sábado, 30 de março de 2013

Ciência, Fé, São Tomé e Votos de Feliz Páscoa

A incredulidade de Tomé, segundo Caravaggio, (imagem daqui)

Não estou em condições para criticar as dúvidas de São Tomé sobre a ressurreição de Jesus, antes pelo contrário, como homem de ciências sinto-me mais próximo das suas dúvidas do que da compreensão de João, mas não fui eu que semeei em mim a Fé, até é com resistência pessoal que a mantenho, por isso é por um dom que me ultrapassa que acredito: Jesus Ressuscitou: Aleluia.

Tomé dá-nos a lição de que não é fácil crer, mas nem todos se cruzaram com as condições para colmatar as suas dúvidas e manter vivo o Creio e é por isso que se justifica compreender a posição de cada um.

Assim aos crentes e não crentes:

Votos de uma Feliz Páscoa.

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Fugitiva - Marcel Proust

Na sua escrita de memórias do tempo, o narrador mostra como o "eu" evolui e se transforma noutros "eus" que se vão acumulando ao longo do tempo. Começa com as angústias do fim brusco e indesejado de um amor e a respetiva cura pelo esquecimento, fruto da forçada separação e ausência do ser amado. Encerra com o nascer de uma amizade por um amor terminado em esforço e vontade do apaixonado, agora em resultado do reencontro posterior e convívio com o ser que fora amado.
Nos espaços destas memórias, Proust aproveita novamente para falar de arte, agora no domínio da pintura e arquitetura da renascença e para fazer uma crítica aos vícios dos vários estratos sociais, com predileção para a aristocracia, feita de uma forma mordaz, irónica e descrita com uma mestria genial, sem abandonar a omnipresença dos preconceitos que de forma mais ou menos camuflada sobrevivem e convivem em sociedade.
Escrito de uma forma mais célere que os primeiros volumes, foi um livro que muito gostei e com uma leveza que facilita a leitura, sente-se o receio do autor em tentar dar um potencial final à estória narrada ao longo dos vários volumes anteriores, caso a saúde o impedisse de completar o romance, embora deixe uma porta aberta para continuar, caso tivesse a oportunidade de concluir o volume em que Proust deverá encontrar o tempo perdido...

sábado, 23 de março de 2013

Concerto Sinfónico da Páscoa 2013


Uma boa notícia nestes dias é a retoma dos tradicionais concertos da Páscoa executados pela Horta-Camerata sob a direção artística de Kurt Spanier.
Assim no domingo de Páscoa, pelas 21h30, as obras de Haendel, Haydn e Mozart vão ser ouvidas no Teatro Faialense.
Os bilhetes já se encontram à venda... aproveite!

terça-feira, 19 de março de 2013

A PRISIONEIRA - Marcel Proust


Sobre quantas formas pode o ciúme renascer numa alma apaixonada? Não consegui contar, mas sei que são mais que as variações de Goldberg.
A Prisioneira é sem dúvida um exaustivo ensaio sobre o ciúme, um sentimento obsessivo que como uma Fénix está sempre pronto a renascer das suas cinzas, das causas da sua morte e capaz de tecer teias que aprisionam o ser amado, ou melhor, o ser desejado. Contudo, o retrato da época e as análises sobre a literatura, a pintura e a música regressam neste livro com uma mestria invejável e profunda sempre  que a estória se abre à sociedade.
Por vezes claustrofóbico, outras ridículo, irónico, chega a ser doentio e cansativo pela fertilidade de argumentos que fazem brotar o ciúme e se muitas vezes compreendo a argumentação de Proust, discordo do narrador - Proust? - da necessidade da dor do ciúme para alimentar e manter viva uma paixão ou um amor.
Uma obsessão que cedo aponta para o final do volume e só lá não chega depressa, devido às intermináveis e prolixas variações do tema. Um livro que apesar de estar em continuidade do conjunto, poderia ser lido isolado e onde se nota o facto da morte de Proust ter impedido a revisão do texto, permitindo algumas incoerências narrativas que não diminuem a importância da obra.

sábado, 9 de março de 2013

Comparações: Arpegionne, Viola ou Violoncelo?

