quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

CICATRIZES NA MONTANHA DO PICO

O cone vulcânico do Pico, a maior elevação de Portugal, 2351 m de altitude, é constituído por um empilhamento de escoadas lávicas, onde a parte central de cada uma é frequentemente maciça, mas sujeita a fissuras, enquanto as partes mais externas são muitas vezes formadas por grãos soltos (clinker) semelhante a bagacina. Como na parte superior da Montanha existem vertentes muito inclinadas, ficam reunidas as condições para ocorrerem importantes movimentos de massa por acção conjunta da gravidade, da erosão das rochas, das chuvas, dos sismos e mesmo das explosões vulcânicas próximas.
Estes movimentos de massa, muitas vezes bruscos e catastróficos, ocorrem em muitos locais inclinados e deixar marcas nas vertentes em forma de superfícies escarpadas de perfíl côncavo, por vezes angulosas, conhecidas como cicatrizes de movimentos de massa.
Quando são recentes, a parte abaixo destas encontra-se desprovida de vegetação e na generalidade é evidente na base o depósito acumulado do material que escorregou.
Muitas vezes estes escorregamentos são precedidos de sinais no terreno como fissuras ou deformações da superfície do solo.
A vermelho estão indicadas rebordos de cicatrizes dos movimentos de massa, na parte abaixo destas a coloração diferente é devido à menor ocupação de vegetação em virtude do fenómeno descrito. A amarelo indicam-se duas fissuras que indiciam futuros movimentos de massa.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

SOLIFLUXÃO - SLUMPING MARKS

Na actividade vulcânica do tipo surtsiano, as cinzas emitidas durante estas erupções submarinas de chaminés pouco profundas (casos do vulcãos dos Capelinhos e do Monte da Guia) são na sua maioria depositadas em torno do vulcão, dando origem a depósitos de um material desagregado, permeável e frequentemente saturado de água.
Estes materiais nas superfícies inclinadas do cone, com o tempo, por acção da gravidade e da água existente entre os grãos, tende a movimentar-se de uma forma relativamente lenta, tal como às vezes acontece à cobertura das superfícies inclinada de um bolo, a este tipo de deslizamento chama-se solifluxão.
À semelhança do creme no bolo, também a ocorrência deste tipo de deslizamente fica registada sob a forma de ondulações ou dobras nas camadas de tufo vulcânico e que se chamam slumping marks.
Nos cortes efectuados nos tufos vulcânicos do Monte da Guia, ilha do Faial, para a abertura da estrada e extracção desta rocha, são bem visíveis estas ondulações provavelmente contemporâneas da época da formação da própria rocha, quando se encontrava desagregada e saturada de água.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O VULCÃO DOS CAPELINHOS HÁ 50 ANOS

As emanções de calor, vapor de água e outros gases vulcânicos, bem como gotícolas de lava projectada de dimensão diversa (desde cinzas até bombas vulcânicas, com dimensões de milímetros, centímetros até vários decímetros de comprimento e designados em conjunto por piroclastos) provocam perturbações no ar atmosférico imediatamente acima da chaminé vulcânica em actividade.
[Foto publicada em: Machado, F. e Forjaz, V. H. (1968) "Actividade Vulcânica do Faial - 1957-67" Ed. Com. Reg. Turismo Distrito da Horta]

As perturbações geradas sobre a chaminé, pela coluna eruptiva, geram fenómenos meteorológicos variados, desde turbilhões de vento, chuvas de intensidade variada, até descargas eléctricas como as que se vêm na foto acima e nem sempre fáceis de captar em imagem naquela época.

Aproveito para informar que o autor
da foto - Tomás Pacheco - foi um faroleiro então residente no Farol dos Capelinhos, que recebeu uma máquina de fotográfica dos geocientistas da época para cobrir o fenómeno, de modo a permitr o acompanhamento da situação durante a ausência destes da ilha. Tarefa que desempenhou com grande brio, qualidade, quantidade e de um modo digno de louvor e a quem presto aqui homenagem pelas numerosas fotos que tive o gosto de analisar, sobretudo se tivermos em conta que a acção não era isenta de riscos, implicava dedicação e não era uma actividade comum na época.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O LADO OBSCURO DAS FALHAS DO GRABEN DE PEDRO MIGUEL

Reflecti muito se para o Graben de Pedro Miguel haveria de alertar para o grau conhecimento sobre o risco associado às falhas geológicas ou esconder o assunto. Optei pela primeira alternativa, considero que estar preparado para os perigos é a melhor forma de reduzir os riscos.
O Graben de Pedro Miguel e várias das sua falhas

A superfície da Terra está constantemente sobre a acção de tensões, cujos efeitos são, por norma, mais intensos junto aos limites das placas tectónicas. Estas forças dobram rochas lentamente, o que origina cordilheiras montanhosas, ou as fracturam bruscamente, o que gera as falhas e sismos.
As falhas do Faial, como muitas outras nos Açores e no Continente Português, estão sobre os efeitos destes esforços e portanto são activas e geram os sismos e o seus efeitos nefastos.

