sábado, 28 de setembro de 2013

"O carteiro de Pablo Neruda" - Antonio Skármeta

Uma pequena e ternurenta estória de um jovem que teria sido carteiro de Pablo Neruda, da sua amizade que com este desenvolveu, do nascer da sua paixão quase adolescente mas cuja sobrevivência e amadurecimento acontece com o apadrinhamento do poeta.
A escrita altamente poética, assume em simultâneo uma homenagem à poesia, à metáfora e à arte literária, enquanto relata a vida do carteiro, as ideias do poeta, as relações sociais no seio de uma comunidade de pescadores e o desenvolvimento da situação política que levou Allende à presidência do Chile até à revolução que instalou posteriormente a ditadura e espalhou os seus venenos para matar a liberdade e o sonho que injeta esse amargo para despertar a consciência.
Uma obra de muito fácil leitura, com a leveza de um excelente aperitivo e saborosa como um doce.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"A máquina de fazer espanhóis" de Valter Hugo Mãe


Um livro sobre a vida na velhice, quando tudo à nossa volta muda e se é acolhido num lar de idosos, restam assim apenas as convicções, as memórias do passado, o exame de consciência e a adaptação ao ocaso da vida.
Vários capítulos são escritos ao estilo de José Saramago, outros evidenciam a diferença com o uso de formas mais clássicas. O romance ora é terno, ora irónico, mas também deprimente e mesmo com alguma violência. 
As reflexões sobre o passado tentam em simultâneo criticar a ditadura em Portugal e a submissão e colaboracionismo de muitos com o regime como forma de autoproteção, mas surgem um pouco como exteriores à evolução da estória e por isso rompem com alguma homogeneidade da obra que não trata todos os temas introduzidos com a mesma profundidade.
Gostei do romance, mas por vezes senti-me frustado por apenas insinuar-se sem ir à questão em si, face a outras temáticas em que disserta com algum pormenor. Cedo desenvolve a angústia por percebermos que a velhice, apesar de poder ser uma fase bonita da vida e com vários temperos, é a que antecede à última porta para o termo do ser humano com todas as suas virtudes, defeitos e sentimentos.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"O livro negro" de Hilary Mantel


O livro negro segue-se a um anterior romance "Wolf Hall" a série de obras secciona a biografia de Thomas Cromwell - um homem que vindo da pobreza ter-se-á tornado no mais influente da corte de Henrique VIII, num dos desenhadores da religião anglicana, num defensor do corte com o catolicismo e num justiceiro frio e calculista que enfrentou todos os inimigos ou os que humilharam o bispo Wolsey, de quem se sentia grato por o ter retirado da sua humilde condição de origem.
O anterior romance foi o prémio booker prize de 2009 e "O livro negro"foi o vencedor da edição de 2012. Como romance histórico o destino das personagens nesta série está condicionado aos factos conhecidos, a originalidade faz-se com a interpretação da vida do protagonista Cromwell, enquanto os Tudor e a sua corte ficam em segundo plano.
Neste novo romance Cromwell já é Primeiro-ministro e o homem, antes envolvido nas condições para fim do primeiro casamento do rei com Catarina de Aragão, prepara agora a queda da segunda esposa, a controversa rainha Ana Bolena, enquanto se vinga dos destruidores e detratores do seu benfeitor bispo, tudo isto conseguindo ainda satisfazer a vontade de Henrique VIII de casar pela terceira vez e levar ao trono Jane Seymour.
O estilo literário da obra é muito característico de Hilary Mantel. A escritora que consegue uma sequência de romances com princípio, meio e fim; de modo que a não leitura de um não inviabiliza que não nos debrucemos sobre o outro sem comprometer o essencial de cada obra. Continua a deslumbrar-me o modo como volta a retratar uma corte com uma promiscuidade como que ingénua entre religião, fé, maldade, desejos pessoais e vingança sob a sensação de se ser instrumento de Deus nesta trama.
Fico a aguardar ansiosamente o volume ainda por publicar, tal como esperei pel'O livro negro, romance que recomendo a todos, independentemente de se interessarem por história




terça-feira, 3 de setembro de 2013

"O Arquipélago da Insónia" de António Lobo Antunes

Há muito que não navegava pela prosa poética de António Lobo Antunes: uma malha de frases que cruza os lugares, o tempo, as personagens, os diálogos e os pensamentos sobre a realidade e a imaginação num fluxo contínuo com um lirismo cuja estória e o enquadramento se vai montando como um puzzle no decorrer da leitura, que por esta mistura não é fácil e exige mesmo esforço aos mais habituados.
Confesso que continuo a admirar e a gostar muito da escrita de António Lobo Antunes, este livro não foi exceção, mas aqui a compreensão da narrativa foi mais lenta, talvez por que quase tudo é exposto perto do início e depois vai sendo reexposto em forma de variações, mas sempre com o mesmo carácter obsessivo, como uma esfera de espelhos rotativa que vai refletindo as mesmas imagens da envolvente, embora com alterações no nosso olhar.
Já li livros mais deprimentes que esta insónia, onde a morte está sempre presente, escolhe os personagens, perde-se entre eles e esquece-se de outros.
Embora com uma escrita e narração bem distintas, frequentemente lembrou-me "O Som e a Fúria" de Faulkner que li recentemente. Também aqui uma família rural que procura sobreviver à sua decadência, também a visão dos seus vários membros: criados, amantes, assassinatos/suicidios, também a importância de uma personagem central portadora de deficiência mental - neste caso autismo - uma estabilidade que se desmorona com o tempo à medida que a casa/quinta se vai degradando ou as pessoas se afastam dela.
No fim gostei, não foi o meu favorito de Lobo Antunes, mas continuo a admirar-me como ele consegue criar imagens, parágrafos e combinações plasticamente tão belos num clima tão opressivo e obsessivo