terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom

Editora: Saída de Emergência

Há livros que são difíceis de qualificar, "O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom, que também é um médico psiquiatra de profissão, é a obra que acabei de ler e está dentro dessa categoria.
É verdade que expõe duas biografias ficcionadas de duas pessoas históricas reais separadas por quase 250 anos e as suas relações com personagens inventadas e outras reais, como tal pode ser considerado um romance. O texto é pouco estilizado literariamente e é uma abordagem psicológica do escritor que introduz um psiquiatra nas personagens importantes do século XX na obra que faz de ponte entre o racionalismo absoluto do excomungado judeu Espinosa e a confusão irracional em Alfred Rosenberg, admirador dos admiradores de Espinosa que persiste na sua evolução antissemítica e considerado o ideólogo do nazismo e um dos próximos de Hitler que ele idolatrava.
O livro mostra duas solidões: uma que resulta da opção consciente da busca da perfeição pela razão em luta contra superstição das religiões com um Deus humanizado feita por Espinosa num período do século XVII onde a crença se sobrepunha à razão, uma decisão solitária que o libertava. Outra, já no século XX, provocada pela necessidade de reconhecimento público e de admiração no trabalho irracional e preconceituoso de Rosenberg, decisão solitária que o amarrava em crises depressivo-obssessivas já numa sociedade em grande parte laica.
Um Deus racional que se confunde com a Natureza em Espinosa e submetido às leis naturais contra um ídolo irracional que acredita na superioridade ariana e sem humanismo em Rosenberg que procura compreender o filósofo que ilogicamente era judeu, cujo mesmo tipo de sangue negava existir nos seus genes e onde até o psiquiatra de serviço desiste de tanta obsessão doentia e catastrófica.
Um livro forte que pelo contraste pode chocar o crente em dogmatismos religiosos ou o crente no humanismo das pessoas.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

BOAS FESTAS


 A todos os que ao longo deste ano se tornaram visitantes desta página, partilharam comigo comentários sobre livros, música, viagens e temáticas sobre o Faial e os Açores e cada vez mais raramente geologia Votos de Feliz Natal.

Deixo-vos com uma bela canção de Natal, mas diferente daquelas que nos inundam comercialmente nestes dias

sábado, 21 de dezembro de 2013

"Liberdade" - Jonathan Franzen


Editora Dom Quixote

Um livro para ser bom não tem necessariamente de ser fácil e belo, "Liberdade" é um retrato das principais preocupações que têm atravessado a sociedade norte-americana nas últimas décadas: os extremismos desde as convicções ambientais, da política, da economia e das ideologias, bem como os desencontros de gerações onde cada uma pensa que será melhor que a outra e depois descobre que comete os mesmos erros ou caiu no exagero oposto no que vem dar ao mesmo.
Depois do relato das taras da sociedade deste país no período da guerra fria em "Submundo" de Don deLillo, agora a mesma estrutura noutra escrita cobrindo as mais recentes décadas de uma sociedade livre e cheia de complexos que vem até à eleição de Obama.
Uma obra grande, forte e importante para quem tenta compreender muito do que se joga nas mentes das pessoas nos EUA e justificar muitas decisões que chocam quem vê de fora.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Por que mergulhei nas obras literárias e clássicos mais antigos?

Recentemente alguém me esboçou um certo menosprezo por nos últimos tempos ter optado por ler vários livros do século XIX ou da primeira metade do século XX quando há tantos títulos de obras recentes a serem publicados pelas editoras.
A verdade é que depois de ter seguido ativamente numerosas obras galardoadas pelos mais variados prémios literários presentemente ativos, de língua portuguesa ou outras, e da abundante publicidade de interessantes e importantes publicações que vão saindo, a quantidade de desilusões face às minhas elevadas perspetivas foram também abundantes.
É verdade que várias dessas obras até têm apresentado uma escrita literária rica, inovadora e esteticamente atraente, mas, nestes casos, também não têm sido raras as que a respetiva qualidade de forma parece ser acompanhada por uma falta de profundidade no conteúdo da mensagem.
Tal como é verdade que li obras recentes com personagens, situações sociais e estórias bem trabalhadas, ricas no conteúdo, descrevendo situações inovadoras e reflexões interessantes, mas, neste caso também, não tem sido raro as que a qualidade do conteúdo parece empobrecida na forma.
Paralelamente, tenho descoberto que o filtro do tempo tende a preservar e valorizar as obras que reúnem a qualidade estética da escrita e a importância do conteúdo ficcional . Assim ao ler um clássico da literatura tem, por norma, me permitido descobrir livros que não desiludem, pois enriquece a formação do leitor misturada na medida certa de bom gosto que dá prazer e alimenta o lazer.
Isto não quer dizer que abandono as obras contemporâneas que as técnicas de publicidade moderna valorizam para aumentar as vendas... apenas que um mergulho nos clássicos é sempre um passaporte seguro para manter vivo o gosto pelos livros. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"Eu, Cláudio" de Robert Graves


Editora Bertand

Acabei de ler "Eu, Cláudio" de Robert Graves. Um livro que teoricamente é escrito na primeira pessoa por este imperador romano, mas mais do que uma autobiografia, é uma crónica do que foram os tempos de Roma em grande parte do do período da dinastia Júlio-Claudina, no início da nossa era e onde Cláudio: gago, coxo e considerado por muito como idiota, se tornou culto, viveu, sofreu, sobreviveu a uma série de assassínios e ainda chegou a imperador.
Numa escrita simples, pretendendo estar conforme com a personalidade simples do protagonista; muitas vezes irónica e mordaz, fruto da perspicácia e da autoformação conseguida pelo autor; Robert Graves põe-nos Cláudio a falar da família imperial, desde o seu nascimento nos tempos do imperador Augusto (o tio-avô materno e contemporâneo do nascimento de Jesus) com os esquemas venenosos da sua segunda mulher Lívia (avó paterna) para levar ao poder o filho desta Tibério (tio) a que se seguiu um tempo ainda mais graves e com  um desfile de mortes em série, como chegou a imperador o ainda pior Calígula (sobrinho) com toda a sua loucura e o terror, até à entronização de Cláudio como salvador predestinado e a oportunidade dos romanos lerem as suas obras de investigação histórica.
Apesar dos tempos negros, o livro é leve, divertido e de fácil leitura pelo tom colocado no texto. É uma forma interessante de fazer um romance histórico a descrever um período louco e terríficos de Roma sem cansar. Gostei e recomendo.