Ruína do sismo de 9 de Julho de 1998

É possível, estudando minuciosamente as características de cada falha determinar a frequência de sismos associados ou a sua magnitude.
Felizmente, numa tese de doutoramente de um meu professor da Universidade de Lisboa as falhas deste graben foram estudadas, tendo sido estimados diversos índices de actividade sísmica, função dos parâmetros analisados, onde seleccionei os dados seguintes, que possuem uma ligeira margem de erro:

Magnitude Máxima Provável Baseadas na Área de Rotura (M)
Falha da Lomba da Ribeirinha - 6,1
Falha da Lomba Grande - 6,1
Falha da Lomba dos Frades - 6,2
Falha da Lomba da Espalamaca/ Facho -6,3
Falha da Lomba Cruz do Bravo - 6,1

Fonte: MADEIRA, J. (1998) – Estudos de neotectónica nas ilhas do Faial, Pico e S. Jorge: uma contribuição para o conhecimento geodinâmico da junção tripla dos Açores. Tese de doutoramento no ramo de Geologia, especialidade de Geodinâmica Interna. Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 428 p. (adaptado).

Estes dados não são motivos de medo, o risco está presente em todos os locais da Terra onde existem seres vivos que enfrentam a Natureza, só o seu conhecimento permite tomar as medidas adequadas para reduzir os seus efeitos e compete ao Homem minimizá-los.
Ribeirinha reordenada e reconstruída com imóveis de resistência sísmica reforçada

Mesmo com estes dados é possível criar condições de segurança superiores a muitos outros locais tidos como seguros, é só estarmos preparados ao nível de ordenamento, qualidade de estruturas e informados como nos comportar perante um sismo e a catástrofe pode evitar-se ou reduzir-se.

Nota: Existe uma outra análise mais recente do J. Madeira, para a ilha do Faial e publicada no boletim de 2007 do Núcleo cultural da Horta, caso algum faialense queira consultar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A PAISAGEM DO GRABEN DE PEDRO MIGUEL

As lombas paralelas, semelhantes a serras no Continente, geradas pelas falhas do graben de Pedro Miguel, marcam fortemente a paisagem da metade oriental do Faial, quer quando se observa junto à costa, mais para o interior, do mar ou mesmo do centro da ilha. Por isso esta zona do Faial, geomorfologicamente é conhecida como a Região das Lombas.
Zona costeira oriental da ilha, observada da Lomba da Espalamaca, vendo-se em baixo a freguesia da Praia do Almoxarife, seguida da Lomba dos Frades ao centro, a partir da qual se vê parte de Pedro Miguel e vendo-se ao fundo as Lombas Grande e da Ribeirinha.
A área abatida na parte central da zona oriental da ilha, bem marcada pela Lomba da Espalamaca em primeiro plano e a Lomba grande ao fundo.
As Lombas da Ribeira do Rato, Grande e da Ribeirinha, vistas do canal Faial - Pico, para os mais atentos é possível observar mais duas falhas de menores dimensões, uma entre cada uma das lombas maiores.
As lombas observadas do centro da ilha, a partir da região da Caldeira. No extremo direito da foto a lomba dos Flamengos, seguindo-se a da Espalmaca/Facho, Frades e no limite esquerdo a da Ribeira do Rato. As elevações no Faial ao fundo e à direita correspondem aos vulcões monogenéticos da zona da Horta... a fundo da foto a ilha do Pico, com o topo do seu grande vulcão poligenético coberto de nuvens.

Infelizmente, a beleza destas lombas esconde um lado muito mais negro que em breve também aqui apresentarei.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O GRABEN DE PEDRO MIGUEL