Tal como a música evolui ao longo dos tempos, também os instrumentos foram sendo alterados, não posso dizer que foi sempre para melhor, mas pelo menos foram-se adaptando aos gostos dos tempos e às tecnologias, alguns instrumentos deixaram mesmo de ser produzidos e daí por vezes se ver nas etiquetas das obras, a informação com instrumentos da época, para indicar que foi com aquela sonoridade que em princípio o compositor compôs a obra.
Um dos instrumentos que desapareceu foi o arpeggione, considerando que o piano-forte terá evoluído para o atual piano, o que não é assim também tão linear.
Abaixo três interpretações de uma obra originalmente composta para arpeggione e piano-forte e que atualmente tende a ser tocada com viola e piano ou violoncelo e piano.

Assim, nos instrumentos de época:



Agora com viola e piano:


Finalmente com violoncelo e piano


A preferência fica por conta de cada um, mas não há dúvida que soa diferente!

domingo, 3 de março de 2013

Sodoma e Gomorra - Marcel Proust

Tal como Monet, ao longo da série de quadros nenúfares pintou variações do mesmo tema: cor, luz, sombras, contrastes, estados de floração, natureza envolvente, etc. Proust, na busca do tempo perdido usa a memória do narrador para descrever várias faces da sociedade parisiense da época: hábitos, formas de expressão artística, história, desconfiança nobreza/burguesia, preconceitos e evoluções temporais destes aspetos.
Se a série dos nenúfares pode parecer repetitiva, mas cada quadro é uma obra-prima única. Também  nos volumes deste romance repetem-se convívios em salões literários típicos da transição do século XIX para o XX, onde os anfitriões e os convivas mostram as faces diferentes dessa mesma sociedade e se percebe a sua vida diária.
O crescimento do narrador é permanente, começa no escuro da sua ansiedade de criança fora do convívio  no primeiro volume e ao entrar na sociedade vai-se esclarecendo das facetas mais escuras desta: descobre o preconceito e a marca de proscritos, com destaque para os judeus e os homossexuais.
No volume anterior Proust usa o caso Dreyfuss para mostrar como o nacionalismo e a ideia de grupo/classe obscurecem consciências até estas preferirem que a justiça se molde aos seus preconceitos à descoberta da verdade dos factos.
Na primeira parte de Sodoma e Gomorra há um pico na reflexão e consideração do problema dos proscritos, agora com destaque para a homossexualidade. Proust não se torna juiz, com comparações literárias únicas vindas da natureza e a necessidade de sobrevivência dos excluídos, escreve um texto magnífico onde procura explicar comportamentos sociais, sem tomar uma posição que não seja a do relato e sua interpretação e fugindo aos preconceitos, embora, talvez para salvaguarda pessoal, esta fuga nem sempre seja conseguida.
Depois de todos os comportamentos fundamentados, voltam os convívios nos salões literários com as suas variantes habituais e prolixas, sem deixar o narrador incólume às inseguranças, vícios humanos e preconceitos que impregnam a sociedade e capazes de envenenar as relações humanas e o amor.

sábado, 2 de março de 2013

Seis anos de Geocrusoe

O Pico visto da Chã da Cruz na Ribeirinha, Faial

Faz hoje seis anos que nasceu o blogue Geocrusoe, então sem pretensões, foi uma brincadeira experimental onde divulgava a minha terra, os meus gostos e as minhas impressões pessoais e onde a cada postagem correspondia uma fotografia.
Geocrusoe passou por várias fases por que a brincadeira inicial foi-se tornando um hábito, um vício e aprimorou-se na divulgação da geologia destas ilhas, tornou-se então num espaço muito virado para a área da vulcanologia, a paixão e formação do seu autor, numa época em que o tema das ciências da terra escasseava na blogosfera em português.
Mais tarde a matéria-prima, a geologia das ilhas dos Açores por onde eu passava foi-se esgotando, quer por inconveniência de tornar os artigos muito profundos e herméticos, quer por profissionalmente ter diminuído as viagens, a área do laboratório natural  ficou completamente coberta.
Passou então o blogue a ser mais cultural e turístico, com fotos paisagísticas dos Açores, poemas, descrições de viagens, filmes, festivais de cinema no Faial, música erudita e livros.
Presentemente, o vício da leitura tem-se vindo a sobrepôr a tudo e o Geocrusoe é mais uma exposição de comentários e impressões dos livros que vou lendo, os artigos são menos diversificados e tornaram-se mais raros, mas como continua a existir um número de visitantes fiel: ora lendo os novos artigos, ora consultando o seu histórico; Geocrusoe vai sobrevivendo.
Não sei por quanto tempo nem em que moldes será o futuro, por agora foram seis anos.