Céu" de Nuno Camarneiro

Edições Leya

Acabei de ler "Debaixo de algum Céu" um romance de Nuno Camarneiro que ganhou o prémio Leya em 2012.
Nesta obra que relata o dia-a-dia entre o Natal até ao primeiro dia do Ano Novo inclusive dos tão variados residentes de um edifício de apartamentos, o narrador, dividindo o texto em trechos independentes, vai montando os carácter de cada personagem enquanto constrói o mosaico das relações humanas, dos problemas individuais e das tensões e sentimentos que unem os habitantes daquele prédio.
Apesar do narrador por vezes dar a entender que a narração de uma história não tem de ser moral e de ao longo da obra parecer que se trata de um excelente exercício de escrita sem juízos de valor... ao completar o quadro no primeiro dia do ano a mensagem, as lições de vida e o significado que a esta podemos dar está lá toda, fornecendo à obra uma estrutura completa em termos de escrita, trama e mensagem.
Uma pequena obra com escrita arrojada, inovadora e fluída de que gostei em grande e recomendo.

sábado, 22 de março de 2014

"NOSTROMO - Uma história da beira-mar" de Joseph Conrad

Nostromo - Editora Dom Quixote

"Nostromo - uma historia da beira-mar" de Joseph Conrad é um romance minucioso que diz muito para além dos intensos pormenores com que é caracterizada profundamente a psicologia das personagens, as suas interligações sociais, a estrutura hierárquica de um povo, os vícios e a ganância das pessoas que podem destruir politicamente um Estado e o próprio amor.
Passado num País imaginário da América Latina, Conrad constrói a imagem nítida de um Estado com todos os defeitos estruturais que por norma perturbam o desenvolvimento deste continente, não faltando: o complexo de colónia, de colonizador, de estratificação de classes, de independência e de secessão e onde os seus recursos ou o seu próprio tesouro é a causa da pobreza de muitos, da desgraça da nação e da instabilidade politico-social permanente e até de vitimização do amor.
Muito é dito de uma forma subtil e inteligente com uma escrita magistral, condimentada com paixão, ódio, corrupção e integridade humana, bem como a frequente desilusão a que ficam condenados os idealistas.
Um grande e belo romance, que não perde atualidade, com paixão, melancolia, aventura, heroísmo e a cobardia que move a humanidade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

"O Sino da Islândia" de Halldór Laxness


Terminei a leitura de "O sino da Islândia" um grande romance passado nos tempos da subordinação tirânica da ilha à Dinamarca. Uma obra que confirma definitivamente que o laureado com o prémio Nobel da literatura Halldór Laxness foi de facto um magnífico escritor do século XX, com livros bem diferentes mas que preservam a qualidade e levantam grandes questões sociais, políticas e éticas como já acontecia na obra-prima "Gente Independente".
"O Sino da Islândia" baseia-se em grande parte em pessoas e factos que existiram na realidade na transição do século XVII para XVIII e faz um retrato nacionalista da cultura, da mentalidade, das crenças e da história do povo islandês.
O sino marcava os grandes processos do principal tribunal da Islândia quase desde a origem do povoamento da ilha e assim simbolizava a justiça de uma sociedade e logo no início do romance é retirado por ordem do reino que ocupa o território, marcando assim um tempo em que o sistema está subjugado aos interesses de novos senhores e subservientes à potência estrangeira... só que nas voltas e reviravoltas algo levou a que se tentasse repor a memória, o sistema e o orgulho nacional, mas a evolução da trama deixa uma grande interrogação: será que os pobres de um povo escravizado são capazes de preferir a injustiça para salvaguardar os hábitos em que já se sente ambientado em detrimento de um seu salvador que o coloca num sistema que liberta as vítimas e castiga os poderosos por que já não sabem sobreviver de outro modo?
Preferir os benefícios da reposição da acusação de criminoso à liberdade e desprezar a sua retirada em tribunal pelos inconvenientes que isso traz em sociedade é algo que leva a profundas reflexões sobre até que ponto uma sociedade pode ser pervertida nos seus valores e princípios.
Um romance onde a distinção entre herói mítico, criminoso e oportunista se camuflam no nevoeiro das lendas, da cultura e da miséria de então do povo islandês. Um excelente livro.

terça-feira, 4 de março de 2014

"Os irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski


Ao terminar a leitura de "Os irmãos Karamázov" de Dostoiévski compreendi por que este romance é um dos mais importantes da história da literatura: conflito de gerações - exemplo de pai e reflexo nos filhos; conflito de moral - livre arbítrio e opção pelo certo ou prazer; conflito religioso - crente e ateu; conflito de consciência culpa coletiva e castigo individual; conflito sentimental ciúme/ódio/vingança e compreensão/amor/perdão.
Escrito em forma de relato de um observador externo dos acontecimentos por que passaram os voluptuosos Karamazov, o pai e os seus três filhos abandonados à sua sorte que mesmo herdando os mesmos vícios conseguem ser tão diferentes entre si, o romance levanta numerosas questões: a que mais atravessa o livro é se sem Deus tudo será permitido ao homem e se a humanidade sobreviverá? Contudo não se fica por aqui: pode um indivíduo ser culpado pelos outros? pode-se condenar alguém que não tem uma recordação positiva do pai? Podemos construir o nosso próprio inferno e aceitá-lo pela paixão a que nos dedicámos? Como construir um mundo melhor?
Apesar da profundidade da obra, o romance muitas vezes tem a velocidade vertiginosa de um thriller, a tensão de um policial e o romantismo de uma história de paixões e amor fraternal, intercalados com momentos de maior reflexão, sem nunca deixar de ter um estilo de escrita genial, bela e quase sempre fácil que agarra o leitor.
Vários indícios apontam para que o romance devesse prosseguir com um terceiro volume que Dostoiévski já não escreveu, mesmo assim, não deixa de ser uma obra completa que todos devem ler.