Tal como já referi, as falhas normais estão associadas a movimentos de distensão, ou seja, a locais onde a superfície da Terra está estender-se ou, como alguns dizem, a ser esticada.
Quando falhas normais, aproximadamente paralelas, inclinam em sentidos opostos para o espaço entre elas formado, cria-se uma espécie de vale, de fundo mais ou menos largo, e gera-se um bloco abatido entre as falhas. A esta estrutura chama-se em geologia Graben, uma palavra de origem alemã que significa fosso ou trincheira.
Todos os post com a designação de "O Faial cortado à faca" e com a etiqueta "graben" mostram partes de uma das mais importantes estruturas geomorfológicas ou tectónicas do Faial, muito evidente na metade oriental da ilha, cujo eixo central se situa na freguesia de Pedro Miguel e designada por: Graben de Pedro Miguel.
(clique nas fotos para as ampliar e ler as anotações)
A zona central do Graben de Pedro Miguel e a freguesia que lhe deu o nome. Foto tirada da Lomba dos Frades, que inclina para norte, vendo-se ao fundo, com menor evidência, a falha da Ribeira do Rato (mais à direita) e a escarpa da falha da Lomba Grande, que inclinam ambas para sul.
Quando se faz uma modelação do relevo do Faial, o Graben de Pedro Miguel destaca-se imediatamente como uma grande depressão ou vale a leste da Caldeira localizada no centro da ilha (imagem proveniente do Centro de Vulcanologia da Universidade dos Açores).

Visto do canal Faial-Pico é muito evidente o Graben de Pedro Miguel, embora possa parecer que a zona central seja mais larga, devido às lombas da Espalamaca e Grande se destacarem mais na paisagem do que as falhas da Lomba dos Frades e da Ribeira do Rato, que são as mais interiores do graben e definem o eixo desta importante estrutura geológica.

Existem algumas pequenas falhas geológicas além das que mencionei nesta imagem e visíveis na foto, mas seleccionei apenas as mais evidentes, com melhor expressão no relevo e já referidas anteriomente neste blog.

Todas estas falhas geológicas são sinais evidentes de que a superfície do Faial está sempre a ser alterada, tal como a da Terra através as tectónica de placas, mas esses são assuntos para outros post.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

RIBEIRA DOS CALDEIRÕES - S. Miguel

Nem todas as minhas actividades profissionais me dão prazer, mas tenho de reconhecer que algumas acções são mesmo altamente agradáveis.
Em visita de trabalho pelo concelho do Nordeste, ilha de São Miguel, o reconhecimento da área de estudo tinha necessariamente esta paragem, junto aos Moinhos de Água na Ribeira dos Caldeirões e como a beleza do local fala por si, ficam as imagens que recolhia enquanto analisava a área...



...afinal, nem só de geologia vive um geólogo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

CAPELINHOS - Os danos das cinzas vulcânicas

A continuação da actividade dos Capelinhos no início de 1958 voltou a ser predominantemente surtsiana e se nos períodos de explosividade mais forte a zona costeira chegava a ser atingida pela queda de grandes blocos, muito maiores foram os estragos das cinzas vulcânicas contidas nas colunas eruptivas, trazidas pelo vento para terra e que atingiram grandes distâncias.

[Foto publicada em: Machado, F. e Forjaz, V. H. (1968) "Actividade Vulcânica do Faial - 1957-67" Ed. Com. Reg. Turismo Distrito da Horta]

Estas cinzas não só soterraram centenas de habitações na zona do Canto do Capelo e do Norte Pequeno,
como ainda levaram ao colapso dos telhados e obstrução das vias de comunicação, pois a espessura destes materiais ultrapassou a dezena de metros. Também destruíram culturas na zona oriental da ilha e causaram outros danos, incluindo mesmo em ilhas vizinhas, em actividades tão simples como a secagem de roupa ao ar-livre, sujidade nas moradias e redução da produtividade agrícola.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O Faial Cortado à Faca VIII - A FALHA DA LOMBA DA RIBEIRINHA

A lomba mais setentrional desta série é a Lomba da Ribeirinha ou dos Espalhafatos e tal como as duas anteriores, possui uma vertente muito abrupta virada a sul e outra mais suave a inclinar para norte, embora esta última seja pouca extensa por estar cortada pela arriba litoral que forma a costa norte de Faial. Na foto acima, além de desenhado o contorno da escarpa de falha a vermelho, estão ainda assinalados dois pontos a amarelo (clique na foto se quiser ampliar): A - uma elevação no cimo da Lomba da Ribeirinha, e B - a extremidade nordeste da ilha do Faial, designada por Ponta da Ribeirinha. Estes locais, quando observados do sítio da presente foto não mostram nada de especial... mas quando a observação é feita de uma zona onde os nossos olhos vêem a lomba na perpendicular, de modo a anular o erro de paralaxe, tudo muda de figura e observa-se um pormenor muito interessante.

A partir desta perpectiva, de sul para norte, é possível verificar que o cone vulcânico da Ribeirinha foi cortado pela falha, ficando uma parte no bloco sul (a maioria do monte mais próximo do observador), enquanto uma pequena parte ficou no bloco norte. Assim a elevação A corresponde ao contorno do cone cortado e deste perfil, não só se observa que a zona norte subiu em relação ao sul (seta a vermelho), como também se deslocou para a nossa direita (seta a amarelo), resultando dos dois movimentos a seta laranja. No ponto B, é visivel também os mesmo movimento na escarpa em relação à costa, onde o contorno desta a norte da falha está de novo levantado e deslocado para a direita, embora a erosão marinha não torne tão evidente este movimento.

No post Falhas Geológicas -Tipos de movimentos, de Outubro último, mostram-se desenhos onde se evidencia que se está perante uma falha onde o bloco que sobe não se sobrepõe ao inferior e que existe um movimento horizontal do tipo direito, pelo que esta é uma Falha Normal com desligamento Direito.
Na foto acima, na Ponta da Ribeirinha e tirada para norte, existem mais indícios que a zona norte está subida e deslocada para a direita, todavia a erosão do mar dificulta a conservação deste tipo de evidências.
Todas as falhas da série "O Faial Cortado à Faca", fazem parte de uma estrutura tectónica muito importante e impressionante na ilha, a mostrar brevemente, mas são todas falhas normais direitas, embora seja na Ribeirinha onde existem evidências tão nítidas (depois de explicadas) e observáveis a qualquer pessoas, mesmo não especialista na área.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O Nosso Carnaval 3 - A DANÇA

Outra forma de expressão carnavalesca é a Dança de Carnaval, uma misto de representação teatral e de dança, típico dos Açores e com expoente máximo na ilha Terceira, onde existem dois tipos diferentes, embora ambos ligeiramente diferentes da do Faial.No Faial, a Dança de Carnaval apresenta-se no chão, nunca em palco, começam por um cortejo de pares a desfilar para o lugar da representação, muitas vezes em plena rua, ao longo desta entrada cantam versos de apresentação da localidade da sua proveniência e realçam alguns dos atributos da sua freguesia e ilha. Podem envergar arcos ou não nesta fase.
Segue-se uma representação, na generalidade alegre e cómica, enredo. No qual fazem uma sátira social de uma situação local ou uma crítica aos costumes actuais, algumas personagens da dança assumem os papeis principais e os restantes pares, por norma em quadra, expõem julgamentos populares da situação, no fim surge um final feliz e uma lição moral.
A dança prossegue por norma com um de dois tipos de modas; os cardaços, apresentada na foto acima, ou a dança de maços. Para qualquer uma delas existem composições específicas tradicionais e que se enraizam no passado de cada localidade. A coreografia dos cardaços, comum em muitas regiões da Europa, pouco varia, mas é acompanhada por cantares. A dança dos maços (uma espécie de martelo de pedreiro em madeira e pintado de cores vivas), por norma é mais ritmada, nem sempre cantada e permite maior diversidade coreográfica. Quando criança, na Ribeirinha os maços eram praticamente omnipresentes em todas as Danças de Carnaval.
Uma última moda completa a dança, uma marcha sempre cantada, com arcos ou não, onde os marchantes se despendem dos presentes e por vezes salientam a mensagem do enredo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O Nosso Carnaval 2 - A GASTRONOMIA

Algumas tradições de Portugal continental foram adaptadas nos Açores a novos costumes e condições do meio. Assim, os festejos do Carnaval dos Açores são muito intensos e desenvolveram especificidades próprias de ilha, mas ao nível da gastronomia, o interessante foi a migração de alguns doces de Natal para o Carnaval...
As filhóses, antigamente fritas em banha e hoje em óleo, são um desses doces que nos Açores fazem parte da gastronomia de Carnaval, cobertos com açucar e canela ou com uma calda dos mesmos ingredientes e com formas por vezes ligeiramente diferentes de uma casa para outra, no Faial a filhós é figura obrigatória no Carnaval.
Os coscorões, igualmente fritos, são outras das tradições doces presentes em muitas casas e festas durante o Carnaval faialense, existem duas principais variantes; uns de massa muito fina e estaladiça, por vezes cobertos com uma calda de limão ou apenas de açucar e canela, outro tipo tem uma massa mais espessa e ficam ocos, por norma cobertos de açucar e canela, como apresentados na foto acima.
As fofas são um doce que goza a fama de ser tipicamente faialense (mas já vi noutras ilhas algumas variantes), compostas por uma massa com erva-doce, que leveda intensamente e as deixa ocas, são muitas vezes injectadas com um creme de limão de sabor muito delicado.
Hoje é mais frequente os faialenses adquirirem as fofas nas padarias locais do que as confeccionarem em casa, mas nalgumas famílias o seu fabrico pelo Carnaval mantém-se vivo e é motivo de orgulho a sua exposição em tradicionais festas mais restritas de amigos, como nos Assaltos de Carnaval.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O Nosso Carnaval 1 - O ASSALTO

Quanto mais por esse país fora se mostram carnavais institucionalmente organizados, com importações de costumes estranhos a este país e promovidos para fins turísticos, cada vez mais gosto do Carnaval enraizado nas nossas tradições.
Por cá no Faial, além dos bailes organizados pelas colectividades culturais e recreativas, continua vivíssima a realização de ASSALTOS de Carnaval.
Festas com dança, fantasias (sem uso de máscaras) e mascarados (com recurso a este acessório), organizadas por pessoas particulares que convidam os seus amigos e vizinhos para um serão bem passado, muitas vezes nas suas próprias casas. Nestes assaltos, é fundamental uma refeição durante a madrugada, para recuperar forças para prolongar a folia pela noite dentro, cujas iguarias são trazidas e confeccionadas pelos próprios participantes.
Este ano, o assalto organizado pela Direcção da Irmandade do Espírito Santo, da localidade dos Espalhafatos, com o objectivo de internamente angariar fundos para a reconstrução da seu Império, destruído pelo sismo de 9 de Julho de 1998, abriu os festejos nesta freguesia.

No assalto os pratos típico da ilha e os que têm vindo a surgir na gastronomia caseira, encheram as mesas para a partilha dos convivas durante a madrugada...

com muita caloria nas sobremesas para compensar os desgastas que a dança e a tradicional chamarrita (obrigatória nesta freguesia) consomem...

A palavra ASSALTO parece ter origem no facto que estas festas eram organizadas, muitas vezes, secretamente por um grupo de amigos que escolhia uma família como vítima, para tomar de assalto surpresa a sua casa durante a noite da festa, servindo-se da habitação ocupada para uma folia até à madrugada.
Hoje, cada vez mais as famílias têm a iniciativa de organizar estas festas na sua casa, acordando com os amigos um calendário para os assaltos se distribuirem no tempo que vai quase do início do ano até ao Entrudo, diferindo assim das anteriores apenas no factor surpresa e no facto de pontualmente ocorrerem em salões de festas de outras entidades ou serem organizados por instituições como foi o presente caso.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Faial cortado à faca VII - A FALHA DA LOMBA GRANDE

Falha da Lomba Grande, tal como o nome indica, é a que tem maior expressão morfológica em toda a ilha do Faial e separa as freguesias de Pedro Miguel e de Ribeirinha. Vista à distância parece uma serra típica, pois este degrau tem mais de 8 km de comprimento, bem visíveis à superfície, e forma um degrau cujo desnível chega a ser superior a 170 m de altura.
Falha da Lomba Grande vista do lado sul, na freguesia de Pedro Miguel (foto tirada de Sul para Norte).

Tal como a falha da Ribeira do Rato, esta também tem uma escarpa muito inclinada para sul, assinalada a vermelho na foto acima, e, novamente, os terrenos que se situam a sul desta falha estão abatidos em relação aos do bloco norte, ao contrário das falhas a sul da freguesia de Pedro Miguel.
A escarpa de falha é tão inclinada que na sequência do sismo de 9 de Julho de 1998 grandes escorregamentos ocorreram nesta escarpa, ainda visíveis presentemente, contudo, se nos deslocarmos ao ponto I assinalado no cimo da escarpa (clique na foto para ampliar), obtemos a morfologia da foto abaixo.

Onde se verifica que a vertene norte da Lomba Grande é muito menos inclinada, o que permite o desenvolvimento das pastagens típicas das zonas altas do Faial, cujos minifundios são separados por hortências que florescem de Junho a Agosto. Nota: A linha vermelha à direita dos terrenos (mais evidente se clicar na imagem) é o topo do degrau e aproximandamente coincidente com o ponto I da foto anterior.


Na vertente sul apenas as árvores conseguem suportar tão grande inclinação, pelo que, naturalmente o solo se encontra sem uso humano, contrariamente ao que acontece aos terrenos horizontais situados no bloco abatido da falha, novamente com pastagens.

Escarpa da Lomba Grande vista numa zona mais para o interior da ilha na freguesia de Pedro Miguel

A freguesia de Pedro Miguel desenvolve-se no bloco abatido a sul das escarpas da Ribeira do Rato e da Lomba Grande assinalada na foto.

A norte desta lomba outra interessante ocorre, a última desta série a tratar aqui, mas que tem uma particularidade que depois de mostrada é tão evidente aos olhos de qualquer um, embora seja uma característica comum a todas as seis falhas até agora mostradas.